Enoleide Farias: “Brincadeiras de criança”

Brincadeiras de criança

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Acordo com o foguetório que abre a programação do dia de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil e do bairro de Neópolis, aqui perto de casa. Todo ano é assim, às 6 horas da manhã o estralar dos foguetões anuncia o início das celebrações e para a igreja acorre um grande número de pessoas, fieis em busca de proteção e outras graças. Famílias inteiras, gente de todas as idades, incluindo as crianças. Assim, visto que 12 de outubro também é consagrado às crianças, peço licença à santa para delas falar. Aliás, para falar de umas poucas brincadeiras do meu tempo de criança.

No grupo escolar ou nos terreiros do Alto da Alegria, Chico Cuca era de quem todo mundo se lembrava quando uma criança queria um peão, uma baladeira ou uma arraia, brinquedos que ele fazia utilizando os recursos de que dispunha, troncos de árvores, folhas de carnaúba e coisas simples, como a borracha das câmaras de ar de pneus usados. Aprendera muito cedo a fazer seus apetrechos de caça, de pesca e os brinquedos de que todo menino gostava. Rapazola, continuava cultivando os dotes de artífice e continuava sendo um grande brincalhão.

Para fazer um peão Chico só precisava de boa madeira, um prego e um pedaço de cordão. Procurava a madeira nas cercanias de casa, considerando o peso e a rigidez. Porque se o peão fosse muito leve, quando caía ao chão logo parava de rodar, derrubado pelo vento. E porque se fosse para brincar de “matar o peão”, precisava ser resistente, porque nesse caso a brincadeira consistia em atirar um peão sobre o outro, numa prática que envolvia pontaria e força. Eu sempre achava a brincadeira de matar o peão parecida com uma briga de galos, porque nessas disputas todos os meninos ficavam muito alvoraçados e todos os peões saíam bicados, feridos. E às vezes, partidos, mortos.

Confeccionar um peão não era uma coisa rápida, podia demorar dias, mas Chico era paciente e caprichoso. Primeiro esculpia a madeira em forma de cone e depois utilizava um objeto de forma circular para dar simetria. A cabeça que prende o cordão na parte superior era feita do mesmo pedaço de madeira, e a ponta, na parte inferior, com um prego enfiado cuidadosamente para não rachar o brinquedo. O acabamento na madeira era feito com uma lixa e a ponta do prego desgastada em uma pedra, para que o peão não afundasse no chão ou furasse a mão de quem fosse usá-lo. Como Chico, eram muito os meninos que jogavam o peão no ar para depois apará-lo na mão, enquanto o brinquedo dava voltas sobre si mesmo.

Para fazer baladeiras era preciso um pedaço de madeira em forma de forquilha, um pedaço de couro e tiras borrachas. Chico usava forquilhas de pereiro para os cabos das baladeiras, porque eram firmes. Mas dizia que os galhos precisavam ser, no máximo, da grossura de um dedo, para não pesar na hora de atirar a pedra. Para ligar o cabo ao couro ele usava a borracha dos pneus de caminhão, cortadas em tiras. As mais largas para fazer os arreios e outras bem fininhas, parecendo elásticos, para fazer as amarrações. Já o couro, explicava com toda sua experiência de jovem caçador, não podia ser muito grande, para não ficar bambo; mas também não podia ser muito pequeno, porque senão não suportaria uma pedra mais pesada, que pudesse matar um bicho maior, como um tejo. Os meninos do Alto da Alegria caçavam rolinhas, galinhas d’água, calangos e até tejos. Aquela espécie de lagarto da caatinga, que parece uma lagartixa que cresceu demais ou um jacaré que cresceu de menos.

Agora, quando as tardes eram claras e de ventos bons o melhor era brincar de arraia. Arraia é o mesmo que pipa, e Chico as confeccionava com os palitos que dão a forma de sanfona às folha de carnaúba e com folhas de papel de seda coloridas. Vermelho e azul eram as cores que todo mundo preferia, mas ele gostava das mais claras, por isso usava muito o papel de seda rosa e o branco. Cruzava cinco palitos e amarava-os com linha ursa, uma linha de algodão mais resistente, desenhando o formato sextavado. Depois, cobria a armação com o papel de seda, usando uma cola feita de goma seca. Por último armava o cabresto para a linha-de-solta, que era de náilon, e amarrava a rabiola feita com tiras de panos velhos. Era naquelas tardes de ventos bons que as arraias de Chico coloriam os céus. As outras crianças que ainda não sabiam empinar a arraia, como eu, se divertiam fazendo telegramas com pedaços de folhas de cadernos, que ele enviava pelo fio de náilon. O vento impulsionava os pequenos pedaços de papeis até que chegassem ao seu destino, o coração da arraia, que era o centro do cabresto.

Era aí que o rapazola Chico Cuca se mostrava e fazia rir a meninada. Dizia uma pilhéria, sacodia a linha em capilés e os imaginários telegramas se desprendiam para seguir viagem. Tudo, sob a alegria das crianças, ao sabor da brisa da tarde.

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “Tempo de colheira”, CLIQUE AQUI.

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2 comentários em “Enoleide Farias: “Brincadeiras de criança”

  • 16/10/2019 em 08:12
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    Parabéns, Enoleide Farias.
    Muito bonito o que você nos trás aqui. Recordações quê, com certeza , muitos de nós já não tínhamos.

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    • 18/10/2019 em 11:25
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      Oi Tânia, obrigada a você por nos acompanhar aqui, no PORDENTRODORN.

      Resposta

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