Francisco abre o Sínodo desmistificando ideologias

Sumo Pontífice diz que a reunião episcopal não é um Parlamento; “é um caminhar juntos sob a inspiração do Espírito Santo”

Cidade do Vaticano
Portal do Vaticano

Os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia tiveram início na manhã desta segunda-feira (07/10) com um momento de oração diante do túmulo de Pedro, na Basílica Vaticana, intercalado com um canto da região amazônica, seguido pelo Veni Creator.

Os participantes, bispos de todo o mundo, inclusive 58 brasileiros, seguiram em procissão até a sala sinodal levando cartazes com imagens de mártires e frases da encíclica Laudato Si’ e símbolos da região amazônica, como o barco, a rede e objetos indígenas.

O Pontífice fez a saudação inicial, agradecendo a todos pelo trabalho realizado desde sua visita a Puerto Maldonado, no Peru.

DIMENSÃO PASTORAL
“O Sínodo para a Amazônia tem quatro dimensões”, explicou o Papa: pastoral, cultural, social e ecológica. “A primeira é essencial porque abarca tudo e vemos a realidade da Amazônia com olhos dos discípulos, porque não existem hermenêuticas neutras, ascéticas, sempre estão condicionadas a uma opção prévia, e a nossa opção prévia é a dos discípulos. Mas também com olhos missionários, porque o amor que o Espírito Santo colocou em nós nos impulsiona ao anúncio de Jesus Cristo.”

Francisco advertiu para as colonizações ideológicas, que fazem ver a realidade com programas pré-confeccionados com o afã de domesticar os povos originários. “As ideologias são uma arma perigosa”, afirmou, porque levam a visões redutivas, a entender sem admirar, sem assumir, sem compreender.

A realidade é absorvida com categorias “ismos”. O lema “civilização e barbárie” serviu para dividir, aniquilar os povos originários, demonstrando todo o desprezo por eles.

UM SÍNODO, NÃO UM PARLAMENTO
O Pontífice citou a experiência que a própria Argentina viveu com estes povos e as atitudes depreciativas que continuam até hoje, expresso inclusive na linguagem.

Contra o risco de medidas pragmáticas, o Papa propõe a contemplação dos povos, a capacidade de admiração e um pensamento paradigmático. “Se alguém veio com intenções pragmáticas, converte-se para atitudes paradigmáticas, que nasce da realidade dos povos”, afirmou.

Francisco alertou ainda para os riscos da mundanidade, “que sempre se infiltra e nos faz distanciar da poesia dos povos. Viemos para contemplar, compreender, servir os povos e fazemos percorrendo um caminho sinodal, não numa mesa-redonda, em conferências ou em discursos, mas em sínodo. Porque um Sínodo não é um parlamento, um locutório, é um caminhar juntos sob a inspiração do Espírito Santo e o Espírito Santo é o protagonista do Sínodo”.

PONTO DE PARTIDA
Quanto ao Instrumento de trabalho, documento pré-elaborado para a discussão dos bispos sinodais, o Papa o qualificou como “mártir”, destinado a ser destruído, pois é o ponto de partida.

“Vamos caminhar sob a guia do Espírito Santo, deixar que Ele se expresse nesta assembleia, entre nós, conosco, através de nós e se expresse apesar da nossa resistência.”
Para assegurar que a presença do Espírito Santo seja fecunda, Francisco indicou antes de tudo a oração – “rezemos muito”. “É preciso também refletir, dialogar, escutar com humildade, sabendo que eu não sei tudo e falar com coragem, com paresia, “mesmo que tenha que passar vergonha”, discernir e tudo isso dentro, custodiando a fraternidade que deve existir aqui dentro.”

Dos mesmo modo, a fim de favorecer essa atitude de reflexão, oração, discernimento, depois das intervenções haverá um espaço de quatro minutos de silêncio. “Pois estar no Sínodo é entrar num processo, não é ocupar um espaço na sala, e os processos eclesiais têm necessidade de ser custodiados, cuidados com delicadeza, com o calor da Mãe Igreja.”

Francisco então indicou prudência ao falar com os jornalistas, para não se criar a impressão de que exista um “Sínodo dentro” e um “Sínodo fora”. “Uma informação impudente leva a equívocos.”

VOZ DA CNBB
Numa entrevista que concedeu após a primeira reunião de trabalho, o presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte, concedeu uma entrevista ao portal Vatican News.

– Nós aqui estamos não como um Parlamento, não como uma organização governamental ou não governamental. Estamos aqui como Igreja, estamos aqui sendo Igreja, abertos a ação do Espírito Santo de Deus – disse ele repetindo o que falara o Papa Francisco.

E prosseguiu:
– Precisamos das orações de todos, precisamos de comunhão e de muita escuta. Eu tenho certeza que Deus nos conduzirá neste caminho e que nós encontraremos as respostas novas que a Igreja precisa dar nesses tempos.
– No Brasil – acentuou – nós temos uma população de 20 milhões de habitantes presentes ali na Amazônia. Portanto, é uma presença significativa e muito importante e significativa é a escuta desses padres sinodais, que vivem o seu dia a dia, sua missionaridade e sua oferta bonita ao povo de Deus que ali se encontra.

ÍNTEGRA DA ENTREVISTA
No vídeo a seguir, a íntegra da entrevista do presidente da CNBB:

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