Otto Santana: “O que vivi e aprendi no SAR”

O QUE VIVI E APRENDI NO SAR

Otto Euphrásio de Santana.
Depoimento em comemoração aos 70 anos do SAR.

1 – OS ANOS DE TRANSIÇÃO.
Viveu o Movimento de Natal nos anos de 1960 a 1964 seu momento de plenitude. De maior vigor. As inovações implantadas conquistaram plena maturidade, muitas delas alcançando dimensão nacional. Refiro-me a iniciativas como a organização dos Sindicatos Rurais, o Programa de Educação Política, a Experiência das Irmãs-vigárias, a Campanha da Fraternidade, a educação pelo radio assumida pelo Movimento de Educação de Base – MEB, as Comunidades Eclesiais de Base e o Planejamento Pastoral. As avaliações indicaram o acerto da metodologia adotada. As primeiras intuições do Concílio Vaticano II chancelaram a visão de Igreja, Povo de Deus, já implantada na prática. O entusiasmo, a audácia e a coesão fortaleceram as equipes e permitiram vislumbrar grandes avanços e novas conquistas.
O golpe militar de abril de 1964 violentou este alvorecer. Implantou a tortura da intimidação, da perseguição e do terror como lei maior e prática cotidiana. Dezenas de lideres ligadas à Igreja foram presos. Os programas de rádio, censurados. Os espiões, infiltrados em todos os ambientes, frustrando reuniões e celebrações. Um escárnio à cidadania, pois usurparam todo poder em detrimento dos interesses do povo e a serviço das elites.
Em agosto do mesmo ano, Dom Eugênio de Araujo Sales foi transferido para a Arquidiocese da Bahia. O inspirador, o líder e o esteio do Movimento de Natal teve que se ausentar. Ao sair de cena fragilizou, ainda mais, o ânimo do Povo de Deus.

Dom Eugênio preside a sagração de Dom Nivaldo Monte em 21-07-1963 (Foto: Acervo sob os cuidados da Família Monte, organizado por Terezinha Vilar)

Dom Nivaldo Monte assumiu a Arquidiocese de Natal em abril de 1965. Deu continuidade aos trabalhos em andamento, recompôs as esperanças de seus diocesanos e criou novos programas, de acordo com o perfil de sua personalidade. Em grande sintonia com Dom Antônio Costa, seu Bispo Auxiliar a partir de 1971, os dois, por 16 anos, imprimiram grande dinamismo e ousadia à Igreja potiguar.
Neste clima de transição, eu cheguei a Natal, voltando dos estudos em Roma, e assumi a direção do SAR em julho de 1965.

2 – O SAR DOS ANOS 1965 A 1976.
Conviver com os caprichos da ditadura requereu “a sagacidade das serpentes e a pureza das pombas.” Mt 10:16. Os militares criaram a paranoia de subversão, identificando-a, de modo ridículo, em profícua abundância. Até mesmo nos Evangelhos. Urgiu, pois, estabelecer limites, firmar competências e ampliar os espaços da atuação pastoral, uma vez que as orientações de Roma exigiam, sempre mais, a participação dos cristãos na defesa do bem comum e na construção de uma sociedade justa e solidária.
O SAR desempenhou esse papel de resistência e de frente avançada da cidadania. De início, os programas de melhoria da qualidade de vida foram entendidos como menos subversivos. Tornou-se possível preservá-los e até expandi-los. Afinal, a construção de habitações, a produção artesanal, as cooperativas de crédito e consumo, a educação de jovens e adultos e o cuidado com a saúde pareceram não apresentar perigos, pois destinados ao bem estar da população com ampla repercussão na dimensão socioeconômica. Os programas de conscientização, no entanto, nem pensar. Até a palavra soava mal. Mesmo assim, obedientes a seus patrões, o regime militar decidiu aniquilar todas as cooperativas de crédito do país, privilegiando a rede dos grandes bancos privados. Entre nós, fomos forçados a fechar a Cooperativa Central de Crédito Norte-riograndense, fundada em 1926, pelo Professor Ulisses Celestino de Góis, bom como as Cooperativas de crédito organizadas pelo SAR, sob a liderança do Professor Felipe Neri de Andrade. Um absurdo!
Ao pensar em retomar o Programa de Educação Política, a Arquidiocese adotou a estratégia de atrair a participação de membros dos Tribunais Superiores para suas ações. Conjuntamente, realizamos enormes assembleias com o objetivo de preparar a população para votar nas eleições 1966. A exposição principal coube a um Desembargador do Tribunal Eleitoral e versou sobre a lei eleitoral e suas implicações na prática, como a compra de voto, a retenção de titulo, a boca de urna e os critérios de escolha de bons candidatos. A sessão de perguntas e respostas esquentou o ambiente, pois retratou a realidade local. Muito a contragosto, os militares e as velhas raposas políticas se renderam à Justiça e à Igreja, liderada pela força moral do Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros. Sua presença atraiu e comprometeu o clero que se mobilizou para repetir a iniciativa em suas paróquias. Ele liderou e o SAR realizou.

Mons. Expedito, outro grande nome do Movimento de Natal, ao lado de Dom Nivaldo na ordenação do Padre Pierre (Foto: Acervo sob os cuidados da Família Monte organizado por Terezinha Vila)

Esta experiência ganhou nova força com a realização em Medellin – Colômbia, em 1968, da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano. O tema, “A Igreja na presente transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II” articulou com ousadia e realismo os clamores e esperanças do povo latino-americano com as resoluções, decretos e reformas conciliares. No primeiro capítulo do Documento final, o que trata da Justiça, há uma recomendação de extraordinária importância para o SAR significou novo ânimo e renovado desafio:
“A carência de uma consciência política em nossos países torna imprescindível a ação educadora da Igreja, com vistas a que os cristãos considerem sua participação na vida política da nação como um dever de consciência e como o exercício da caridade em seu sentido mais nobre e eficaz para a vida da comunidade.” Documento de Medellin, Nº 1 – Justiça.
Nos anos seguintes, as iniciativas se voltaram para os prefeitos e vereadores já em exercício. Organizamos vários cursos objetivando conscientizá-los das responsabilidades da sua função. Apesar da ótima aceitação, os resultados revelaram-se muito abaixo do esperado. Faltava o elemento mais sensível aos políticos: o povo, a mobilização organizada da vontade popular exigindo o exercício do poder a serviço ao bem comum.

3 – O NOVO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO POLÍTICA
A retomada da Educação Política como Programa estruturado da Arquidiocese amadureceu. Sua efetivação recebeu apoio unânime do clero e das entidades diocesanas nas assembleias de planejamento de dezembro de 1971 para as ações do ano de 1972. A estratégia, minuciosamente arquitetada, previu diversos passos para criar um ambiente favorável na comunidade eclesial e afugentar as esperadas reações dos barões da política tradicional e dos generais das forças armadas.
O lançamento do Programa se valeu de um dos instrumentos formais de pronunciamento da Igreja: uma Carta Pastoral dos Bispos da Província Eclesiástica do Rio Grande do Norte, proclamando sua mensagem oficial sobre as próximas eleições para Prefeitos e Vereadores. Sequenciou, assim, uma tradição iniciada em 1951. Nessa nova versão, a Primeira Carta foi editada em junho de 1962. A segunda, em agosto de 1966. Nesta terceira, datada de maio de 1972, os bispos evocaram a doutrina católica sobre a matéria e firmaram sua posição de assumir o trabalho de educação política do povo.
Em trabalho que escrevi sobre o Programa de Educação Política, assim resumo a Terceira Carta Pastoral dos Bispos:
“após justificar a incompatibilidade dos métodos eleitorais com a dignidade da pessoa humana, tais como, a negociação do voto, o abuso à ingenuidade do povo simples, as orientações fraudulentas dos candidatos sobre a maneira de votar, além das ameaças e pressões por parte dos proprietários de terra e chefes políticos e seus subordinados, lembrava o documento alguns pontos básicos para a purificação do processo eleitoral:
a) que o exercício do voto não é só uma obrigação legal, mas, também, um dever de consciência.
b) que o voto deve ser usado com seriedade: amizade se paga com amizade, dinheiro, com dinheiro e favor, com favor.
c) que as convenções partidárias, antes da escolha dos candidatos, auscultem a opinião pública.
d) que o valor dos candidatos se mede pela visão dos problemas sociais, pela eficiência e capacidade de administrar.
e) que os métodos massificantes e as formas de exploração além de se constituírem um desrespeito à pessoa humana tolhem a capacidade de votar de maneira livre a consciente.
Concluindo o documento, convocam os Senhores Bispos a todos os agentes pastorais “a se empenharam vivamente no trabalho de Educação Política do povo, mantendo-se todos, neste serviço à comunidade, livres e descomprometidos com pessoas e grupos políticos e econômicos.” Carta Circular dos Bispos da Província Eclesiástica do Rio Grande do Norte sobre as eleições – maio de 1972.Para executar a determinação dos bispos potiguares, o SAR estruturou o novo Programa de Educação Política criando sua própria metodologia, arquitetada nos seguintes passos:
1) Definição do tema anual. Considerou as sugestões apresentadas pelos grupos e suas lideranças, as orientações da CNBB e dos bispos e os temas da ordem do dia nacional e estadual. Além da grande abrangência, o tema procurou:
a) expressar as esperanças, os anseios, as angústias, as frustrações e as descrenças da maior parte da população.
b) estimular a capacidade crítica das pessoas a partir da reflexão dos fatos e situações locais.
c) implicar uma pluralidade de conhecimentos.
d) provocar nas pessoas a necessidade de uma ação individual e grupal como resposta às realidades constadas.
2) Elaboração do material de reflexão. Em forma de livro, o texto traduziu o tema em linguagem popular, objetivando levar as pessoas não só a ler ou ouvir o seu conteúdo, mas, sobretudo, sobre ele discutir, questionar, aprofundar e agir.
O desafio de produzir um conteúdo fiel à realidade, adequado à motivação dos grupos e menos incômodo aos militares coube ao Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros e a Eridante Paiva de Souza. Ele, vigário de São Paulo do Potengi, há décadas, profundo conhecedor da história e vicissitudes do povo e criativo formulador de catequeses centradas na interação entre fé e vida. Ela, assistente social, funcionária do SAR, educadora experiente e dotada de especial capacidade de transformar conceitos complexos em textos simples e acessíveis à população pouco letrada.
3) Motivação dos grupos. O ideal consistia em oferecer a possibilidade de educação política ao maior numero possível de grupos situados no raio de influência da Igreja. Ou seja, a base do trabalho do SAR, do MEB, dos Sindicatos rurais, das Paróquias, das escolas católicas e de congregações, irmandades ou associações religiosas. Os participantes de outras entidades da sociedade civil desejosos de aprofundar seu compromisso com a cidadania puderam participar, também, de muito bom grado. Os meios de contato consistiram nos programas radiofônicos da Emissora de Educação Rural, boletins, cartas circulares, cartazes, programas de alto-falantes, visitas e reuniões.
4) Seleção dos Animadores. A identificação e escolha de pessoas para assumir a liderança do Programa. Não houve critérios rígidos. Nada mais que ser aceito pelo grupo ou comunidade, ter experiência de trabalhar com grupos, dominar minimamente a leitura, aceitar as orientações do Programa, ter disponibilidade para participar de cursos e encontros em sua cidade e fora dela e, por fim, não estar comprometido com chefes políticos ou interesses outros. A maioria já exercia funções de liderança em outras ações educativas.
5) Capacitação dos Animadores. Realizada nas cidades e povoados do interior do Estado, com duração de 2 a 3 dias e com um número de participantes não superior a 30 pessoas. O tradicional método da Ação Católica adotado facilitou a participação, pois partiu dos fatos cotidianos, o VER. Evocou as verdades de aceitação coletiva, as leis, os valores evangélicos, as Encíclicas e os princípios para facilitar o “pensando melhor”, o JULGAR. Por fim, suscitou o ”olhar ao nosso redor” para identificar as possibilidades de intervenção na realidade, com soluções e possíveis respostas, individuais e coletivas, o AGIR. Com o livro texto na mão, o treinamento procurou passar segurança aos animadores, proporcionando-lhes intimidade com os temas abordados e com a metodologia apresentada.
6) Reuniões de Grupos. Organizados em centenas de grupos, milhares de pessoas passaram a se encontrar com o objetivo de construir sua cidadania e se capacitar para exercer seu direito de bem votar. Em geral, foram 09 reuniões, uma por semana, tempo suficiente para se distribuírem pelos meses de agosto e setembro, antecedendo as eleições de outubro.

4 – ATIVIDADES DE APOIO AO PROGRAMA.
Estratégias criadas para fortalecer o Programa. Objetivaram dar-lhe visibilidade, transferindo-lhe o prestígio e o poder atribuídos à Igreja. Em tempo de usurpação de direitos, tratar de temas considerados subversivos envolveu considerável e calculado risco. As preções se direcionaram às autoridades centrais da Arquidiocese. Sobretudo danosa se mostraram as atitudes de intimidação aos animadores de grupos, os verdadeiros operadores do programa. A insatisfação dos seus opositores partiu dos quartéis militares, das instâncias do Governo Estadual e da Assembleia Legislativa e se espalhou pelo interior do Estado nas pessoas de Prefeitos, Vereadores e chefetes políticos, numa organizada e espúria cadeia de transmissão de maldades e perseguições. Fortalecer os animadores e participantes tornou-se uma providência indispensável.
Nossos bispos, chamados com frequência pelas autoridades militares, esclareceram e justificaram as posições adotadas. Sem falar das heroicas e frequentes intervenções para liberar pessoas das prisões, para depor nos inquéritos e impedir criminosos registros que se apunham ao nome de líderes, sobretudo jovens, anotações essas que os qualificaram de suspeitos e os impediram, por muitos anos, de assumir funções públicas, sob a alegação de comunistas.
Eu mesmo me vi constrangido a comparecer ao Quartel General para justificar afirmações dos livros educativos do SAR. Questionamentos idiotas, sem nenhuma consistência a não ser desestabilizar e ameaçar. Compôs o arsenal estratégico articulado pelos militares para mostrar discordância e chantagear com o uso do poder e da força. E conseguiram, pois disseminaram medo, angustia e apreensão.
Os eventos idealizados como apoio à Educação Política dividiram-se em duas naturezas. Primeiro, os voltados para a opinião pública. O Lançamento oficial do Programa, realizado pelas autoridades da Arquidiocese, com intensa divulgação prévia tornou-se o principal deles. Consistiu da apresentação do tema do ano, de sua relevância no fortalecimento da cidadania, das estratégias de organização e de sua extensão por todo o Estado. Incluiu uma carta às autoridades constituídas e ao povo convocando-os a apoiar esse esforço de tamanha relevância cívica.
Muitas paróquias realizaram grandes concentrações populares com o objetivo de celebrar lançamento do Programa em suas cidades. Peritos e autoridades relacionadas com o assunto apresentaram o tema central e em diálogo com a população responderam aos seus questionamentos e provocações. Participaram os fiéis da matriz e das capelas e, sobretudo, os integrantes dos grupos organizados para a execução do Programa. Uma festa. Um sentimento de orgulho se espalhou pela multidão provocando um clima de euforia e de pertencimento a uma comunidade comprometida com mudanças tão necessárias e esperada.
Segundo, os voltados para o apoio aos animadores dos grupos. O principal deles nasceu de uma iniciativa do MEB, assumida conjuntamente pelo SAR: A Semana do Animador de Comunidade. Sua realização começava nas comunidades, evoluía para as cidades sede de paróquias e convergia para uma grande celebração em Natal. Objetivava tornar conhecido, reconhecido e valorizado o trabalho do animador. Dentre as múltiplas atividades, destacava-se o Concurso de Paródia com um mote relacionado com a temática em estudo.

5 – RESULTADOS E AVALIAÇÃO.
O sistema de acompanhamento do trabalho, mediante fichas de participantes e de caracterização dos grupos, o relatório mensal dos animadores e da supervisão, as correspondências e os dias de estudos ofereceram ao Programa uma visão realista da metodologia adotada, sugeriram correções e resultaram no fortalecimento da proposta.
A mudança de mentalidade, as atitudes de libertação e a alteração da realidade eleitoral e política das comunidades, objetivo final, compõem a instância referencial da utopia de todo trabalho educativo. O Programa de Educação Política registrou, com muita satisfação, inúmeros fatos e manifestações que atestaram a vivência de uma cidadania efetiva, livre a consciente. A profundidade e extensão dessas mudanças, no entanto, considerando o tempo de execução em análise, não autorizaram a celebração de um novo tempo. Embora integrem a permanente gênese da cultura de um povo, exigem uma maturação mais prolongada e a continuidade do trabalho, o que nem sempre aconteceu.
A quantificação dos meios utilizados na execução do Programa revelou o esforço empreendido, as prioridades estabelecidas e o numero de pessoas atingidas:

TREINAMENTOS REALIZADOS 

ANOS –             Nº TREINANDOS –             Nº Animadores

1972    –                               07 –                        195

1973    –                               12 –                         391

1974 –                                  16 –                         450

1975 –                                  22 –                         505
1976 –                                  26 –                         518

GRUPOS ORGANIZADOS:
ANOS      Nº/GRUPOS     COMUNIDADES     MUNICÍPIOS
1972                            150                 145                              28
1973                            360                200                              35
1974                            450                 199                              47
1975                            320                 300                             50
1976                            353                  212                              53

O número de grupos é inferior ao número de animadores treinados devido à desistência de alguns causada pelo medo de assumir o trabalho, pela falta de motivação ou outras razões. A partir de 1975, verificou-se uma tendência à aglutinação de pequenos grupos o que justifica a diminuição constatada.
Desde a retomada do Programa, as publicações de orientação aos grupos se sucederam abordando os temas selecionados para estimular o processo de conscientização, como detalhado a seguir:
Ano 1972 – É tempo de Política.
Ano 1973 – Os Direitos do Homem.
Ano 1974 – O Bem Comum.
Ano 1975 – A Família.
Ano 1976 – Votar consciente é participar.

6 – PROGRAMAS DERIVADOS DA EDUCAÇÃO POLÍTICA
Os grupos de educação política, além de constatarem as dificuldades, vislumbraram as possibilidades de resolvê-las. A união do grupo e a organização das ações impulsionaram os esforços e geraram a ousadia necessária para tentar propostas inovadoras. Após algumas experiências vitoriosas, solicitaram ao SAR assumir a responsabilidade de ampliar estas realizações dando-lhes estrutura profissional, ampliando seus objetivos e criando um ambiente favorável a múltiplas iniciativas. Assim, nasceu ou se fortaleceu no SAR uma série de Programa cuja característica principal residiu na motivação madura das pessoas, no propósito grupal de se independer de favores ou dependências externas e no propósito de afirmar a força da união e da organização na solução das necessidades coletivas.
6.1 – PROGRAMA DE INCENTIVO À PRODUÇÃO
Seu objetivo: apoiar os grupos na realização de atividades produtivas. Possibilitou a aquisição de sementes, de instrumentos agrícolas e de inseticidas e sua distribuição a titulo de empréstimo a quem delas necessitasse, privilegiando, sempre, comportamentos de expressão coletiva. O pagamento se realizou após a colheita com um acréscimo de 100% (cem por cento) da quantidade recebida. Dessa devolução, 50% (cinquenta por cento) destinado ao atendimento das necessidades nos próximos anos, inclusive para novas pessoas. A outra parte se destinou à venda para cobrir as despesas do programa, tais como, conservação e armazenamento das sementes, supervisão e despesas administrativas.
No ano de 1976, o Programa atendeu a 600 famílias e constatou-se a circulação de 10 mil quilos de sementes.
6.2 – PROGRAMA DE EDUCAÇÃO SANITÁRIA.
Em face da inexistência de serviços de saúde, as comunidades decidiram investir em propostas objetivando despertar nos seus moradores a necessidade de aquisição de novos hábitos de saúde. Ofereceram condições para a construção de privadas, a aquisição de filtros de água, a higienização de cacimbas e fontes naturais de abastecimento e, até, perfuração de poços artesianos. Em muitas localidades conseguiu-se organizar Unidades Comunitárias de Saúde. Nelas, uma liderança, treinada e voluntária, prestou os serviços de primeiros socorros, realizou as campanhas de vacinação obrigatórias e eletivas, orientou a produção e uso de remédios caseiros e liderou a adoção de medidas preventivas de saúde, como esporte, aferição regular dos indicadores de sanidade física e mental e o desestímulo ao uso de álcool, fumo e drogas.
Os dados de acompanhamento registraram o atendimento a 720 famílias, a construção de 252 fossas higiênicas e a distribuição de 313 filtros. De acordo com os princípios adotados pelo SAR, nada aconteceu de graça. Cada pessoa pagou o que recebeu em pequenas parcelas mensais, possibilitando, assim, a autossustentação do Programa, sua expansão e o atendimento a outras necessidades.
6.3 – PROGRAMA DE MELHORIA DE HABITAÇÃO.
Surgido como atendimento à calamidade de inundações, o investimento habitacional atendeu às solicitações dos grupos e comunidades trabalhadas pela Educação Política. Objetivou proporcionar meios para a construção ou reconstrução de casas mediante o financiamento do material necessário. Com exceção dos tijolos, fabricados em regime de mutirão, com a utilização de algumas máquinas de blocos. Boa parte da mão de obra envolveu familiares ou amigos e vizinhos. A conscientização familiar sobre a importância das condições higiênicas da residência mereceu especial atenção e, em geral, precedeu a mudança para o novo lar.
Até o ano de 1976 foram construídas ou reformadas 96 casas.

7 – AS LIÇÕES QUE GUARDEI AO LONGO DA VIDA…
Na comemoração dos 70 anos do SAR, com o distanciamento de cinco décadas que deixei sua presidência, que lições aprendi? Tantas. Todas revestidas de sentimentos muito gratificantes. É claro que a sociedade mudou. Mudou, sobretudo, a Igreja, impulsionada pela força do Concílio Vaticano II. Muitas das intuições, àquela época vislumbradas como possibilidades, tornaram-se doutrina oficial, chanceladas pelos mais expressivos e solenes instrumentos de explicitação da doutrina cristã: Constituições, Declarações e Decretos. O aprendizado com a resiliência do homem do campo e a convivência com os companheiros do SAR me inspiraram pela existência afora. Destaco três lições:
1) A importância da equipe de vida e de trabalho. Inseri-me no SAR em um conjunto de uns 50 profissionais. Recebido com carinho e simpatia, desenvolvemos um sistema de trabalho calcado na competência, na solidariedade e na audácia. O rigor metodológico do planejar, executar e avaliar nos levou a aprender com os fatos, a nos desafiar com as solicitações e a nos corrigir com os erros. À coesão da equipe credito as vitórias alcançadas, os avanços conseguidos e a resistência ao infortúnio dos retrocessos provocados pelo golpe civico-militar de 1964.
Confesso minha vocação para trabalhar em equipe e valorizar a contribuição de cada um dos seus integrantes, tornando-os mais amigos que colaboradores.
2) O poder transformador da conceito de Igreja Povo de Deus. Os arautos da Ação Católica já acenavam para a teologia do leigo. Falava-se de um “mandato”, conferido a seus membros. O Concílio Vaticano II alargou os horizontes e consagrou todos os batizados em Povo santo de Deus. Pela fé e o batismo, incorporados a Cristo, adquirimos esse título de cidadania e passamos a integrar a “assembleia de Deus”, “a raça escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo consegrado por Deus” (1Pd 2, 1-10), com as prerrogativas de ser, a seu modo, sacerdote, profeta e servidor.
Como diz a Lumen Gentium, a característica própria e peculiar dos leigos é a secularidade, pois a eles competem assumir as realidades temporais, iluminando-as e ordenando-as. Como vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena e nas condições ordinárias da vida familiar e social, os leigos são chamados por Deus para aí exercer o seu próprio ofício e concorrer para a santificação do mundo, como o fermento. Portanto, a eles compete especialmente, plenificar as realidades do mundo.
O SAR sempre se caracterizou como um serviço de leigos e de técnicos, integrado à ação da Arquidiocese. Sua postura por oferecer serviços da melhor qualidade o fez flexibilizar seus regulamentos e incorporar os competentes ao seu quadro funcional, independente de sua prática religiosa ou de outros condicionantes.
Confesso que me encantei com a Igreja Povo de Deus. Sinal de salvação e misericórdia. Força transformadora de pessoas e culturas. Sempre mais livre do ”clericalismo”, no dizer do Papa Francisco, uma das chagas mais terríveis da Igreja.
3) O grupo e a comunidade com instâncias estratégicas das transformações sociais. A conscientização se processa no íntimo de cada pessoa. A partir da observação, do estudo e da reflexão torna-se possível assumir posicionamentos com plena percepção de sua importância e de suas consequências. Atitudes conscientes tendem a ser maduras, consistentes e duradouras. Embora individual, a conscientização se processa com mais solidez quando gestada no seio de uma atividade grupal, coletiva. O grupo fortalece os valores, purifica as visões, pelo confronto com outras abordagens, e inspira as transformações estruturais indispensáveis. No entanto, para alcançar a mudança de mentalidade e de comportamento da sociedade faz-se necessário o envolvimento das comunidades. Em ação orquestrada, liberta das garras dos poderosos e dos governos, torna-se possível vislumbrar políticas públicas a serviço de uma ordem social justa.
Confesso que aprendi a valorizar a conscientização, a organização dos grupos e o fortalecimento das comunidades como caminhos para a construção de uma sociedade a serviço de todos, especialmente os mais necessitados.
Aracaju, 17 de junho de 2019.

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