Crônica de Enoleide Farias: “Tempo de colheita”

Tempo de Colheita

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Era nas madrugadas que o meu pai nos chamava, quando começava o tempo de colheita e a gente precisava ajudá-lo nas empreitadas que fazia com os donos de fazendas. Depois que eu cresci, percebi porque aquelas madrugadas me fizeram amante do amanhecer e do entardecer.

Na primeira vez que ele sacudia os punhos da rede a gente sabia que ia começar o movimento, mas que não era ainda hora de levantar, dava para ficar na rede mais um pouco, dar uma espreguiçada e puxar o lençol, se protegendo da lufada de vento frio que entrava pela porta recém aberta da cozinha. Às vezes, até dava para mais um cochilo, porque ele ainda iria fazer o fogo, o café e selar a burra.

O fogão era a lenha, feito de barro, e ia de uma parede a outra da cozinha estreita, com duas trempes, para abrigar até duas panelas por vez. Uma parte de barro alisado servia para colocar os utensílios usados para fazer o café, a comida, e para sustentar um alguidar com água para lavar as mãos. Em baixo tinha espaço para colocar a lenha, os gravetos, a lamparina, o querosene e outras coisas mais.

Depois que fazia o café ele voltava até o quarto e sempre conversava alguma coisa com minha mãe, aí passava na sala pegava a cangalha e outros apetrechos pra arrumar a burra, nosso animal de transporte. Era nessa hora, ainda “com escuro” que ele balançava o punho da rede mais uma vez e dizia: – Tá na hora! Vão tomar café. – E enquanto a gente se lavava, ele fazia o escaldado de café com farinha. E enquanto a gente comia, ele arrumava a burra. E enquanto a gente se dirigia para o quintal, ele tomava um gole de café. Apenas café.

Os galos cantavam, anunciando que dali a pouco o dia estaria amanhecendo, e a minha mãe agora já levantara, acompanhava tudo, ajudando aqui e ali. Dependurado na cangalha ia o necessário para a diária: os bisacos, alguns víveres e as cabaças d’água, sempre arrumados com o cuidado de dividir o peso e o volume, porque também ali íamos eu e meu irmão.

A cangalha é um objeto com uma armação dupla em forma de V, empalhado e revestido de tecido, com o assento um pouco mais extenso que o assento de uma sela, que é de couro. Eu ia sempre no vão da cangalha e me equilibrava segurando no acabamento de madeira, que ficava a mostra sobre o lombo do animal. Meu irmão às vezes também ia ali e outras vezes ia na garupa, aquele espaço que sobra do lombo, as ancas, entre a cangalha e o rabo. Eu acho que devia ser desconfortável ir na garupa, mas ele preferia porque podia pular do animal sempre que quisesse, embora meu pai não gostasse desse costume, porque logo ele queria subir outra vez.

Uma breve despedida e a gente pegava o caminho que começava na porteira do quintal de casa e seguia estreito entre pés de velames, pereiros, mufumbos, sempre fazendo curvas à direita ou à esquerda, conforme a disposição das casas, construídas sem seguir qualquer disposição simétrica. Só depois da casa de madrinha Sonsa pegávamos um trecho mais reto, que seguia até a estrada de rodagem, passando pela casa de Dona Nanu, uma senhora que criava muitos bichos e as mais diversas aves. Tinha galinhas, galos e guinés, tinha perus e os coloridos pavões que, nas primeiras horas do amanhecer, corriam de um lado para o outro e enchiam de sons e encanto aquele trecho do caminho.

Depois da casa de Nanu, e quando já se passara pelo menos uma hora, atravessávamos a estrada de rodagem e a porteira do outro lado, para dentro de mais alguns minutos chegar à casa principal da propriedade rural. Não lembro ao certo o nome daquela fazenda, tinha alguma coisa com Praxedes, mas eu não consigo recordar. Só não esqueci que a casa grande, embora fosse muito grande e pintada de branco, era muito feia. Não tinha aquelas imensa janelas, nem aqueles grandes alpendres na frente e nos lados, como a gente vê nos livros de história. Tinha, apenas, uma pequena cobertura na parte detrás.

Na frente da casa tinha uma calçada mais alta e quando a gente apiava meu pai colocava lá a cangalha e os outros pertences. Depois prendia a burra em alguma estaca ou tronco de árvore próxima, de modo que o animal pudesse ficar pastando por alí. Embora o capim não fosse abundante, sempre tinha alguma coisa que servia de alimento e uma gamela com água. Pela manhã, antes de sair, e no final da tarde, quando a gente chegava em casa, ele alimentava a burra com milho.

Os roçados ocupavam as terras na frente, nas laterais e por trás da casa feia. Eram lavouras de feijão, milho e algodão, cuja colheita o dono da fazenda aprazava com os lavradores. Outros caboclos também levavam seus filhos, mesmo os menores, para aumentar a produtividade, mas eu nunca vi outra menina por lá. Meu pai devia me levar porque meu outro irmão já era rapaz feito e tinha outro trabalho, e a minha irmã, maior que eu, precisava ajudar a minha mãe com mais duas filhas menores. Éramos uma grande família, e mesmo quando a minha mãe dizia que eu precisava estudar, meu pai argumentava que daquela vez era preciso que eu fosse. E eu ia.

Quando a gente saía para o roçado colocava sobre a roupa comum uma camisa de tecido mais escuro, geralmente de mescla ou cáqui, um chapéu de palha e um bisaco transpassado do ombro à cintura, para colocar o que colhesse, feijão ou algodão. Criança não apanhava milho, porque um pé de milho cresce mais que um menino e para quebrar a espiga é preciso ter altura e ter força. Então apanhar milho era trabalho de adulto. A gente não reclamava por qualquer coisa e até se divertia no meio das fileiras de algodão, por entre os pés rasteiros do feijão. De tempos em tempos meu pai gritava ou assobiava, o que nos deixava seguros. Depois ele aparecia trazendo a rapadura que a gente comia com farinha, e a cabaça com água para beber.

Lá pelas onze horas a gente ia almoçar na casa feia, naquele puxado de trás, junto com os outros trabalhadores. Antes de voltar para o roçado, enquanto eu, meu irmão e os outros meninos brincávamos, os homens se estiravam pelos oitões da casa, onde quer que houvesse alguma sombra, para em poucos minutos se levantar e começar tudo de novo: catar algodão, apanhar feijão, quebrar o milho, comer rapadura, tomar água na cabaça… até que era a hora de voltar para casa. O dia terminava cedo, ainda claro e com sol, porque era preciso chegar antes do anoitecer. E ainda era preciso pesar o que havia sido colhido, anotar nas cadernetas, arrumar a burra, dependurar os bisacos na cangalha, montar os meninos e tudo mais para viagem da volta.

Era de tardezinha quando saíamos, meu pai de novo à frente do animal segurando o cabresto e usando uma pequena vara para indicar a direção, quando preciso. Cada dia a gente presenciava um espetáculo único da natureza, um por-do-sol que sempre parecia, mas nunca se repetia. Às vezes o céu ficava vermelho, às vezes laranja, às vezes ficava até esverdeado. E às vezes, como se estivesse cheio de escamas, aí meu pai dizia que o mar nesses dias estava mais cheio de peixes. Ele conhecera o mar anos trás, no tempo da guerra, quando muita gente fora para a capital, para o serviço militar. Mas assim que pôde voltou para o sertão, porque morria de saudade, dizia minha mãe.

Quando o sol ia baixando rolinhas, concrizes, galos de campina e até o gavião cruzavam os ares à nossa frente. Eu gostava de ver e ouvir os rasantes dos pássaros, que nessa hora voam mais baixo, procurando se abrigar nos galhos das árvores. Ou nos ninhos, aqueles que cuidam de seus filhotes. E quando eu passava ao lado da casa de Dona Nanu, embora parecesse que estava amanhecendo, não havia mais galinhas nem guinés, ou patos, ou perus, nenhum pavão colorido correndo pelo quintal. Todos já estavam nos poleiros, se aninhando para dormir.

E eu pensava que dali a pouco eu também me recolheria. Logo seria de novo “com escuro”, e era preciso descansar. De madrugada começaria tudo outra vez, até que terminasse esse tempo de colheita.

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “O mundo grisalho e as lembranças de Mãe Bela”, acesse: https://pordentrodorn.com.br/2019/09/29/enoleide-o-mundo-grisalho-e-as-lembrancas-de-mae-bela/

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4 comentários em “Crônica de Enoleide Farias: “Tempo de colheita”

    • 06/10/2019 em 23:19
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      Além de jornalista, uma ilustre escritora, parabéns e susseso!

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  • 08/10/2019 em 12:20
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    Essas lembranças me tocam profundamente

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