Bálburdia (Biólogo Henrique)

Biólogo Henrique: como a balbúrdia de um professor no YouTube vem ajudando a salvar serpentes no Brasil

Conheça o canal do biólogo Henrique, um especialista em serpentes que desmistifica os répteis para o público leigo de uma maneira simples e didática.

Fosseta loreal, órgão de Jacobson, soro antiofídico, dentição solenóglifa, opistóglifa etc. Arrisco dizer que você, caro leitor, já tenha se deparado com esses termos alguma vez em sua vida escolar; e que, provavelmente, as obrigações com outras disciplinas, atreladas à falta de aulas mais dinâmicas por uma série de fatores, tenham contribuído para essa sensação de estranhamento que você deve ter sentido ao ler o primeiro período deste texto.

Adianto, antes de tudo, que estou longe de ser especialista em serpentes. Estou mais para um jornalista curioso que, no afã de encontrar alguma atividade menos entediante para fazer na pandemia, resolveu aprender um pouco sobre esses bichos fenomenais.

O início de tudo

E eu me lembro como se fosse hoje: despretensiosamente, no início do ano passado, comecei a assistir a alguns canais que abordavam a Herpetologia (área da Biologia que se dedica aos répteis e aos anfíbios) de maneira, muitas vezes, amadora; mas com o didatismo suficiente para me fazer voltar a assistir aos vídeos outras vezes. Foi o caso dos canais de “Haroldo Bauer, o Rei das Serpentes” e do “Comédia Selvagem”, este último apresentado pelos figuraças Charles e Tiringa. Pegadinhas e zoeiras à parte, que todo nordestino que se preza conhece bem, duas coisas me chamaram atenção:

A primeira é o fato de nenhum dos apresentadores possuírem formação acadêmica para falar (tão bem) sobre serpentes; e a segunda, talvez a mais importante, é a função social que esses dois canais exercem sem perder o bom humor e, o melhor de tudo, longe da linguagem difícil e acessível apenas aos acadêmicos.

Haroldo no texto do biólogo Henrique
Foto: Reprodução/Rede Record

Os resultados são tão positivos que a diminuição da matança de serpentes por parte da população sertaneja se tornou um fato comprovado; basta ver os diversos depoimentos de inscritos que, por agora possuírem o conhecimento, optam em deixar os répteis vivos e contribuem para a preservação ambiental, conscientizando as pessoas sobre o papel das serpentes na natureza.

Charles no canal do biólogo henrique
Foto: Reprodução/Canal Comédia Selvagem

Por falta de informação e devido às tradições transmitidas de geração em geração, muitos desses animais morriam sem nem sequer oferecerem ameaça à população das áreas em que o convívio entre seres humanos e serpentes é comum, como o sertão nordestino e outras regiões distantes das grandes cidades.

Quando o popular e o erudito trabalham juntos

Recentemente, uma criança do estado no qual nasci e onde moro até hoje (o Rio Grande do Norte) foi picada, ao que parece, por uma serpente jararaca quatro vezes e sobreviveu. Embora eu seja alguém da capital e nunca tenha passado por uma situação parecida, fiquei impressionado com a resistência do garoto às picadas da cobra que mais causa acidentes no país. E é aqui, caro leitor, que o texto entra no assunto principal.

Por mais que eu considere importante a simplificação de temas complexos com o intuito de facilitar a compreensão por parte do público leigo, comigo incluso, as palavras de especialistas e o saber científico também têm a sua importância e o seu espaço no YouTube; e a transmissão desse conhecimento não precisa, necessariamente, ser chato e monótono.

Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Além de Charles e Tiringa, ou ainda do Rei das Serpentes, que permitiram que os seus inscritos tivessem outra visão a respeito do sertão nordestino e pernambucano, também passei a acompanhar biólogos de formação no YouTube.

Entre os vários que eu acompanho, tem um que eu gosto bastante e resolvi apresentar a vocês; e a minha escolha se deu por duas razões: A primeira pela maneira didática (ainda que técnica) que utiliza para divulgar a Herpetologia na Internet; e a segunda por possuir valores sociopolíticos semelhantes aos meus, sempre em defesa da Ciência, contra a desinformação e o obscurantismo científico; sem medo de se posicionar contra o desmonte que as instituições públicas vêm sofrendo nos últimos anos.

Conheça o canal ‘Biólogo Henrique, o biólogo das cobras’

Assisti tanto aos vídeos do Comédia Selvagem e do Haroldo Bauer que o YouTube começou a me indicar outros canais que falavam sobre serpentes, me levando direto para o canal do biólogo Henrique, de quem eu me tornei inscrito desde então.

O primeiro vídeo ao qual assisti, caso eu ainda esteja bem da memória, foi o de um homem que faleceu na Bahia após apertar uma cobra coral com as mãos. O rapaz, que estava alcoolizado, acreditava que o perigo da serpente estava “no ferrão” que ela teria na cauda e acabou morrendo após ser mordido (sim, a cobra coral morde, não pica) em uma das mãos.

Uma das coisas que aprendi nesse vídeo foi que, em primeiro lugar, cobras corais não têm ferrão; e, por fim, que tínhamos acabado de assistir a um caso raro no qual uma pessoa sofre um acidente com uma micrurus ibiboboca, nome científico da espécie de cobra coral mais comum no Nordeste do Brasil.

As serpentes do gênero micrurus, no Brasil, são as responsáveis pelo menor índice de acidentes no País, ainda que detenham o título de serpentes mais peçonhentas de todos os grupos de serpentes peçonhentas que ocorrem no Brasil.

Em vídeos sobre as corais que assisti no canal do biólogo Henrique, aprendi que algumas das razões que levam ao baixo índice de acidentes com as corais no Brasil se dão pelo fato dessas serpentes não realizarem uma picada verdadeira, uma vez que precisam morder seus predadores e possuem uma boca muito pequena.

Texto sobre o biólogo Henrique
Coral verdadeira (Micrurus ibiboboca)
Foto: Igor Roberto

Esses fatores, quando somados, demandam das serpentes do gênero micrurus um esforço um pouco maior que o esforço despendido por jararacas e cascavéis para que consigam inocular sua peçonha em seus predadores. Além disso, a quantidade pequena (cerca de 1%) de acidentes com esse tipo de serpente pode ser explicada pelo hábito que as cobras corais têm de viver escondidas embaixo de folhas secas e de troncos de árvores.

Quando comparadas com as jararacas (do gênero Bothrops) ou com a cascavel encontrada no Brasil (Crotalus durissus), as serpentes do gênero micrurus são relativamente mais dóceis, uma vez que não dão “botes” quando se sentem ameaçadas por qualquer razão. Mas isso não quer dizer, caro leitor, que você deva sair por aí pegando em cobras corais, pois há um risco enorme envolvido e um acidente com esses bichos pode ser fatal.

Eu já sabia que a cobra coral possuía a peçonha mais letal das serpentes Brasil, mas não fazia a mínima ideia de que o risco de ser mordido por uma era menor que o de ser picado por uma jararaca (a líder em acidentes) ou uma cascavel. O detalhe é que eu não aprendi nada disso na escola.

Das salas de aula para a bálburdia no YouTube: quem é o biólogo Henrique?

Embora acompanhe o biólogo Henrique no YouTube quase que diariamente, nunca havia tido a oportunidade de entrevistá-lo. Ultimamente, como vocês podem testemunhar, vinha me dedicando a entrevistas relacionadas à Astronomia, por ser uma área que vem me despertando mais dúvidas que as outras e devido ao fato de coisas interessantes estarem acontecendo em Marte e, muito em breve, na Lua.

Tudo mudou na última semana. Com o acidente com o bebê em São José do Seridó, aqui no Rio Grande do Norte, vi a oportunidade de pedir explicações sobre o caso para o biólogo e aproveitei para pedir uma entrevista exclusiva a ele, que aceitou prontamente o contato e ainda gravou um vídeo explicando o que pode ter acontecido com o bebê.

Se quiser conhecer o trabalho do biólogo Henrique e compreender o que aconteceu com o bebê, assista ao vídeo abaixo. Ele menciona o Por Dentro do RN e eu fiquei muito feliz por isso.

Henrique Abrahão Charles, também conhecido como o biólogo Henrique, nasceu na cidade de Nova Friburgo, no sudeste do estado do Rio de Janeiro e dedica a sua vida profissional (e por que não pessoal?) à Biologia; e, embora um herpetólogo também se dedique aos anfíbios, a paixão do biólogo Henrique parece ser mesmo as serpentes.

A minha hipótese foi confirmada quando, em meu contato inicial para começar a escrever este texto, perguntei sobre a sua formação acadêmica e sobre suas atividades profissionais e recebi a seguinte resposta:

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestrado no Comportamento Predatório de Serpentes Boidaes (anacondas, sucuris, serpentes arco-íris e jiboias) de Diferentes Habitats na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Além disso, Henrique é professor e já deu aulas de Biologia na rede pública do estado fluminense.

“Ensinar Ciência é um dom, mas é muito difícil ensinar Ciência”, diz o biólogo Henrique

Como sempre costumo perguntar aos meus entrevistados cientistas e/ou divulgadores científicos, perguntei ao Henrique sobre sua opinião a respeito do ensino da Ciência nas escolas e como os professores poderiam estimular os alunos a darem mais valor à área. “Para você ensinar Ciência você precisa estar completamente apaixonado pela Ciência”, diz.

O biólogo e professor ainda aponta a superlotação de salas de aula como um dos entraves para o ensino adequado da Ciência nas escolas, que chegam a ter mais de 40 alunos por sala de aula; o que faz com que os professores fiquem sobrecarregados e, sob o meu ponto de vista, acaba atrapalhando qualquer tentativa de dar aulas mais dinâmicas e interessantes.

Biólogo Henrique ensinando
Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

“Nós temos de ser não apenas educadores; muitas vezes, nós temos de agir como pais dos alunos”, continua Henrique, que se emociona ao contar para este repórter as histórias de alguns alunos para os quais já deu aula enquanto era professor na rede pública. “Muitas vezes, tive de me preocupar se os meus alunos estavam comendo ou não; além disso, cansei de ver vários deles indo para a escola com problemas familiares de toda natureza. Então a gente acaba fazendo aquilo que a gente consegue para entregar uma aula interessante aos alunos”, conclui.

Confesso que as respostas do professor me fizeram refletir sobre as minhas críticas, que agora enxergo ser injustas em certos casos, ao modo de se ensinar Ciência nas escolas. Por ter estudado na rede particular durante a minha vida toda, nunca parei para pensar (não a fundo) na situação dos alunos de escola pública que, por várias razões internas e externas ao ambiente escolar, têm o seu desempenho prejudicado não só nas Ciências, sejam elas naturais ou exatas, mas em qualquer outra disciplina. “O problema é estrutural”, diz Henrique.

Sobre a criação do canal ‘Biólogo Henrique, o biólogo das cobras’ no YouTube

Quando perguntado sobre as motivações que o fizeram abrir um canal no YouTube e “dar a cara pra bater” em uma rede que, ao mesmo tempo em que pode ser maravilhosa, também pode ser tóxica na mesma medida, Henrique diz que a ideia veio após vários pedidos de ex-alunos e de pessoas o estimulando a gravar as coisas que ensinava. A carreira de professor entrou em um hiato depois que Henrique abandonou as salas de aula para se dedicar ao Parque Ecológico da Restinga do Barreto, localizado no município fluminense de Macaé, às margens da BR-106.

Biólogo Henrique no Parque
Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Como subsecretário do Meio Ambiente de Macaé, o herpetólogo ajudou a tirar o maior parque urbano de restinga do mundo do papel e, embora não exerça mais nenhum cargo de chefia do local, ainda continua sendo consultor e biólogo do parque.

Em relação à motivação que teve para dar início à sua jornada no YouTube, o entrevistado diz que ela veio após o apelo de ex-alunos e de visitantes do parque, que pediam para que ele gravasse tudo aquilo que ele estava ensinando para aqueles pequenos grupos que apareciam no local. “Grava isso, cara; grava esse conhecimento que você passou. A gente viu aqui, mas outras pessoas também precisam ver”, revela Henrique sobre os estímulos que o levaram a se tornar conhecido no YouTube.

Relação com os haters e críticos

Mesmo com todos os avanços e com uma crescente de seguidores e apoiadores no canal, nada é perfeito. Quando o assunto são os haters, o biólogo afirma que há uma quantidade ínfima deles; e que não chegam a incomodar. Todavia, o biólogo diz que é recorrente alguns inscritos tentando refutá-lo em seus vídeos por meio do senso comum e do disse me disse, ainda que o seu conteúdo diga o contrário de maneira embasada.

“Por exemplo, quando eu digo que apenas a Ciência tem a cura para acidentes que envolvem picada de serpentes, algumas pessoas costumam dizer que existem chás milagrosos ou uma receita da vovó capazes de neutralizar as toxinas no corpo humano”, conta. Com o tempo, o herpetólogo diz que essas pessoas vão aprendendo e passam a compreender as coisas de maneira científica e menos dogmática. “É prazeroso trabalhar o medo das pessoas a um nível em que elas passem a achar as serpentes fascinantes”, diz.

Foto: Reprodução/YouTube

Em relação ao medo, ele conta que é uma coisa normal do ser humano e uma marca evolutiva da nossa espécie desde a época das cavernas, na qual animais peçonhentos já causavam problemas para o Homem. O temor pelas serpentes também é justificado, de acordo com o professor, pela quantidade de acidentes ofídicos que ocorrem no Brasil por ano, cerca de 30 mil.

“Morrem por volta de 150 pessoas por picada de cobras no País por ano”, afirma. No mundo, esse número chega a 4.000.000 de casos por ano; e morrem entre 80 e 140 mil pessoas. Com tantos dados assustadores, fica fácil descobrir as razões pelas quais o medo é completamente justificável.

“As serpentes são extremamente importantes na natureza para a regulação ambiental”.

Como em todas as coisas na natureza, a razão pela qual as serpentes existem é maior que qualquer medo que elas possam causar: equilíbrio ambiental.

Sobre a importância que esses répteis têm para o equilíbrio ecológico, o biólogo Henrique diz que, “se fôssemos fazer um cálculo linear, estima-se que uma serpente, ao longo dos seus 20 anos, poderia evitar o nascimento de dois milhões de roedores. Elas são extremamente importantes pois auxiliam na regulação ambiental”.

O herpetólogo continua dizendo que “também criou o canal com o objetivo de transformar esse medo das pessoas em fascínio”, por meio da conscientização sobre “papel que as serpentes desempenham na natureza”.

É visível perceber a felicidade que o professor tem ao concluir que se sente muito satisfeito por estar atingindo esse objetivo dia após dia. “Após o início do meu trabalho no canal, cansei de ver pessoas dizendo que não matam mais os animais porque entendem a importância deles”, comemora.

“O potencial biotecnológico de uma jararaca é capaz de salvar milhares de pessoas ao redor do mundo”

Sobre a importância da peçonha de serpentes para a Medicina, confesso a vocês que a primeira vez que eu ouvi sobre o fato foi no canal do Haroldo Bauer. Na ocasião, descobri que o farmacologista brasileiro Sérgio Henrique Ferreira foi o responsável por isolar uma substância no veneno da jararaca capaz de ajudar pessoas com hipertensão.

Sérgio Henrique Ferreira
Foto: Reprodção/Arquivo/SBED

Por essa razão, o cientista foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências em 29 de março de 1984 e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no período de 1997 a 1999, tendo recebido da entidade o título de presidente de honra. Hoje em dia, pessoas que sofrem com a pressão alta e utilizam o Captopril para controlá-la devem, e muito, às cobras jararacas e ao cientista por ter descoberto e isolado essa substância para a fabricação do medicamento.

Sobre os colegas e a fama de rei da balbúrdia: perguntei ao biólogo Henrique se ele sofreu preconceito por parte de seus pares da Academia

Quando perguntei ao entrevistado sobre a relação dele com seus colegas da Academia, ele me respondeu que sentiu preconceito logo no início do canal, mas por parte de outros divulgadores e/ou cientistas que trabalham no mesmo nicho de conteúdo. Para quem ainda não teve a oportunidade de ver, Henrique tornou-se conhecido como o “Rei da Balbúrdia” após os ataques de um certo ex-ministro da Educação do governo Bolsonaro (a quem não vou dar Ibope) às instituições públicas, se referindo a elas como espaços de “balbúrdia e arruaça”.

Vale salientar que ataques desse nível são comuns tanto para a alta cúpula de bolsonaristas convictos, que costumam circundar o presidente, quanto para o apoiador mais “baixo clero” que possa existir. Em seus vídeos, como uma reação irônica à fala do ex-ministro, o biólogo Henrique passou a utilizar a “máscara da balbúrdia” em homenagem aos trabalhos de pesquisa realizados pelas instituições públicas do Brasil e para, de maneira bem-humorada, divulgar a Ciência.

Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Henrique diz que até mesmo os colegas da Academia compreendem a necessidade da máscara para atrair a atenção da “criançada que assiste ao canal, incluindo autistas, que passam a se interessar pelo conteúdo em decorrência da maneira descontraída que os vídeos são gravados”, diz o professor.

Ainda de acordo com o biólogo, “uma vez que o conteúdo abordado é de pós-graduação, no âmbito de mestrado e até mesmo de doutorado, é comum que a Academia também seja atraída ao canal”. Se ainda restavam dúvidas sobre a aceitação do canal do biólogo Henrique pelos biólogos, o entrevistado conta que muitos pesquisadores do Butantan não só aprovam e apoiam o trabalho dele no YouTube como também participam com dicas, entrevistas ou simplesmente como espectadores.

Política e Ciência se misturam? Para o biólogo Henrique, se misturam completamente

Uma das questões mais controversas para alguns divulgadores científicos que eu sigo, e não só da área da Biologia, é a certa ojeriza que sentem quando alguém toca no assunto Política. Quando não estão abstendo de opiniões a esse respeito em suas redes, muitos deles simplesmente partem para o senso comum de que “políticos são todos iguais” e que “nada vai mudar” Como falei logo no início deste texto, uma das coisas que me fizeram seguir o biólogo Henrique no YouTube foi o fato de me identificar com alguns de seus posicionamentos.

Quando perguntei sobre a relação entre Política e Ciência, Henrique foi categórico ao afirmar que “a divulgação científica é político-ativista”, isto é, o indivíduo faz Ciência e defende a Ciência porque acredita no que está defendendo. Na visão deste que vos escreve, o fato de o professor ter estudado em universidade pública e ter participado da administração de um parque público tenha o ajudado a enxergar a importância das políticas públicas para a Ciência no Brasil, mas essa visão ainda não é tão clara para muitos divulgadores, infelizmente.

Biólogo Henrique segura uma iguana
Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

“Ciência e Política se misturam completamente. A gente vem de uma época de ditadura na qual você não podia falar sobre Política que seria perseguido”, diz o professor. De acordo com o herpetólogo, foi a partir daí que se criou essa ideia de que não devemos discutir sobre o tema.

“A Ciência segue uma diretriz política e não é, de maneira nenhuma, neutra”, continua Henrique. Para ele, a Ciência funciona tanto para o bem quanto para o mal; e pode servir tanto para os interesses públicos quanto para os privados; é tudo questão de que sejam traçadas diretrizes capazes de nortear a Ciência.

“O ofidismo, por exemplo, é uma doença tropical negligenciada. Todos os avanços científicos ocorreram por causa de investimento público; graças ao médico Vital Brasil e ao Butantan”, destaca. Para a iniciativa privada, todavia, não seria lucrativo produzir e vender soro antiofídico para as pessoas porque “pobre não tem dinheiro pra comprar” e, como se sabe, o mercado vive essencialmente de lucro.

“É preciso ter uma bancada da Ciência na política brasileira”

Em contraposição às bancadas da bala, do boi e da bíblia; ou à bancada recente dos negacionistas da Ciência, o biólogo Henrique ainda é defensor da mobilização dos cientistas brasileiros para se lançarem no cenário político e formarem a “bancada da Ciência”.

Dessa forma, de acordo com o especialista em serpentes, uma bancada formada por homens e mulheres da Ciência poderia ajudar na formulação de diretrizes que incentivassem à área científica e ajudassem e combater de frente essa “idade média” que vem tomando conta das discussões políticas nos últimos anos.

“Divulgador que ignora isso não terá, depois, o que divulgar. Não dá para ficar em cima do muro enquanto a anticiência levou a óbito mais de meio milhão de pessoas no Brasil. E eu não irei ficar nessa covardia”, conclui.

O canal do “Biólogo das Cobras” é a prova de que dá para ser técnico sem ser chato; e os resultados provam isso

Com mais de 300 mil seguidores no YouTube e cerca de 65 milhões de visualizações, o canal do biólogo Henrique é uma prova prática de que é possível divulgar a Ciência na Internet sem ser chato ou monótono.

O fato de o obscurantismo científico e o negacionismo estarem em alta, atrelado à dificuldade que os canais de Ciência no YouTube têm de crescer, torna importante dar destaque ao sucesso do canal do “Biólogo das Cobras”, que se tornou, seguramente, o maior canal do mundo (de estudo) da fauna ofídica.

Além disso, o biólogo ainda administra a maior página do mundo de divulgação da herpetofauna, em Língua Portuguesa, do Facebook. É claro que os números, isoladamente, não querem dizer muita coisa. Mas, no caso acima, posso garantir que a qualidade da audiência também traz qualidade ao conteúdo do canal.

Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Em nome dos leitores do Por Dentro do RN e de todos os interessados por Ciência que conheceram um pouco mais sobre a Herpetologia e sobre o canal, gostaria de agradecer ao biólogo Henrique pela atenção dispensada a este repórter.

Também quero revelar, publicamente, que a divulgação dessa área no YouTube me ajudou a aprender que uma cobra peçonhenta não tem “quatro ventas”, mas sim um órgão chamado de fosseta loreal (exceto as da família dos Elapídeos) o qual utiliza para detectar as variações de temperatura do ambiente e auxiliar na hora da alimentação e da defesa de predadores; e me ajudou, também, a ficar fascinado por esses bichos tão mal compreendidos quanto as serpentes.

No Brasil, das 370 espécies de serpentes catalogadas, apenas 55 são consideradas “de importância médica” e podem causar acidentes graves; ou seja, quando você mata uma serpente, há grandes chances de estar tirando a vida de uma que nem sequer seria um risco pra você.

Foto: Reprodução/Facebook/Hora da Ciência

E tem outro fato importante: todas essas 55 espécies estão inclusas em apenas quatro gêneros. São eles: o grupo das jararacas (Bothrops), o das cascavéis (Crotalus), o das corais (Micrurus) e o das surucucus (Lachesis); que possuem características marcantes capazes de nos fazer ligar o alerta e deixá-las em paz, no máximo desviando do seu caminho e/ou pedindo ajuda a alguém.

Sendo assim, deixo um apelo a você, caro leitor: viu uma cobra por perto? Não mate. O fato de tê-la enxergado já garante que você terá cautela e não se aproximará ao ponto de o encontro se tornar perigoso. Diferente do que diz o dito popular, cobras não correm atrás das pessoas a fim de picá-las.

Até a próxima e viva a balbúrdia!

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Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, por Astronomia, serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
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8 comentários em “Biólogo Henrique: como a balbúrdia de um professor no YouTube vem ajudando a salvar serpentes no Brasil”

  1. Alvaro José Maranhão Campos

    De parabéns seu texto,o Henrique realmente abriu a mente de muitos para a importância das serpentes no meio ambiente.

  2. Henrique realmente é um excelente Biólogo e divulgador científico. Parabéns, Gustavo! Sua matéria ficou perfeita…o texto ficou maravilhoso

  3. Emerson Carneiro Porcari

    A matéria ficou ótima e muito clara. Só tenho elogios ao biólogo Henrique e ao seu trabalho de divulgação da ciência no país. Precisamos mesmo de mais cientistas ocupando cargos políticos.

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