Enoleide Farias: “O serrote e o boi mascarado”

O serrote e o boi-mascarado

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Quando ouço a palavra serrote eu lembro sempre do quintal da minha casa, na minha infância lá longe, num tempo em que a vida corria solta, sem preocupações, e eu achava tudo uma grande brincadeira. Lembro do quintal de casa porque lá tinha uma pedra, de uns dois ou três metros de altura, e na minha infância qualquer pedra que fosse da altura ou mais alta do que um homem a gente chamava assim, serrote.

Só muito depois, quando eu aprendi que serra é uma pedra muito grande ou um amontoado delas e que serrote é uma serra pequena, vi que o termo era um superlativo para as pedras das cercanias de casa. E sobre aquela pedra, o serrote, o que posso dizer é que ela tinha muitas serventias: era o mourão, o amplificador de voz e a área de segurança da casa.

Servia de mourão porque segurava o cercado na parte de trás, em cujas laterais meu pai levantara uma cerca com pedras menores e, acima destas, uma cerca de varas, trançadas entre estacas. Com a engenharia natural de um caboclo ele fez ainda, na base da pedra, uma espécie de escada e um quarador. onde a minha mãe colocava as peças ensaboadas para tomar sol. Roupa de quarador, dizia ela, é mais limpa e muito mais cheirosa.

Servia de amplificador porque todas as vezes que era preciso falar com alguém que estivesse mais distante a recomendação era subir na pedra e gritar o chamado. Como quando a minha mãe dizia:

– Suba no serrote e chame seu irmão, que foi caçar rolinha.

Aí, de cima da pedra e com a mão em concha ao redor da boca, o chamado era feito:

– Manoel, ôô… Manoel, mamãe tá chamaaando!

Outras vezes ela dizia:

– Suba no serrote e vá chamar comadre Zulmira. – Era a madrinha do meu irmão, que morava a algumas centenas de metros, e com quem ela queria conversar.

E servia de área de segurança, porque era para cima do serrote que a gente corria quando passava o boi-mascarado. Eu sei que do boi-da-cara-preta todo mundo já ouviu falar. Eu, porém, desde menina vi e ouvi falar muito do boi-brabo, ou boi-mascarado. Esse boi habita o imaginário das crianças do sertão como o boi-da-cara-preta habita o imaginário das crianças da cidade. E não é nenhuma lenda, não, é real.
Quando eu era pequena conheci o boi-mascarado porque, morando nas cercanias da cidade, era muito comum os vaqueiros passarem nas proximidades de casa tangendo esses animais. Na maioria das vezes pequenas manadas, noutras um ou dois bois, e quase sempre no meio deste tinha um boi-brabo, aquele que se desgarrava do rebanho e que dava um trabalho danado para voltar. Era esse boi que virava o boi-mascarado.

Não tinha nenhuma mágica, não! Quando o boi desgarrava os vaqueiros primeiro usavam o laço de corda, para deter o animal e evitar sua fuga. Mas, se o bicho continuava dando muito trabalho, logo virava o boi-mascarado: dois vaqueiros se aproximavam devagarinho, um por um lado, outro pelo outro lado, e quando estavam bem pertinho colocavam a máscara, um artefato de couro que ficava pendurado pelos chifres, cobrindo parte do focinho e tolhendo a visão do animal.

Eu não sei se ficava mais fácil tanger o boi-mascarado, só sei que nessa hora o animal, sem direção, avançava sobre tudo à sua frente. Assim, quando alguém dizia “Lá vem um boi-mascarado! ” era uma correria só. A minha mãe, quase sempre, era quem dava as orientações:

– Feche a porta da frente… feche a porta de trás. Passe a tramela, feche a porteira do quintal… Corram e subam no serrote!

E todo mundo saía correndo para se proteger, porque o boi-mascarado podia machucar quem estivesse no caminho. A preocupação com as perdas materiais era mínima, talvez o prejuízo maior fosse um pote quebrado, se acontecesse de o boi entrar pela porta da frente e sair pela porta detrás e, no meio do caminho, esbarrar num desses utensílios.

Faz muito tempo que eu não vejo um boi-brabo, mas na minha meninice eu via muitos. E era mesmo um espetáculo acompanhar o trabalho dos vaqueiros e as peripécias dos bois. De cima do serrote e em segurança, gritando com a alegria natural das crianças enquanto via o boi-mascarado passar.

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*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “Uma vez Flamengo…”, CLIQUE AQUI.

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Um comentário em “Enoleide Farias: “O serrote e o boi mascarado”

  • 01/12/2019 em 23:30
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    Não lembro destas passagens. Vivi isso com vocês, claro. Mas não lembro. Muito interessante.

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