Crônica de Enoleide Farias: Um Sargento de Mossoró

Memórias sobre um Sargento de Mossoró

Enoleide Farias* 
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

O título remete ao livro Memórias de um Sargento de Milícia, do qual muito ouvi falar, mas que ainda não li. O relato tem a ver com a história de um sargento da Polícia Militar, nascido em Angicos, que viveu na cidade de Mossoró. Era o segundo filho de uma grande família de Josés e Marias, nomes comuns lá em casa. Neste 25 de agosto, Dia do Soldado, escrevo em sua memória. E em homenagem aos homens e mulheres que, como ele, abraçaram a carreira militar.

Era o tempo do Trem da Esperança, lá do Sertão do Cabugi, no começo da década de 60. O rapaz, nascido José e apelidado Dinha, levava a vida trabalhando nas empreitadas que seu pai fazia com os fazendeiros da região. Era comum, naquele tempo, famílias inteiras trabalhando nos roçados. O grande Luiz Gonzaga até cantou esse costume na música Algodão: “Mas quando chega o tempo rico da colheita, trabalhador vendo a riqueza, que beleza, pega a família e sai, pelo roçado e vai cantando alegre, ai, ai, ai”…

Foi assim com o meu irmão até que completasse 18 anos e seguisse para o alistamento militar, em Mossoró. Queria muito ser um soldado, mas não tinha estudo. Precariamente, sabia ler e escrever. Nas contas, dominava a tabuada de mais e a de vezes. Mas era só. Mesmo assim, descrente, se alistou no Exército e, para sua alegria, não foi dispensado, engajou. Quando terminou o tempo obrigatório de serviço se arvorou todo para entrar na Polícia Militar. Dizia que tinha corpo, inteligência, jeito pra coisa. Só não tinha estudo. Mas, se havia ingressado no Exército, que era possível, sim, entrar para a Polícia. Assim, com esforço e com a experiência adquirida, em 1962 entrou para a Policia Militar do Rio Grande do Norte. Para servir no destacamento do 2º Batalhão da PM, em Mossoró.

Passava muito tempo no quartel, porque com os pais morando noutra cidade só os visitava esporadicamente. Era com os colegas da Companhia que dividia muito do seu tempo, com quem compartilhava as histórias, conquistas e perdas da mocidade. Não demorou muito, virou cabo. Não demorou muito, virou sargento e casou com uma professora. Seguiu feliz na carreira que escolhera, até que se aposentou sub-tenente, com direito a placa de homenagem, em 1990.

O civismo era algo cultivado no seu tempo, quando “todo mundo respeitava a Bandeira do Brasil, o Hino Nacional e o Rio Grande do Norte esplendente, indomado, guerreiro e gentil…” Sabia de cor o hino do Estado. Ele também era assim, indomado, guerreiro e gentil. Particularmente, gentil. Com o tempo aprendera que as armas de um soldado, ou de qualquer outro guerreiro, não são apenas de metal, armas de fogo. Podem ser também de papel, os livros. Que quem conhece a segunda, aprende a usar melhor a primeira. E que a gentileza pode fazer toda a diferença, em tempos de guerra e de paz.

Em Mossoró todo mundo conhecia o Sargento Farias, “porque militar não tem nome, tem sobrenome”, gostava de falar. Era chamado assim pelos colegas de farda, pelos vizinhos do bairro Santo Antônio e dos outros bairros. Paredões, Alto São Manoel, nas Barrocas ou no Centro da cidade onde, depois de aposentado, fazia praça como motorista de taxi. Era Sargento Farias, também, em Tibau e na Praia do Ceará, para onde ia nos dias de folga, pedalando a velha bicicleta. Afinal, todo bom mossoroense possui uma bicicleta. Foi delegado em Grossos, Dix-Sept Rosado, Baraúnas e no friozinho da serra de Almino Afonso. “Caraúbas não vale, porque fui o único delegado relâmpago de lá. Só uma semana”, brincava.

Uma lembrança marcante do Sargento de Mossoró era o riso fácil. Uma pitoresca, as mais de 30 cadeiras que uma vez contamos na sua casa e uma antiga vitrola, daquelas que tocava disco de vinil. A mais saudosa imagem é de quando ele e a mulher passaram uns dias na minha casa, em Natal. Ela se recuperava de uma cirurgia e ele a acompanhava. E todas as tardes os dois saíam à varanda, sentavam-se lado a lado e o sargento lia para a professora. Para sua professora de toda vida. Se aperfeiçoara na leitura com ajuda da mulher e lendo as revistas de Tex Willer, aquele herói americano, parceiro de Kit Karson. Tinha uma coleção delas, que a família guarda até hoje. Os livros vieram depois.

Durante muito tempo o cheiro das flores de um jasmim-vapor fazia parte das boas vindas a quem chegasse à sua casa, em Mossoró. Só nos últimos anos o pequeno jardim deu lugar à uma varanda com grades de ferros, exigência desses tempos de insegurança, explicava. Foi na mesma casa no bairro Santo Antônio, na Rua Raul Caldas, pertinho da 1º de Janeiro, que o sargento morou por mais de 50 anos. Teve dois filhos e um único neto, que recebeu o seu nome, José Januário de Farias.

Alí, na mesma casa, perto de completar 80 anos, numa madrugada de 2015, enquanto se entretinha relendo Tex Willer, o sargento partiu. Disciplinado e destemido, encerrava o bom combate da vida. Era um bom soldado aquele meu irmão, aquele Sargento de Mossoró.

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos 

Para ler a crônica anterior, CLIQUE AQUI.

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4 comentários em “Crônica de Enoleide Farias: Um Sargento de Mossoró

  • 25/08/2019 em 08:57
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    Crônica maravilhosa

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    • 27/08/2019 em 00:55
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      Muito feliz em poder ter lembranças de tempos idos e saber de sua infância e adolescência assim, de uma forma tão agradavel! Continue nos presenteando aos domingos com essas belezas!

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  • 28/08/2019 em 15:52
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    Muito boa crônica, com simplicidade e autenticidade, dá para sentir nas palavras vibrantes o amor contido no texto.

    Resposta

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