UFRN leva hortas pedagógicas a escolas públicas

Marcelha Pereira, sob supervisão da Agecom

Uma iniciativa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) está inserindo hortas pedagógicas em escolas da rede básica de ensino norte-rio-grandenses e mudando a visão de diversas crianças em relação ao meio ambiente. A educação é a base para o Laboratório Horta Comunitária Nutrir, o LabNutrir, do Departamento de Nutrição da UFRN, que, com menos de dois anos de atividade, já modificou o modo de consumir alimentos de nove escolas. O projeto deu tão certo que foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em março de 2018, como uma iniciativa que colabora para a promoção da alimentação como direito humano.

A rotina das crianças e adolescentes das escolas beneficiadas pelo Laboratório foi alterada completamente. Agora, eles estão inseridos em um ambiente onde são apresentadas as novas consciências tanto no âmbito ambiental quanto no social. No LabNutrir, a sala de aula é do lado de fora e o contato com o ar puro e a terra modifica o modo como os alunos acessam a educação. Aprender noções de matemática, geografia e outras disciplinas se tornou mais emocionante. Além disso, eles aprendem a produzir em hortas o próprio alimento. Foi, inclusive, esta iniciativa que possibilitou o reconhecimento da ONU.

No município de Maxaranguape, duas escolas participantes do projeto, a Creche Aprender em Boas Mãos e a Escola Municipal Pedro Costa, aproveitam os alimentos produzidos para complementar a alimentação escolar das crianças e adolescentes. Carla do Nascimento, nutricionista e coordenadora do Núcleo de Apoio à Saúde da Família do município, foi colaboradora do LabNutrir na implementação das hortas dessas escolas. Segundo ela, o Laboratório mostrou que todos podem fazer melhor quando aprendem sobre a biodiversidade e a sustentabilidade. “A comunidade também se sente responsável em cuidar da horta. Foi uma parceria que deu muito certo e trouxe muitos resultados e frutos”, acrescenta.

Outra beneficiada foi a Escola Estadual Elia de Barros, de São Gonçalo do Amarante/RN. A professora Hosana Silva explica que antes da horta pedagógica da escola, nomeada Semear, o espaço era vazio, mas agora serve como ambiente de aprendizagem, interação e troca de experiência. A produção da horta também tem como destino a merenda dessa escola. “O impacto não fica apenas nos muros da escola. Diariamente alguém, aluno ou funcionário, busca informações sobre como cultivar horta orgânica, pede sementes de hortaliças para produzir em casa uma horta”, explica Hosana.

ALÉM DOS MUROS

Produção de bolo pelos alunos da Escola Municipal Pedro Costa de uma variedade roxa de batata-doce, chamada de batata-beterraba – Foto: Fábia Mendes
Produção de bolo pelos alunos da Escola Municipal Pedro Costa de uma variedade roxa de batata-doce, chamada de batata-beterraba – Foto: Fábia Mendes

O LabNutrir procura inovar na formação de profissionais de Nutrição preparados para entregar serviços úteis à comunidade. A equipe de 50 pessoas, entre alunos, professores, servidores e colaboradores externos, parte do princípio de que a alimentação também pode ser um ato social e político e enxergam a alimentação além do aspecto nutricional.

A ideia do Laboratório surgiu dentro da própria Universidade com a primeira horta pedagógica do Departamento de Nutrição. Após a implementação, os participantes perceberam que era possível trabalhar com a educação experiencial e que os estudantes passaram a sentir mais estímulo em aprender em contato com a prática. A atividade foi tão bem vista que, hoje em dia, quatro disciplinas do curso de Nutrição funcionam dentro da horta.

A partir desse primeiro passo, veio a vontade de expandir e levar a metodologia para fora da UFRN. Michelle Jacob, professora coordenadora do LabNutrir, explica o porquê de levar as hortas para as redes básicas de ensino: “Trabalhar com hortas escolares está relacionado a um maior consumo de frutas, legumes e verduras por parte dos alunos, promovendo saúde e educação, assim como a inclusão e socialização, já que alunos portadores de necessidades especiais têm um melhor rendimento quando estão trabalhando dentro da horta”.

A coordenadora também explica que são escolhidas escolas em situação de vulnerabilidade social. Mas apenas plantar a horta não é o suficiente, já que ela não cresce sozinha, e é por isso que o LabNutrir inclui todas as pessoas que participam da comunidade escolar no processo de construção. Pais, mães, avós, professores, funcionários e alunos são inseridos no método de aprendizagem baseado em hortas.

Essas pessoas estão envolvidas em todas as fases do projeto, desde o seu desenho, implantação, manutenção e atividades avaliativas. Isso faz gerar uma noção de identificação, empatia e cuidado com a horta, que funciona como um laboratório vivo. Todos são beneficiados e convidados a experimentar e colaborar. Os estudantes, em especial, acabam aprendendo muito mais, já que eles levam o conhecimento obtido fora de sala para dentro dela.

Para Thiago Perez Jorge, professor coordenador do projeto junto a Michelle Jacob, o LabNutrir representa “a vivência de um processo de aprendizagem que, ao religar um sentido comunitário a uma vida na natureza por meio da horta, produz saberes e práticas contra-hegemônicos ao atual sistema alimentar”.

PRODUZINDO SABERES

Outro benefício das hortas pedagógicas implementadas nas escolas é que o LabNutrir faz questão de incentivar o cultivo de plantas não convencionais, tipicamente brasileiras. Na carta acima, as plantas Cariru (do Norte do país), Xanana (de Natal/RN) e Beldroega (do Sudeste do país) são mencionadas. Elas são exemplos das plantas trabalhadas pelo Laboratório e revelam a importância de mostrar aos alunos cultivos que antes eles não conheciam.

Michelle Jacob, a professora coordenadora, menciona que a alimentação também pode ser um ato político, aspecto que comumente é separado dela. Ao trabalhar essas espécies de plantas para cultivo, incentiva-se o reconhecimento com a terra nativa brasileira. Não é comum vê-las no mercado hegemônico e muitas vezes essas crianças não sabem da existência delas. É por isso que, além das plantas conhecidas por todos, como o feijão, cenoura e alface, são apresentados outros leques de possibilidades de plantação. Ela acrescenta ainda que muitas famílias passam a pegar mudinhas de plantas para plantar em casa e comercializar na feira, tornando-se o sustento familiar.

Sendo um laboratório a céu aberto, o LabNutrir também se preocupa com a capacitação dos profissionais que colaboram com as hortas de todas as escolas participantes do projeto. Eles oferecem palestras, minicursos e oficinas para melhorar o desenvolvimento desses colaboradores no cuidado diário com a plantação e cultivo. O próximo curso a ser oferecido acontece das 8h às 12h durante os dias 18, 19 e 20 de setembro, que terá como abordagem a Agroecologia, Sementes Crioulas e Compostagem: construindo hortas da teoria à prática. As inscrições são abertas ao público via Sigaa.

“JUNTOS FAZEMOS MELHOR”

Carta de agradecimento de alunos, com apoio dos professores, à equipe LabNutrir
Carta de agradecimento de alunos, com apoio dos professores, à equipe LabNutrir

A fala da nutricionista e coordenadora do Núcleo de Apoio à Saúde da Família de Maxaranguape, Carla do Nascimento, consegue retratar o sentimento que engloba cada atividade do LabNutrir. Em abril de 2019, eles organizaram um evento para mostrar como foi a atividade deles nas escolas da rede básica para outros professores e gestores. Representantes do Núcleo de Educação da Infância (NEI/UFRN) e do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), campus Ceará-Mirim, também estavam presentes, assim como outras duas instituições privadas de Natal.

O evento serviu para firmar novas parcerias e projetos futuros já estão surgindo. Paulo Eurich, pedagogo do LabNutrir, explica que, após o encontro, a horta pedagógica do IFRN/campus Ceará-Mirim começou a ser pensada e em outubro deste ano começará a ser implementada. Como a horta será trabalhada com foco nos adolescentes, há muito o que se aproveitar dos conhecimentos já existentes dentro deles.

Em relação à horta do NEI/UFRN, Paulo diz que eles estão trabalhando inicialmente em uma pequena horta focada em temperos e seus cheiros, para estimular o olfato das crianças do ensino infantil. Ela servirá como uma porta de entrada para a implementação da horta pedagógica oficial, com mais espécies de plantas, que será trabalhada com os alunos do ensino fundamental. Por enquanto, o espaço da horta maior será usado para a compostagem de resíduos alimentares do próprio NEI. Um fato interessante é que os bancos e mesas da horta oficial serão feitos de troncos provenientes de podas das árvores da UFRN.

A reação de colaboração e construção das hortas pedagógicas do LabNutrir é em cadeia. Cada vez mais colaboradores, escolas e famílias passam a ser incluídos nessa corrente. A alimentação de muitas crianças e suas famílias foram transformadas, e ainda serão. A construção das hortas mostra não apenas a importância de se alimentar de forma saudável, mas que se deve olhar com carinho e atenção para o meio ambiente, que oferece tudo o que necessitamos. A lição final é a de que é preciso agregar e transformar, pois apenas em conjunto se faz algo melhor.

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