Enoleide Farias: “Uma vez Flamengo…”

Uma vez Flamengo…

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Parece batido começar qualquer texto invocando o hino do Flamengo depois da final da Taça Libertadores deste sábado. Porém, não há como fugir do assunto depois de uma sexta-feira de expectativas, de uma manhã de sábado morosa, de uma tarde no sofá, à frente da televisão, cheia de curiosidade para ver a partida. Os jornais dão conta que a audiência bateu recordes, jogo mais visto do que algumas finais de copa do mundo.

Vascaína desde os tempos em que nada entendia de futebol, neste sábado me declarei Flamengo. Fã de Roberto Dinamite, Romário e Edmundo, torci a tarde inteira pelo Bruno Henrique e vibrei com os dois gols de Gabigol, embora até esta tarde fosse incapaz de reconhecer um ou outro, olhando alguma imagem sem identificação.

Acompanhei os momentos que antecederam o início da partida e me tocou a expressão de Gabigol quando passou ao lado taça de Campeão, à entrada do gramado. Num gesto simples, talvez inconsciente e que durou apenas alguns segundos, ele deixou transparecer o que me pareceu um sentimento de fé. Talvez, intimamente, tenha rogado proteção a Deus ou outra força em que acredite. Ou talvez tenha sido apenas impressão.

Uma das coisas que me atrai no futebol é justamente as expressões das pessoas nos estádios. A ânsia e, por vezes, a fúria dos jogadores; a impaciência e o nervosismo dos técnicos nos bancos de cada time; os torcedores nas arquibancadas ou nas tribunas especiais. Um estádio é um lugar onde, por mais que tentemos, não conseguimos ficar impassíveis.

Não há como não se contagiar com a explosão incontrolável da hora do gol. Ou com a quietitude que se segue ao momento do gol. Os torcedores são tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes durante uma partida de futebol. Tudo depende do resultado do time do coração. E cá entre nós, tem coisa mais chata que zero a zero? Do que futebol sem gol?

Aí se seguiram os comentários do narrador e as imagens de diferentes ângulos que mostravam a beleza monumental do estádio Monumental de Lima, no Peru. E quando começou a partida meu celular marcava 16h59. Eu não sei se vocês perceberam, mas por um bom tempo o cronômetro na tela da tv marcava um tempo diferente do anunciado pelo narrador do jogo. Eu vi pelo canal aberto da Globo, e na hora do gol do River Plate o cronômetro da tela marcava 14 minutos, mas o narrador dizia que haviam passado 19.
Eu, repito, não entendo muito de futebol, mas vou confessar minha impressão sobre a partida: o River jogou mais, jogou melhor. O Borré, que o diga, atento que estava quando conseguiu enfiar uma bola daquele jeito, no meio de bem uma dúzia de pernas. E eu, só lembro do nome dele por causa daquele morro do Rio de Janeiro, o Morro do Borel.

É bem verdade que tanto os brasileiros quanto os argentinos bateram muito as cabeças, mas as pernas dos flamenguistas me pareceram mais amarradas. No primeiro tempo, o tempo todinho, eu tive essa impressão. Me espantava a velocidade com que o River subia, chegava à área do Flamengo, finalizava e quando eu olhava, lá estava o paredão branco resguardando a trave do goleiro Armani. Ah, eu só estou lembrando o nome dele por causa daquela marca de óculos.

Aí, no segundo tempo, com o cronômetro da tv já consertado, eu achava que o resultado é que não teria conserto. Lamentava, porque desde manhã cedo me declarara flamenguista, prá alegria da minha neta e de alguns sobrinhos. É que depois daquele empate entre Vasco e Flamengo, aquele 4 X 4, naquela quarta-feira 13, eu me rendi. Rapaz, que jogo! Oito explosões de gol. Então eu resolvi que iria apoiar o rubro-negro, na final da Libertadores.

O Flamengo até chegou a finalizar umas duas vezes, logo nos primeiros minutos, mas o Armani deu seus pulos. E nem mesmo aquela bola, por volta dos 30, que ficou prá lá e prá cá na área do time argentino, entrou. Vots! Passando dos 30, os brasileiros se esforçando, a torcida acordando, a bola voando… e nada. Lá estava o paredão do River, o goleiro do River, o técnico do River, que já demonstrava uma alegria contida, a ponto de explodir, porque o jogo chegava aos 40 do segundo tempo.

Pronto! Vai acabar! O sofá não parecia mais confortável, eu já estava querendo arranjar o que fazer…
– Vou escrever minha crônica.

– É gol! De Gabriel Barbosa!
Eu nem sabia que era esse o nome de Gabigol, mas também, não importava. Importava a chama reacesa, a explosão da hora do gol, o grito das meninas, o foguetório nas ruas… E Gabigol tirando a camisa e correndo pra galera.

– Vai ser expulso – disse meu genro que entende mais dessas coisas de futebol, das regras. Não foi não, levou umas broncas do árbitro, mas não foi expulso, ainda. Mesmo porque, ainda tinha que fazer o segundo gol.

– É gol! De Gabigol! Do Flamengo!

Aos 46 minutos, já no tempo complementar.

– E eu quero lá saber… valeu? Valeu! Imagens de vários cantos do Brasil e umas encrencas bestas nos momentos finais, que resultaram na expulsão do jogador Pallacios, do River, e de Gabigol, do Flamengo.
Mas aí, já podia. O jogo já tinha um vitorioso. A taça já tinha dono. E Gabigol já tinha mais uma fã.

– Ô besteira! Eu também sou fã de Zico, de Junior e do goleiro Júlio Cesar.

Sempre Vasco, mas… uma vez, Flamengo…

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*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “O comício do Carrasco ”, CLIQUE AQUI.

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5 comentários em “Enoleide Farias: “Uma vez Flamengo…”

  • 24/11/2019 em 21:39
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    Eu tbm me rendi ao Flamengo. 👏👏👏👏

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    • 30/11/2019 em 23:57
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      Hahaha… Tipo, fã do Maradona; mas súdita, só do rei Pelé!

      Resposta

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