Enoleide Farias: “Dona Maria de Seu Odilon foi embora…”

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Dona Maria de Seu Odilon foi embora…

Era uma mulher serena na sua simplicidade e no trato com as pessoas, as muitas pessoas que visitavam a Bodega de seu Odilon, a padaria de Carlinhos ou a Loja de Lala. Fosse hoje diriam que eram empreendedores, mas eram, todos da família, trabalhadores.

Quando os conheci, há uns 40 anos, morávamos na mesma comunidade. É, na mesma Comunidade do Mosquito, aquela localizada entre a ponte de Igapó e o Bairro das Quintas, tendo à frente o conjunto residencial do Bairro Nordeste e nos fundos o mangue, a maré, o Rio Potengi.

Seu Odilon, que já nos deixou há bastante tempo, era um senhor recatado, de pouca conversa, nem por isso de poucos amigos. Todo mundo na Beira da Linha (outra denominação para a comunidade) o conhecia, era da sua freguesia; quando comprar na bodega era ainda coisa de caderneta, um negócio cuja promissória era fechada com a simples frase: – Anote aí!

Aí, um dia ele teve um AVC, um derrame como todo mundo dizia na comunidade, e ficou com um dos lados do corpo paralisado. Sobreviveu alguns anos e comandava a bodega de uma poltrona, mas a falta de mobilidade acabava sendo um empecilho no atendimento à freguesia. Dona Maria, que sempre ficava do meio da casa prá lá, acabou assumindo um papel mais importante no balcão de negócios do marido. Os filhos, ela tinha talvez uma meia dúzia, ajudavam, mas alguns trabalhavam fora e com o tempo acabaram constituindo suas famílias e seus próprios meios de vida.

Então, quando seu Odilon partiu ela assumiu com afinco o pequeno negócio. Era chegado o tempo do “um-e-noventa-e-nove”, das importações dos “troços do Paraguai”, do aumento do consumo, principalmente das roupas de 10 reais. Aí Dona Maria, esperta, ampliou os nichos e além de pães, das carnes de conserva e dos peixes pescados no mangue, passou a vender também roupas e presentes.

Derrubou a parede do meio, recuou o balcão e as prateleiras, e deixou espaço para as araras com as roupas coloridas e os balcões de vidros com artigos de presentes, como perfumes, bolsas, cintos e utilidades plásticas. Não demorou, a filha mais velha, Lala, assumiu a gerência e consolidou a parte de variedades diversificando um pouco mais, com a oferta de serviços como manicure e cabeleireiro.

Muitas coisas mudaram ao longo dos anos.

– Ah, Enoleide, os meninos pequenos cresceram, tão fazendo suas vidas. Mas ainda estão tudo por aqui, pelo Mosquito. E eu, vou seguindo a vida. Agora, com essa diabetes, ficou tudo mais difícil.

Quando eu aparecia pela Beira da Linha, para visitar algum dos parentes que continuam morando por lá, sempre a visitava. Conversávamos sobre muita coisa: as dificuldades da vida, uma ou outra pessoa da vizinhança que tinha se mudado ou falecido, e mais ultimamente sobre a questão da segurança, visto que – O Mosquito não é mais o mesmo, ela dizia.

Ainda assim, continuo sendo uma visitante eventual da comunidade. Quando apareço, sempre tem alguém a me lembrar do tempo que morava por lá. Muita gente me chama pelo nome ou então, de a filha de D. Maria da Cacimba. Tinha uma cacimba na frente da casa que morávamos na comunidade do Mosquito, mais distante da ponte e mais perto da Granja, uma área que fica na direção da estação do trem. Lá tem Iracema, Dona Rosa, Chicão… gente que me viu crescer, em todos os sentidos.

Quando eu mudei de lá não havia celular e sempre que eu queria falar com algum parente ou outro conhecido, era para a casa de D. Maria que eu ligava. Na Agenda de papel, que ainda tenho em casa, o nome fica no índice da letra “B”, de Beira da Linha.

– Dona Maria… como vai? É Enoleide.

– Tudo bem mulher… quer falar com as meninas? Vou mandar chamar.

Às vezes conversávamos um pouco mais, noutras eu desligava e depois de algum tempo retornava à ligação. O tempo de espera dependia da distância da casa do interessado para a bodega. Mas era certo que, como eu, todo mundo nas redondezas podia utilizar o serviço de telefone imóvel de D. Maria.

Ontem soube que Dona Maria faleceu. Não mais por meio de uma ligação telefônica do seu telefone fixo, mas pelos grupos de watszap que compartilho com algumas pessoas da comunidade e com alguns parentes em comum, que temos. A diabetes, ou os problemas que a doença provoca, foram a causa da morte. Não fui ao velório nem ao enterro. Irei à missa de sétimo dia. Me emociono ao falar sobre ela. Chorei.Dona Maria, siga em paz!

Sempre que olharmos o mangue e as águas do Potengi haveremos de te lembrar. Eu e todos os nossos amigos do Mosquito. Todos os da Beira da Linha.

P.S. A crônica já faz algum tempo, mas resgatei porque Dona Maria, na sua simplicidade e no meu bem querer, representa a saudade que gostaria de expressar hoje. Saudade de tanta gente que partiu. E me partiu.

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “A casa de dona Nanu”, CLIQUE AQUI.

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4 comentários em “Enoleide Farias: “Dona Maria de Seu Odilon foi embora…”

  • 04/11/2019 em 12:19
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    Parabéns Enoleide, querida! É tão bonito crescer, fazer uma trajetória bela, como a sua, e conservar os laços com as pessoas e os lugares por onde habitou. Dona Maria deve ter sido aquela figura que deixa sempre saudades!
    Bjs.

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  • 04/11/2019 em 22:01
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    Foi bom você resgatar esta. Até acho que você poderia sim, tirar, por exemplo, o último domingo do mês para resgatar as mais antigas.
    Esta, eu não tinha lido.

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    • 05/11/2019 em 08:58
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      Obg. Tânia… Achava que vc tinha lido, à epoca. Aproveite e compartilhe. Vai ver, outras pessoas, como vc, quenão leram terão a oportunidade de ler agora. E continue passando por aqui, aos domingos. Abç.

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  • 10/11/2019 em 16:01
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    Sevê , que alegria ter você aqui! Obrigada pelas palavras carinhosas. São as Marias ou Severinas, como vc, que nos impulsionam. Um abraço!

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