Enoleide Farias: A vendedora de alegria

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

O sol era abrasador na sexta-feira quando, no meio da manhã, me dirigi à agência bancária, distante umas duas quadras da rua onde moro. Caminhava taciturnamente, perdida em reflexões e me sentindo um pouco só, embora muita gente transitasse na avenida àquela hora. De repente, uma voz que parecia de menina, soou delicada ao meu ouvido esquerdo.

Em geral alguns sons me passam desapercebidos, desde que uma cirurgia para retirada de um tumor no nervo acústico me fez perder por completo a audição no ouvido direito. Ainda assim, atentei à voz que vinha de debaixo da marquise de um dos pontos comerciais, onde uma jovem franzina segurava uma cesta com alguns pequenos embrulhos, que oferecia aos passantes.

– Senhora, senhora… não quer comprar alegria?

Não parei. Segui no mesmo ritmo até o sinal próximo, atravessei a rua e fui cumprir as obrigações monetárias do dia. As idas ao banco ou aos mercados próximos acabaram se integrando à minha rotina matinal e, por vezes, me distraem e abstém das intempéries do dia-a-dia.

Não demorou, estava voltando pelo mesmo caminho, agora com algumas sacolas, menos absorta e sem nenhuma pressa. Àquela hora, resolvida a pendência bancária, me sobrava tempo suficiente para almoçar e chegar ao trabalho antes de uma da tarde. Foi quando de novo aquela voz, parecendo de menina, me interpelou:

– Senhora, senhora… não quer comprar alegria?

Parei. – O que é uma alegria? Perguntei e ela explicou que alegria é um pequeno bolinho feito com goma, água e açúcar. Diminutos mesmo, talvez do tamanho de uma bola de gude, os bolinhos ou alegrias estavam dispostos numa cesta que Bia (eu já lhe perguntara seu nome) agora segurava à frente do corpo, mostrando o produto e informando os preços.

– As pessoas estão, mesmo, comprando alegria? Ela disse que muito pouco. Conversamos por alguns minutos, eu querendo saber se não havia um ponto de venda mais promissor e Bia explicando que sob a marquise era melhor para ficar, porque havia sombra. Está grávida de 5 meses e seu primeiro filho se chamará Wenzo. Não é Wendel, é Wenzo, eu perguntei, ela confirmou e disse até como se escreve.

Embora demonstrasse um pouco de nervosismo na voz, Bia não é uma jovem triste. Contou que só tem 16 anos e que engravidou sem querer. Agora, não havendo o que fazer, disse desejar uma gravidez tranquila, um filho saudável e depois do parto uma ocupação melhor. Não conseguira emprego e diante da gravidez, precisa arrumar algum dinheiro para comprar “umas coisinhas” para seu bebê. É uma alegria poder fazer isso, falou com tranquilidade.

Bia é apenas uma entre os milhões de pessoas desempregadas no Brasil. Há gente que está à procura de emprego há 2 anos ou mais. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad-C), anunciada pelo IBGE e referente ao último trimestre de 2019, apontam que a taxa média de desemprego no país caiu de 12,3% em 2018 para 11,9% em 2019. A falta de postos formais de trabalho ainda é muito alta.

Bia também está entre as pessoas que buscam ocupação na informalidade, dado que, segundo a pesquisa, atingiu o maior número desde 2016, ficando em 41,1% da população ocupada. O IBGE ainda informou que o número de desalentados, pessoas que desistiram de procurar emprego, também é o maior desde 2016: um total de 4,8 milhões.

Tomei conhecimento da pesquisa na sexta-feira à tarde, horas depois do meu encontro com a vendedora de alegria, que seguiu assim:

– Vou querer três alegrias.

– Cinco reais.

Entreguei-lhe uma nota de vinte, mas ela não tinha troco. No ponto comercial, onde as operações agora acontecem na grande maioria das vezes de forma eletrônica, também não foi possível trocar o dinheiro para concretizar a venda. E ela, diferentemente do estabelecimento, não tinha como fazê-lo por meio do cartão. Assim, só pude comprar uma alegria com o pouco dinheiro trocado que tinha.

Prometi voltar no dia seguinte e voltei. Não apenas para comprar alegrias para todas as pessoas lá de casa, mas para repartir um pouco da minha esperança com Bia. Ela que segue, à sombra da marquise e do desemprego, oferecendo aos transeuntes seu singular biscoito de goma, água e açúcar. Sua singular alegria.

——-

*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “O coronavirus, o mercado e a vacina contra o sarampo…”, CLIQUE AQUI.

OBSERVAÇÃO – Querendo ser notificado sempre que este jornal for atualizado, deixe um comentário com o seu nome e número do zap.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *