Enoleide Farias: “A fidelidade ao celular”

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Assisto televisão enquanto passo a vista nas mensagens de WhatsApp, que eu já vou aportuguesar, watsap. Sou como todo mundo, faço mais de uma coisa ao mesmo tempo e, quase sempre, uma coisa no celular e outra coisa. No trabalho, em casa, no ônibus, no consutório médico, em todos os lugares vejo que as pessoas, na maior parte do tempo, fazem coisas ao celular. Então, isso não me surpreende mais, a fidelidade ao celular. Mas percebo que eu, propriamente, devo surpreender pela fidelidade a outros entes, além das pessoas, claro.

Há quem diga que eu sou fiel até à farmácia. Morando no mesmo bairro há quase trinta anos, vou à mesma farmácia há mais de 20 anos. Então já viu, né: ao mesmo supermercado, ao mesmo banco, ao mesmo salão de Jusci Pontes e à minha mesma manicure, Nem. Aliás, os entes mudam de acordo com o tempo, com as suas próprias exigências de espaço e adequação sejam às novas exigências dos clientes ou das tecnologias. Às vezes, mudam até de endereço. E eu, fidelíssima, corro atrás.

É o caso do salão de Jusci Pontes, que mudou-se para outro bairro e eu fui atrás. Ou o caso de Nem, a minha manicure, que mudou-se também, voou para terras bem mais distantes. Pois não é que depois que ela partiu, há uns 6 meses, relaxei no cuidado com as unhas, que agora só faço quando vou a Assu, onde também tenho uma manicure de anos, Renata Lis. Gente, é serio! Somente na semana passada é que abri a guarda e busquei outra manicure em Natal, porque era de fato preciso consertar as unhas. Reparar uns estragos que a idade faz com todo mundo, e que nós, mulheres, bem mais atentas às questões estéticas, não deixamos passar.

Bom, mas continuando com a questão da fidelidade, vejam só, até o churrasquinho que frequento às quinta ou sexta-feiras é o mesmo, também há mais de 20 anos. Nesse caso, num lugar bem mais distante de Capim Macio, onde moro. Não faço questão nenhuma de ir até Petrópolis, ao Kiosk da Cida, onde ela pessoalmente cuida com cuidado da gente, da música, do churrasquinho e da cerveja gelada. No meu caso, uísque. Não há como não ser fiel aos amigos de tanto tempo que circulam por lá.

Televisão? Sou fidelíssima telespectadora da Rede Globo, nesse caso há mais de meio século, contrariando um bocado de amigos meus. Gente, eu assisto esse canal desde os tempo da novela Locomotivas, quando o galã era Walmor Chagas e a atriz Elisângela era a dona do pedaço, tão bonita e desejada quanto a Juliana Paes. Olha que faz tempo, porque Elisângela já foi a mãe de Juliana em novela recente. E até quando trabalhei na afiliada do SBT, a Globo era o meu anti-stress com suas novelas e suas grandes miniséries. Vai ver, é por isso que ainda não posso dizer que sou fiel à Netflix.

Rádio? Fã incondicional do meio, por muito tempo fui assídua à radio Cabugi: ao Patrulha da Cidade, com Nice Maria e Inaldo Farias, ao Programa Show com Carlos Alberto, aqui e acolá ouvindo noticias do futebol com o Pantera Wellington Carvalho e seus filhotes, o Pank Chico Inácio e Ricardo Silva. Mas, com o pipoco das rádios FMs a minha sintonia também mudou. Aliás, demorei até fidelizar, passando por um bocado de sintonias…93,94,95,96… e só há poucos anos fidelizei o dial da CBN, o 91,1, que agora tem Margot Ferreira na programação local, e Milton Jung e Cássia Godoy me chamando logo cedo pra ouvir o Jornal da CBN. Quase sempre chego na segunda-hora.

Bom, tudo isso pra dizer que a minha fidelidade ao celular tem aumentado nos últimos tempos. Talvez não ao celular, mas a algumas mídias que o smartphone nos condiciona a acessar cada vez mais. Olhem o face-book, o twitter, o insta… Ave Maria! E o zap? Por mais que eu queira, não posso sair dos muitos grupos listados no meu watsap: do trabalho são vários, da família outro bocado, mais os grupos d’As Meninas, da igreja, da escola das crianças, do inglês…

Tenho procurado me desprender, mas não tenho conseguido. E sabem por que? Por conta da tal fidelização: porque é pelo celular que todo mundo tem preferido conversar. Dá até saudade de quando a gente corria pro telefone e não olhava, não digitava. Falava: Alô! Sem falar que no zap é uma ciumeira atrás da outra, como diz na música. Basta demorar um pouco mais para responder uma mensagem, lá vem a bronca: – Kd seu celular? Você responde todo mundo e não respondeu aqui… Ai, Jesus!

Pois sim, eu vou continuar fiel, como sempre fui: ao salão de Jusci, à farmácia, ao banco, ao Kiosk da Cida, ao rádio e às novelas e séries da rede Globo. E a Netflix, como eles, vai ter que me conquistar. E, não tendo como fugir, vou continuar ligada no celular. Não sei se vou poder responder a todos os grupos com a ligeireza que gostariam.

Agora, como é janeiro e hoje é sexta-feira, daqui um pedacinho eu vou é pra Barra. Ah, ia esquecendo de dizer o quanto sou fiel àquelas ondas. Então, entendam, não é que eu seja infiel a vocês. Mas é que as vezes a gente precisa se desligar.

Domingo eu volto!

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*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “Viva a vida!”, CLIQUE AQUI.

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Um comentário em “Enoleide Farias: “A fidelidade ao celular”

  • 02/02/2020 em 15:17
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    BOM….É ISSO VOCE E EU, SINTO SALDA DE VOCE, TANTAS VEZES QUE NAO ME QUANDO. SE EU PUDESSE VOLTAR NO TEMPO, AH,,,SE EU PUDESSE VOLTAR. VOCE SE LEMBRA DO COPO D’ÁGUA? CREIO QUE NÃO. DA PARADA DE ÔNIBUS? NEM MORTA!!! ,,,KKKKK. EU E VOCE. UM CASO DE AMOR. AMOR SEM QUERER DIZER QUE ERA “AMOR!”. MAS EU DIGO QUE ERA AMOR. SABE? A TUA MENINA, ISSO É AMOR, NAO SEI O NOME DA MOÇA. PORTANTO DIGO ‘”MENINA!”. AH SE EU PUDESSE VOLTAR NO TEMPO. VOCE ME CHAMAVA PARA VER O MUSEU DE HISTORIA. LEMBRA? AQUELE MUSEU DEPOIS DO AERO-CLUB NA HERMES DA FONSECA. NAO ERA UM MUSEU?,,,POIS SIM. O SEU PRIMEIRO EMPREGO QUE EU SAIBA. SBT. EU SEI. SBT. AH SE EU PUDESSE MUDAR AS HORAS, BEIJOS….

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