Buscando espaço para os encontros, por Ana Beatriz Amorim

Buscando espaço para os encontros, por Ana Beatriz Amorim

Por Ana Beatriz Amorim
Para o Por Dentro do RN

Viver uma pandemia não estava nos meus planos. Me falta repertório emocional para passar por um momento histórico desse nível. Até gostava de ver filmes e de ler sobre futuros meio catastróficos, meio inevitáveis, mas ainda assim distantes. No futuro, afinal. Agora, enquanto um vírus se espalha, queria escapar para o futuro-onde-sim-vai-ficar-tudo-bem-tomara. Ou então voltar para o passado, quando podia encontrar quem quisesse no momento que estivesse a fim. Saudade dos bons encontros.

Porque na vida vivida pelas telas, alternando entre celular e computador, terminando o dia de frente para TV, vemos pedaços da gente. Estamos em uma observação constante sobre nós mesmos refletidos em lives, reuniões no Zoom, videochamadas. Ainda bem que vivemos essa pandemia em um momento em que a internet dá conta de reproduzir múltiplos espaços da nossa vida, claro.

Dá pra trabalhar, estudar, fazer doação, encontrar os amigos, buscar entretenimento e informação (essa última, quanto mais moderação, melhor para sua saúde mental). É por ela que tentamos suprir a falta do outro com uma checagem emocional constante – agora a interlocução conta com minutos iniciais para conferir se tá dando para atravessar o dia. Ainda assim, que saudade de abraçar.

Saudade de ver, encostar, ocupar o mesmo espaço, ficar na rua, dançar, passear pela cidade, ir de uma exposição a um restaurante, emendar com a sobremesa, migrar para o quintal dos amigos, apertar as crianças que estamos deixando de ver na idade que elas têm agora – e me parte o coração ir ao Parque das Dunas e não poder interagir com um menino de três anos enquanto ele se diverte com um cachorro que é seu amigo também. Tem dias que sinto falta até da conversa de elevador, quando a gente conseguia falar sobre o tempo, e não sobre a pandemia vivida no pandemônio que se tornou o Brasil desde 2020.



É no final de semana que essa saudade se intensifica. Quando a gente fazia tudo isso prolongando o dia para ficar junto, cada hora revendo mais um amigo, naquela aglomeração de afeto que era capaz de nos dar mais energia de vida. Conversando sobre diversos assuntos, lembrando do que acabou de acontecer durante a semana, da partida de futebol, dos planos, das viagens, reforçando nosso entendimento de que a gente vive bem quando vive junto. Ouvindo música, escutando o outro de corpo inteiro, experimentando até ficar em silêncio também. A conversa pela tela é focada, não deixa espaço para a pausa. E tantas vezes é no silêncio compartilhado que acontece uma conexão mais profunda.

A certa altura talvez muitos de nós vamos furar a quarentena, imagino. Porque a gente tem necessidade de afeto, de abraço, de toque, de ficar junto. E, sem previsão de quanto tempo vai durar a pandemia, vamos precisar desenhar alternativas para ver o outro com segurança, respeitando protocolos. Uma amiga me ajudou a levar o pensamento para um lugar menos rígido, falando de necessidade versus risco. “Comprar comida num supermercado é alto risco, mas grande necessidade, por isso vamos. No começo da pandemia a gente colocou os encontros como baixa necessidade. Mais de um ano depois virou alta necessidade”

A gente precisa reforçar os cuidados mesmo com a chegada e o acesso à vacina para poder entrar em contato com nossas pessoas queridas. Ao montar logística para rever alguns, confesso, primeiro senti angústia e quase um desespero. Para logo depois pensar que essa atitude de buscar espaço para os encontros pode se tornar possibilidade também.

Se é disso que vamos precisar para viver momentaneamente o presente com um pouco mais de afeto, me vem à cabeça uma figurinha de WhatsApp: já tô com roupa de ir. Porque não vejo a hora de tomar minha segunda dose da vacina e a gente se encontrar de novo com os devidos cuidados – e mais uma vez sempre com a esperança de que teremos dias melhores.

Foto: Ilustração/Getty Images

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Sobre Ana Beatriz Amorim, colunista do portal Por Dentro do RN

Ana Beatriz Amorim

Ana Beatriz Amorim tem 35 anos, é jornalista e designer gráfica formada pela UnP. Também é fotógrafa, licenciada em Artes Visuais pela UFRN e especialista em Assessoria de Comunicação. Adepta da teoria do faça uma coisa de cada vez e seja múltipla, escreve a respeito do cotidiano, artes, cultura e esporte. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.

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