Enoleide: “Um segundo tempo para o afeto verdadeiro”

Enoleide Farias*
Jornalista Agecom – UFRN
enoleide@yahoo.com.br

Numa partida de futebol o segundo tempo é o mais importante, não importa qual tenha sido o resultado do primeiro, Todos sabemos que o jogo só termina depois do apito final e que, até lá, tudo pode acontecer. Nenhum placar é definitivo, o que dá ao segundo tempo uma importância que só é menor do que o tempo da prorrogação. Aliás, do que o segundo tempo da prorrogação.

Até o tempo, quer dizer, o calendário inventado pelo homem, tem primeiro e segundo tempo: o primeiro e o segundo semestre. E os 30 dias do mês, a primeira e segunda quinzena. E em relação à semana, para a qual eu não encontrei uma divisão precisa, ela, a meu ver, não escapa de um segundo tempo. Afinal, o que é o sábado e o domingo senão o segundo tempo, depois do tempo de trabalho, entre a segunda-feira e a sexta-feira? E, se chegarmos a uma fração menor do tempo veremos que as 24 horas do dia também têm primeiro e segundo tempo: se é claro, é dia; se escuro, é noite. E que cada hora tem sua meia hora.

O que observei refletindo sobre o tempo é que as emoções no segundo tempo parecem sempre as mais intensas. Que é no segundo tempo, naqueles seus instantes finais, que explodimos ou implodimos, independentemente do tamanho da nossa alegria ou da nossa tristeza, da nossa vitória ou da nossa derrota. Deve ser por isso que para tudo inventaram um segundo tempo.

Enquanto pensava sobre o tempo eu assistia ao programa Altas Horas, do Serginho Groissman, que estava uma coisa além do tempo, na noite desse sábado. Os convidados eram tão diversos quanto as partidas que encaramos ao longo da vida. Tinha as presenças do filósofo Mário Sérgio Cortela, dos cantores Chitãozinho, Xororó e Mano Valter, dos atores Rodrigo Santana e Fernanda Lima e do maestro e pianista João Carlos Martins.

Parei no tempo ouvindo os entrevistados falarem sobre música clássica, nordestina e sertaneja. Afinal, como disse o maestro João Carlos Martins, em qualquer tempo a boa música “é a música de bom gosto”. E ouvindo-os falar, também, sobre sexualidade, filosofia e sentimentos. Porque, como disse Sérgio Cortela, um dos maiores dilemas atuais está relacionado ao sentimento, à dificuldade que a humanidade tem de cultivar e demonstrar “o afeto verdadeiro”.

Durante o programa o maestro João Carlos Martins falou sobre como perdeu os movimentos dos dedos algum tempo atrás, e como os recuperou há pouco tempo, com a ajuda de um designer industrial que desenvolveu para ele um par de luvas biônicas. Coisa do segundo tempo do mundo, desse novo milênio, da revolução industrial. Do tempo da Era Digital e da Indústria 4.0.

Como se vê, a vida também tem segundos tempos e muitas prorrogações. Como esse tempo novo que o maestro, que vai fazer 80 anos, ganhou de presente. Um segundo tempo para ele continuar tocando sua boa música clássica, agora junto com a música sertaneja. Ele falou sobre sua temporada de apresentações em São Paulo, junto com a dupla Chitãozinho e Xororó. Disse que quer dar aos apreciadores da música clássica a oportunidade de apreciar a boa qualidade da música sertaneja. E vice versa.

Vamos percebendo, então, que a vida é um campeonato de muitos jogos, que às vezes passamos para um segundo tempo e nem nos damos conta disso. Não aproveitamos as novas oportunidades, cuja importância acabamos por desprezar. Deve ser por isso que Cortela recomendou que estejamos atentos à razão, mas que não nos desliguemos da emoção.

Aí em pensei: Quem sabe esse segundo milênio, essa era digital, não provocará outras revoluções? Não desejo uma revolução do tipo Amor 4.0. Não! Mas, uma oportunidade, um segundo tempo para a humanidade reaprender a amar. Para cultivar e expressar o afeto verdadeiro como exaltado pelo filósofo. Temos muito tempo para isso. Afinal, desse segundo tempo do mundo só se passaram 20 anos.

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*A autora é jornalista e publica suas crônicas aos domingos.

Para ler a crônica anterior “Sou do carnaval, amiga da rainha …”, CLIQUE AQUI.
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