Enoleide Farias: “O comício do Carrasco”

O Comício do Carrasco

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Não é porque você não vota ou porque você não entende de política que não participa de um comício. Eu comecei a ir aos comícios ainda pequena, com o meu pai. Ele era semi-analfabeto, lia pouco, não escrevia e, talvez por isso, valorizava a história oral.

Sempre lembro dele ouvindo o rádio. Um programa sertanejo quando amanhecia e a Voz do Brasil ao anoitecer. O rádio o mantinha informado sobre muita coisa, como a política, mesmo sendo ele apenas um atento eleitor. E se era tempo de eleição o rádio não bastava, ele gostava mesmo era de ir aos comícios.

Meu pai apreciava os discursos, a eloquência dos oradores, no rádio ou nos palanques. Ouvia com atenção, às vezes fazia uma referência a um político importante, Juscelino, Getúlio Vargas, ou a Café, de quem nunca falava o sobrenome, Filho. E nos tempos de eleição falava muito dos compadres seus, candidatos às vezes, outras vezes apoiadores de outros candidatos. O chefe dos correios, o dono da farmácia, o marido da costureira, o homem do cartório e algumas outras figuras da cidade.

O comício de que vou falar aconteceu no bairro do Carrasco, em Angicos, na década de 60, quando o Rio Grande do Norte tinha como maiores lideranças políticas Aluísio Alves, o Cigano Feiticeiro, e Dinarte Mariz, o Velho Fechador. Eu não vou dizer que lideranças estavam representadas, mas o Comício do Carrasco juntou muita gente naquele fim de tarde sem sol e de muito calor.

Era ainda o mês de outubro, perto do Dia da Criança, e além dos políticos haviam anunciado a distribuição de presentes, o que aumentou o interesse da população. Homens, mulheres e crianças que se espremiam querendo chegar mais perto do palanque, armado em cima de um caminhão. Quando chegamos, eu, meu pai e minha irmã mais velha, a distribuição havia começado, intercalada com retretas da banda de música. Eu lembro bem da presença da banda, porque um dos nossos vizinhos do Alto da Alegria era músico e tocava aquele instrumento de metal com uma boca enorme, que só muito tempo depois eu descobri o nome, a tuba.

A entrega dos presentes avançou pelo começo da noite, brinquedos para as crianças,cortes de tecidos para as mulheres e, só depois, os discursos. Embora as mulheres também votassem, os homens eram os mais atentos, como meu pai. O locutor anunciava os nomes dos candidatos antecedidos pela expressão “agora vai falar, agora vai falar…” assim mesmo, repetidas vezes, seguidas de adjetivos que ressaltavam as qualidade de cada um. Palmas se misturavam aos gritos da ala-moça, um grupo de meninas com uniformes nas cores do partido dos candidatos, parecendo aquelas torcidas organizadas de time americano, como a gente vê nos filmes na tv.

No meio do comício, atento ao que se passava no caminhão, meu pai se distraiu e quando se deu conta minha irmã não estava mais junto a nós. – Eu não sei por que, mas menino cega a gente, ele dizia, enquanto circulava entre as pessoas, na frente e nas laterais do caminhão, sempre me puxando pelo braço, porque não ia arriscar me perder também.

Até que não teve mais paciência e abriu caminho no meio da multidão em direção ao caminhão, onde os oradores sofregamente discursavam e balançavam os braços, apontando um ou outro assistente, alguns alçados à condição de apoiador. Uma cotovelada aqui, um peraí acolá, um – Chegue minha filha!… e meu pai avançando. Quando vi, estávamos aos pés do palanque. Melhor dizendo, aos pneus do caminhão.

Eu não sei o que o meu pai disse aquele homem que se aproximara de nós, mas logo ele correu a cochichar alguma coisa no ouvido do locutor, que também conversou alguma coisa com meu pai e, por sua vez, correu a cochichar no ouvido do orador . Então, de repente, ligeiro mesmo, não se ouvia mais o discurso, nem o “agora vai falar”, nem os nomes dos candidatos. Por alguns instantes ninguém ocupou mais o microfone até que o locutor reassumiu o posto e se dirigiu à multidão:
– Alô, alô, Dalva! Alô, Alô, Dalva! Seu pai chama.

E minha irmã, Dalva apareceu. Nada demais. Estava com as meninas da ala-moça, a maioria suas colegas de escola.

E o Comício do Carrasco continuou.

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “Lua Noiva do Sertão ”, CLIQUE AQUI.

OBSERVAÇÃO – Querendo ser notificado sempre que este jornal for atualizado, deixe um comentário com o seu nome e número do zap.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *