Enoleide Farias:: “Até amanhã, Sinhá Nana!”

Até amanhã, Sinhá Nana!

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Um dia desses eu precisei criar um email novo e pensei abrir com outro nome, então escolhi Sinhanana. Assim mesmo, emendado. Num primeiro momento associei a escolha ao nome de uma irmã apelidada de Nana, ainda bebê. Mas, bastou um tantinho de reflexão e vi que Nana remontava a minha infância, a uma das minhas primeiras professoras, Sinhá Nana. Assim, separado.

Aí, eu rememorei algumas coisas e vi como esse nome, Sinhá Nana, é simbólico. Olhando para aquele tempo longínquo, eu vejo com clareza, nesse meu tempo, o que ela representava: uma casta de mulheres. Estava, talvez, entre as primeiras e poucas mulheres da sua época que aprendera a ler e escrever, e que se tornara professora. Era das professora das mais antigas da cidade, ensinava particular, era alfabetizadora em sua própria casa. E havia profissão mais nobre do que ensinar, para uma mulher?

Eu contava 7 anos ou 8 e nas séries iniciais do primário ainda titubeava para soletrar e responder a tabuada. Minha mãe, para quem o conhecimento era a maior riqueza, tratou logo de corrigir a deficiência e disse que eu ia estudar com Sinhá Nana. E eu fui. Era gostoso ir àquela casa, com grandes salas e quartos, cozinha, despensa, um quarto pros acessórios dos vaqueiros e uma varanda nas laterais que deixava todas as janelas à sombra. Além disso, sempre havia outras crianças por lá que, como eu, chegava com o caderno a Carta do ABC ou a Cartilha e a temida tabuada.

A gente estudava na sala grande, que tinha também uma mesa grande e ficava contígua à grande cozinha onde Sinhá Nana preparava a comida, num grande fogão a lenha. Mas, enquanto “dava a hora”, vejo agora, eu e as outras crianças atendíamos a sinhá que era a nossa professora. Tinha sempre alguma coisa para fazer antes das lições: varrer a casa, apanhar as redes nos armadores, pegar os baldes no curral, colocar o milho dos cavalos… Hoje eu vejo que talvez esses afazeres já pudessem estar acertados entre a nossa professora e os nossos pais, que muitas vezes trabalhavam para ela. E assim, percebo que a gente estudava e trabalhava na casa de Sinhá Nana.

Foi com Sinhá Naná que eu aprendi a ler, a escrever e a fazer contas. Não tinha como ser diferente com aquela sinhá, doce e severa ao mesmo tempo. Ela não era uma jovem, uma mocinha, como se dizia. Já era uma senhora madura, com grossos óculos dependurados no nariz e aquele cabelo longo, amarrado em coque com uma marrafa. Usava sempre um pano sobre os ombros e uma saia mais comprida que a das outras mulheres que eu conhecia.

Contudo, mesmo não sendo um anjo, Sinhá Nana me cativava e tinha uma letra desenhada que eu me esforçava para imitar nos cadernos de caligrafia. E sabia soletrar todas as palavras, inclusive as de dois esses, dois erres, nha e lha. Ela falava e a gente imitava: b-u-r bur, r-o ro: burro; f-a fa, r-i ri, n-h-a nha; farinha; n-o no, v-i vi, l-h-a lha: novilha. A cartilha do primeiro ano tinha “O Mico-Tirico”, uma lição que nunca esqueci. Como não esqueci o nome dos livros seguintes, até a 4a. série, “Vamos Estudar”.

O ensino de Matemática era uma coisa à parte. Uma exigência de todos os pais, que os filhos soubessem fazer contas. Senão, como calcular com rapidez o apurado no roçado quando se apanhava o feijão, o milho ou o algodão. Só com a tabuada decor, para não se enganar nas anotações nas cadernetas. Sem falar que a palmatória de Sinhá Nana fazia a gente aprender a tabuada mais rápido, mesmo que fosse a de 4, de 7, de 8 e a de 9, as mais difíceis que eu achava. A de 4, não sei porque, mas as outras porque eram números mais alto, que a gente não conseguia contar nos dedos. Eu sempre lembrava da tabuada de menos quando ela perguntava 9 vezes 9 e eu não sabia. É que, como todo mundo, eu sabia a tabuada de 10, aí a gente fazia uma subtração rápida e fechava a questão: 81! Com esse e outros arranjos íamos escapando da palmatória de Sinhá Nana, mesmo porque todos já conhecíamos a palmatória de casa.
Foram muitas as minhas aventuras nesses tempos de aula-particular na casa de Sinhá Nana. Tirar o leite das vacas? Eu queria muito, mas só era autorizada a levar os baldes do curral para a cozinha. E achava uma festa soltar os bichos, logo que a gente chegava, se a gente estudava pela manhã; ou recolher os bichos, antes de sair, se a gente estudava depois do almoço. E quando dava prá brincar na varanda, o melhor era brincar-de-rodar: dar várias volta em torno de si mesmo, até ficar tonto, e se jogar no chão prá ver o mundo girar… brincadeira de criança. Quem não fez?

Mas teve outra coisa que Sinhá Nana ensinou e que eu nunca esqueci. De cumprimentá-la ao chegar e ao sair:

– Bom dia, Sinhá Nana!

– Boa tarde, Sinhá Nana!

– Até amanhã, Sinhá Nana!

Sinhá Nana era mesmo, hoje eu sei, uma sinhá!

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “Brincadeiras de criança”, CLIQUE AQUI.

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3 comentários em “Enoleide Farias:: “Até amanhã, Sinhá Nana!”

  • 22/10/2019 em 13:31
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    Gostei.
    Muito boa a crônica.
    Na realidade, eu lembrei, aqui também, de D. Ná.

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  • 23/10/2019 em 08:57
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    Sinhá Naná, que tal Enô, reforçando a pronúncia! Parabéns, colega, por suas crônicas, as leio semanalmente. Forte abraço!

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    • 01/11/2019 em 12:25
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      Obrigada Bosco… e o apelido da sobrinho acabou virando naná. Nada como um pronuncia mais forte no universo feminino.

      Resposta

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