Das bravatas às gravatas no Dia da Independência, por Rogério Melo

Das bravatas às gravatas no Dia da Independência, por Rogério Melo

Por Rogério Melo
Para o Por Dentro do RN

Na terça-feira passada, 07, dia em que se comemora a Independência do Brasil, manifestantes saíram às ruas em pelo menos setenta (70) cidades brasileiras para declararem seu apoio ao Governo Federal, segundo apontam as estimativas de seus organizadores.

Os manifestantes saíram em carreata até os respectivos pontos de concentração previamente definidos, exibindo cartazes pedindo o “fechamento do Congresso Nacional”, as adoções do “voto impresso” e de um “tribunal militar”, a “exoneração de todos os ministros do STF”, a “intervenção das Forças Armadas” e a consequente instauração de um “Estado de Sítio” no país, bem como outras ilegalidades que afrontam o Estado Democrático de Direito, cujas leis [pelo menos teoricamente] são criadas pelo povo e para o povo, a fim de respeitar a dignidade da pessoa humana tão violada em tempos de Ditadura Militar.

Apesar da recomendação das principais lideranças nacionais de esquerda para que se evitassem as manifestações, naquele dia, os atos contra o governo também marcaram presença nas ruas para protestar contra o descontrole da inflação, a alta taxa desemprego, os altos preços dos combustíveis, da energia elétrica e da cesta básica; contra a recessão econômica, e pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Para as lideranças de esquerda, o motivo era evitar o confronto direto entre o “Grito dos Excluídos” e os bolsonaristas, que insuflados pelas declarações abertas do presidente em apoio ao armamento de seus aliados, pudesse resultar até mesmo em mortes. Entretanto, a despeito das tensões provocadas pelos discursos inflamados da população, as polícias militares dos estados não registraram nenhuma ocorrência digna de nota.

O presidente também voltou à pauta do voto impresso, criticando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, contudo, sem fazer qualquer menção ao seu nome. Importante aqui destacar sobre o arquivamento do Projeto de Emenda Constitucional do voto impresso (PEC 135/2019) na Câmara dos Deputados, votada no dia 10 em agosto, que representou uma derrota para o governo Bolsonaro para quem o sistema de votação por meio da urna eletrônica é fraudulento, se eximindo de apresentar quaisquer provas que corroborem com suas levianas afirmações.

Partindo de uma percepção ampliada falsamente a todos os brasileiros, afirmou para os presentes: “Não podemos admitir um sistema eleitoral que não fornece qualquer segurança. Nós queremos eleições limpas, democráticas, com voto auditável e contagem pública dos votos. Não podemos ter eleições onde pairem dúvidas sobre os eleitores. Não posso participar de uma farsa como essa patrocinada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral”, disse Barroso.

Flopou

Um fato chamou a atenção de lideranças oposicionistas, que se manifestaram nas redes sociais sobre os atos de 7 de setembro, foi a baixa adesão por parte de manifestantes pró-governo, nos quais era esperada a participação de um público pelo menos 95% superior ao verificado, tanto na Esplanada dos Ministérios, em Brasília; quanto na Avenida Paulista, em São Paulo. Segundo Tweetdeck, um aplicativo de mídias sociais, que integra mensagens do Twitter e do Facebook, a hashtag #flopou entrou nos trending topics das redes durante a tarde.

O verbo “flopar” é um estrangeirismo utilizado por jovens para se referirem aos eventos que não conseguem alcançar o público almejado pelos seus organizadores. “Flopar”, portanto, se origina do termo, em inglês flop, podendo ser traduzido como “fracasso”. O termo figurou entre os termos mais buscados no Google, ainda durante a tarde, segundo o Google Trends.

Na Esplanada dos Ministérios, a estimativa de público de 150 mil pessoas, o que equivaleria a 5% do público previsto pelos manifestantes pró-Bolsonaro, segundo informação não oficiais fornecidas pelo jornal Valor Econômico aos demais veículos de imprensa.

Já em São Paulo, o público esperado pelos organizadores oscilaria em torno de 2 ou 3 milhões de pessoas, segundo informação passada à Polícia Militar, numa reunião ocorrida, no dia 31 de agosto. No entanto, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) daquele estado estima um público em torno de 125 mil manifestantes presentes na Avenida Paulista. Ou seja, pouco mais de 6% da expectativa dos organizadores.

Muito embora os públicos em ambos os atos citados tenham aquém das expectativas dos organizadores, há que se considerar que uma presença tão massiva de pessoas neles é uma clara demonstração de que o presidente ainda é capaz de mobilizar seus aliados em torno dos seus objetivos, bem como de que esses mesmos fiéis escudeiros estão dispostos a fazer qualquer coisa para alcançá-los.

Trata-se daqueles aos quais muitos analistas políticos vêm denominando como o “núcleo duro” dos apoiadores bolsonaristas, correspondentes em termos percentuais a algo em torno de 25% dos eleitores brasileiros. Um percentual ainda bastante alto, a despeito da vertiginosa queda que o atual presidente vem sofrendo nas intenções de voto para o pleito de 2022, em relação ao ex-presidente Lula.

#BolsonaroArregou

Depois da hashtag #Flopou, em alusão ao fracasso dos atos pró-Bolsonaro, foi a vez da hashtag #BolsonaroArregou invadir as redes com uma enxurrada de memes zoando o pedido de desculpas velado do presidente, depois de um pronunciamento intitulado “Declaração à Nação”, nesta última quinta-feira, (9).

Não deu outra, os internautas não perdoaram. Importante lembrar que, em agosto, o presidente Bolsonaro protocolara no Senado um pedido de impeachment contra o ministro Alexandre Moraes defendendo a tese de que ele e o ministro Luis Roberto Barroso agem fora dos limites impostos pela nossa Constituição. O governo amargava mais uma derrota, uma vez que o pedido foi indeferido.

A tal “Declaração à Nação” (texto redigido com a ajuda do até então ausente dos holofotes do cenário político, o ex-presidente Michel Temer) emergiu como uma tentativa de apaziguar os ânimos nos Três Poderes, após o presidente do STF, o ministro Luiz Fux, afirmar em seu pronunciamento realizado no dia anterior, quarta- feira (8), que “o Supremo Tribunal Federal também não tolerará ameaças à autoridade de suas decisões. Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa do chefe de qualquer dos poderes, essa atitude, além de representar um atentado à democracia, configura crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional” – condição sine qua non para a abertura de um processo de impeachment.

Pela gravidade das declarações do presidente, no dia 7 de setembro, aos seus correligionários, podemos supor ainda existirem “muitos panos para as mangas” para muitos outros desdobramentos políticos.

Resta-nos a nós, pobres mortais, sobre quem a pesada mão do alto custo de vida repousa, aguardar se aquilo que resultará das bravatas bolsonaristas e das as gravatas daqueles que comandam os Três Poderes, serão seus enlaces em torno do objetivo de arrancar o país do fundo do poço em que se encontra; ou se juntas, formarão uma corda com a qual sufocarão, de uma vez por todas, o país nas profundezas de uma crise que não é somente sanitária, mas econômica, política, social e, sobretudo, ética.

Foto: Reprodução/Pedro Ladeira/Folhapress

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Sobre Rogério Melo, que escreve na coluna In vino veritas, no Por Dentro do RN

Coluna de Rogério Melo para o Por Dentro do RN (In Vino Veritas)

Rogério Melo tem 51 anos, é comunicador social, cientista social e mercadólogo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Também é mestrando em Ciência da Informação pela mesma instituição. Além disso, Rogério Melo escreve na coluna In vino veritas, no Por Dentro do RN, às sextas feiras; e comenta sobre os fatos políticos do RN e do Brasil. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.

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