Enoleide Farias: “Eu vou pra Barra, vou ficar de frente ao mar…”

Eu vou pra Barra, vou ficar de frente ao mar…

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Gosto de passar as férias com a família ou com pessoas bem próximas, parentes ou amigos. Há vários anos, no verão, viajo para Barra de Maxaranguape, cidade litorânea distante 70 km de Natal. Lá, desfruto os prazeres de uma casa muito barulhenta, mas cheia de calor humano, a casa de D. Nizinha, uma divertida senhora de quase 90 anos, que acolheu a mim e às minhas filhas como se fôssemos da família. Já passamos momentos memoráveis por lá.

Viajo para Barra logo depois do Natal, porque é lá que passo o réveillon. Nos últimos anos, nem sempre em companhia das meninas, porque o tempo se encarregou de lhes oferecer outras opções de amigos, programas e lugares para visitar. Ainda assim, não abdiquei do prazer de estar naquela casa e de participar dos preparativos para a festa que marca a chegada do novo ano, o Réveillon da Nizinha.

Aliás, arrumar a casa para a festa do réveillon acaba sempre como uma grande brincadeira: da decoração dos espaços à montagem da mesa, gente de todas as idades deixa um pouco da sua criatividade e colaboração. E quase sempre, quando menos espero as minhas meninas chegam por lá, vão cear comigo e emprestar um pouco mais de cores, alegria e barulho à festa que, em geral, reúne mais de 40 pessoas.

Maxaranguape tem cera de 12 mil habitantes e praias entre as mais conhecidas e lembradas do Rio Grande do Norte, como Maracajaú, Zumbi, Caraúbas e a praia sede do município, Barra. E Barra, entre seus veranistas, tem D. Nizinha, que aportou por lá há mais de 50 anos, no comecinho de 1970, com o seu marido, o Capitão José Gomes.

Não conheci o Capitão, escuto sobre ele histórias contadas por seus filhos, sempre com um toque de emoção, saudade e admiração. Contam sobre sua participação na segunda guerra como combatente brasileiro, sobre sua dedicação ao Exército, do seu amor por Barra. Histórias que se juntam a outras memórias, como as medalhas de condecoração, peças da farda militar, documentos que relatam sua trajetória de bravo soldado e algumas fotografias .

Depois que o Capitão morreu, filhos, netos, amigos e agregados se juntam na casa da Barra todos os anos, para o réveillon, as férias de janeiro e o carnaval. São 50 janeiros idos desde aquele janeiro de 1970, e não teve um ano sequer em que ela e a família não se achegassem àquela casa, aquele chão; àquele rio e aquele mar.

A boca da Barra é onde o rio Maxaranguape, que dá nome ao município, desemboca no mar. Lá, na maré cheia, sempre tem um barco a balançar; e centenas de outros, de vários tamanhos e cores, ancorados na areia quando é baixa maré. Do outro lado do rio, os coqueirais de Muriú apontam para o céu azul e balançam suas palhas ao vento, o mesmo que “encrespa as ondas do mar”, como diz o poeta Dorival Caymi, numa “Prece ao Vento” (música popularizada nos últmos tempos por Fernando Mendes).

O mar da Barra é como todos os mares, belo e infinito, ora azul, ora esverdeado, e sempre nos remetendo a sonhos e saudades. A natureza, ao longo do tempo, promoveu muitas mudanças e as ondas na praia já não quebram à distância, como há 50 anos atrás. Na casa de dona Nizinha, as ondas lavam a calçada com sua espuma branca e, como numa intimidade consentida, mesmo nos momentos de fúria embalam a gente de lá.
Eu vou prá Barra, vou ficar de frente ao mar… E na noite de terça-feira, quando o foguetório à beira da praia iluminar o céu, anunciando o minuto primeiro do ano que vai chegar, prometo: direi uma prece invocando bençãos e pedindo um Ano Novo de boas venturas e paz, para todos nós. E, se não for impossível escolher cores para o Ano Novo, rogarei que seja ele azul e branco, como o manto de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira de Barra. Como o céu e a espuma do mar.

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*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “A triste partia e a bacia de rosto”, CLIQUE AQUI.

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2 comentários em “Enoleide Farias: “Eu vou pra Barra, vou ficar de frente ao mar…”

  • 30/12/2019 em 11:53
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    Amei essa história! Este lugar é realmente maravilhoso!!!
    Meu whatsapp (98731+5784)

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    • 02/01/2020 em 23:34
      Permalink

      Bem vinda ao PorDentrodoRN, Clébia. Grata pelas palavras e fica o convite para nos encontrarmos aqui, aos domingos, com novas histórias. Um abraço.

      Resposta

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