Crônica de Enoleide Farias: “Morreu de que?

Morreu de que?

Enoleide Farias
enoleide@yahoo.com.br.

Sentado na rede, à sombra da velha mangueira, Deca observa o movimento na avenida que passa transversal à rua de casa. Não é uma visão privilegiada, de onde está enxerga apenas um pedaço da via, à frente do velho cemitério, mas já é o suficiente para lhe dar certeza de que lá vem mais um enterro. Mais cedo ouvira o sino da matriz, naquele dobrado de badaladas longas e significado mórbido.

Com mais de 80 anos Deca já viveu o bastante para reconhecer o significado das badaladas independente de toques, repiques ou dobrados. Daquela vez o sino anunciava a morte de um homem. Mais tarde um carro de som passará informando o nome do falecido e convidando a todos para os atos de fé cristã, a missa de corpo presente, na Igreja de São João Batista e o sepultamento no cemitério municipal, que leva o mesmo nome. Agora ele acompanha o alvoroço que começa a se formar à frente do cemitério.
Morando na mesma casa há mais de 50 anos já se acostumou com tudo aquilo. Independente do status do defunto, primeiro chegam os curiosos, que depois de se inteirarem sobre onde o morto vai ser enterrado, num túmulo ou numa cova, ocupam a Praça do Campo Santo até a chegada do caixão.

Os movimentos seguintes dependem da posição social do defunto. Quando se trata de alguém abastado o carro funerário chega seguido de um cortejo de outros carros, das coroas de flores e, às vezes, até de autoridades como o prefeito e o padre. Se o enterro é de pobre chega em procissão com alguns homens carregando o caixão, seguidos de pessoas a pé, a maioria parentes e amigos. Num caso ou no outro, sempre tem gente de quem o morto nunca ouviu falar, pessoas que se unem aos amigos e familiares na última homenagem àquele que se vai. No interior enterro é assim mesmo, desperta a atenção de todo mundo.

– Quem morreu? Pergunta a vizinha da direita que como Deca já mora ao lado do cemitério há muito tempo e, também, já se acostumou àquele movimento.
– Um bichão, disseram o nome dele no carro de som. Responde e continua comentando que pelo número de carros, era mesmo um bichão.

É como se referem às figuras proeminentes, àquelas reconhecidas na cidade, grandes comerciantes, políticos, alguém de família importante. Em seguida começam a deitar especulações sobre o defunto. Se era rico, se tinha cargo público, se era moço ou se era velho, se deixou viúva e filhos ou se tinha algum filho fora do casamento.

– E morreu de que? Chega mais um vizinho para participar da conversa.

– De acidente não foi, porque não ouvi nada no rádio.

O rádio é ainda o principal meio de informações de Deca e da maioria dos seus vizinhos. Quando não há relatos sobre acidentes, quando ninguém nada ouviu no rádio, as primeiras considerações sobre a morte de alguma pessoa ainda são as mesmas de muitos anos atrás, do tempo dos seus pais e avós, quando as pessoas morriam “tisgo”, que seria tísico, de repente ou daquela doença. Tuberculose era doença do peito e a pessoa morria “tisgo”, doença no coração era colápso e a pessoa morria “de repente”, e quem tinha alguma ferida que não curava, como o câncer, morria “daquela doença”.

Era assim que se dizia no interior antigamente, quando para falar sobre essas doenças tinha até trejeitos: escarrando, quando se falava em tuverculose, levando à mão ao peito, se a doença era do coração ou se benzendo, quando a moléstia era o câncer. Ainda hoje o uso dessas expressões, popularizadas pelo senso comum e pelo costume de outrora, permanece. E mesmo naquela cidade, que há muito já não é apenas uma pequena cidade do interior, os hábitos comezinhos, que aproximam as pessoas e facilitam os entendimentos cotidianos, permanecem.

Enquanto o grupo resmunga memórias o movimento no cemitério segue. Os agentes do serviço funerário, que carregavam as coroas de flores, se dirigem de volta ao carro preto. Alguém se espicha para olhar por sobre a parede e comenta que muita gente já está indo embora. Poucas pessoas se movimentam na grande calçada, parentes são amparados e consolados enquanto enxugam as lágrimas de saudade e dor. Até os meninos que foram ver aonde ficava a cova, antes do enterro chegar, começam a atravessar o portão, agora de saída. Deca e os vizinhos continuam debaixo da velha mangueira onde a conversa segue descontraída. Outros assuntos já dominam a roda, o interesse pelo enterro cessou.

Pois sim! Não dizem que o stress é a doença da modernidade, então para que se preocupar? Além disso, se não é um parente, que diferença faz saber de que morreu? Para que correr atrás de uma resposta que não vai mudar em nada a situação? Assim, “tisgo”, de repente ou daquela doença, já é uma boa resposta para aquela pergunta.
– Morreu de quê?

*A autora é jornalista e publica sua crônica aos domingos. Para ler a crônica anterior, CLIQUE AQUI.

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Um comentário em “Crônica de Enoleide Farias: “Morreu de que?

  • 27/08/2019 em 01:02
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    Essa pergunta é típica do interior. E contada dessa forma, até a morte torna-se engraçada! Desculpem, mas a forma como a jornalista contábeis fatos, nos remete aos espaços, fazendo com que façamos parte da crônica. Parabéns!

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