Enoleide Farias: “Lua Noiva do Sertão”

Lua Noiva do Sertão

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Era madrugada quando acordei e, da janela do quarto, vi a lua descendo mansamente em direção ao topo dos prédios que circundam o edifício onde moro, na direção do poente. Fiquei apreciando seu movimento lento por entre as nuvens, mas não demorou e ela começou a se esconder por trás dos prédios mais alto para reaparecer em instantes acima de outromais baixos, ou por entre as frestas de uma e outra construção. Envolvida em lembranças, mergulhei no poço claro da lua cheia do sertão.

Olhar a lua cheia é um programa dos mais cobiçados no sertão, e na minha infância adultos e crianças se preparavam para isso. Os meninos pequenos eram asseados mais cedo, vestiam a camisa de dormir logo que o sol começava a se pôr e já comiam o escaldado de leite ou o mingau de goma seca. A janta, de cuscuz ou batatas, também era servida ainda claro para os adultos, e depois todos seguiam para o terreiro, para apreciar o espetáculo. Eu, desde menina, tenho a sensação de que as noites de luas são as mais frias e, para mim, as mais acolhedoras.

Nos últimos dias da fase crescente e no começo da fase cheia, a lua chega de mansinho, como sem avisar, e quando você vê lá está ela, já alta, se escorando nos últimos raios do sol, antes de assumir o posto de dona da noite. Nesses dias, se a gente prestar bem atenção pode, na mesma hora, apreciar a lua no nascente e o sol no poente, num espetáculo que só a natureza é capaz de apresentar. Depois os dias vão passando e ela, a lua, vai demorando um pouco mais a se mostrar. Parece até noiva quando se atrasa para o altar e fica atiçando a curiosidade de todos, remanchando.

Logo que surgiam, os primeiros raios da luz da lua pareciam um véu de noiva, uma cauda brilhante se espraiando sobre tudo. Em cima da água no riacho na frente de casa, em cima das serras distantes, como o Cabugi, em cima da ladeira do serrote próximo. E se espalhava, também, pela mata, fazendo a sombra dos pés mais alto desenhar silhuetas no chão do terreiro varrido.

É nesses dias, de “lua noiva”, que o sertanejo gosta mais de apreciá-la. E na minha infância, era comum juntar a família e contar histórias de troncoso para a meninada: daquelas que tem mula sem cabeça e lobisomem, e daquelas outras, sobre reis e rainhas, bruxas, princesas e príncipes encantados. Ouvindo esses encantamentos, para mim não demorava o tempo passar.

Dias havia em que a “lua noiva” começava a aparecer amarela, como ouro, até se levantar por completo, e se tornar cor de prata. Noutros, surgia prateada tão logo despontava no horizonte. E havia aqueles dias em que ela aparecia se escondendo atrás de nuvens diáfanas, que pareciam guardar o horizonte dos céus. Mas não importava como a lua aparecia, aquelas noites eram de deleite, noite de todo mundo se encantar.

Quando eu aprendi a ler, aprendi também um pouco mais sobre a lua. Os livros me disseram que ela não tem luz própria, me explicaram as fases da lua crescente, lua minguante, lua cheia e lua nova. E depois, quando eu cresci um pouco mais, me disseram também, que os astronautas estiveram por lá.

Eu não gostei muito quando disseram que outros homens, fora São Jorge, foram visitar a lua, que passaram por lá. Durante todo aquele tempo da minha infância eu acreditei que ele, São Jorge, montado no seu cavalo e de espada na mão, era o guardião da lua. Depois, com tanta estrela por aí os astronautas escolheram logo a lua prá passear?

Por outro lado, eu nunca me importei porque a lua não tem luz própria. Eu imaginava que o sol era o seu namorado, e que por isso cuidava para que ela não ficasse no escuro. Aquela fase quando ela não aparecia, a lua nova, acontecia porque eles precisavam descansar.

Quão bonita é a lua, a Lua Noiva do Sertão! Quantos poetas inspirou, quantos amores testemunhou e quantas brincadeiras de criança iluminou nos terreiros na zona da mata? Felizmente, os astronautas não mudaram a lua de lugar!

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “Dona Maria de Seu Odilon foi embora…”, sobre a imagem abaixo:

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