Sobre viver de migalhas e a equivocada necessidade de pertencer por pertencer, por Gustavo Guedes - Por dentro do RN
Sobre viver de migalhas e a equivocada necessidade de pertencer por pertencer, por Gustavo Guedes

Sobre viver de migalhas e a equivocada necessidade de pertencer por pertencer, por Gustavo Guedes

Por Gustavo Guedes
Para o Por Dentro do RN

Em uma realidade cada vez mais individualista, há quem se iluda com qualquer migalha de atenção, de falsa empatia, e se adapte a qualquer situação inferior à merecida. Neste contínuo processo de autoconhecimento, é seguro dizer que este que vos escreve, assim como vários outros indivíduos, foi uma dessas pessoas.

E, para chegar a essa conclusão, foi preciso sair da caverna da arrogância, do autoengano e aceitar a realidade como ela se apresentou a mim. Foi preciso analisar tudo criticamente, cada um dos momentos nos quais as minhas entregas pessoais a causas e pessoas ficaram no lado mais pesado da balança, sem contrapartidas ou sinal de companheirismo: apenas migalhas, sobras, restos do que se poderia ter.

É óbvio que não se trata de fazer e agir esperando recompensas em troca, não se trata disso. Porém, não nos deixemos levar pela linha tênue entre agir sem esperar nada em troca e desperdiçar nossa energia e dedicação com aqueles que , oportuna e pretensiosamente, se aproveitarão disso e da nossa boa vontade; e também se voltarão contra nós quando por alguma razão “subvertermos as expectativas” que eles próprios definiram como ideais.


Migalhas daquele patrão que não valoriza o nosso trabalho porque “não é nada mais além que a nossa obrigação”, que nos elogiam para nos ter em seus pés, mas nos descem o malho quando não correspondemos aos seus anseios. Migalhas daqueles amigos que recusam os nossos convites porque o trabalho e “as obrigações burocráticas” os impedem de qualquer coisa ou que só nos procuram quando precisam de algo. Ou ainda migalhas daquele amor que, um dia, já transbordou e hoje sobrevive de um passado distante, com a falsa esperança de que tudo voltará a ser como antes. Não volta.

A gente tende a aceitar essas situações porque temos medo de não encontrar outro emprego “devido à crise e aos boletos que batem à porta”, ou porque, presos às lembranças desse passado que não existe mais, não queremos romper laços com aqueles que pelos quais nutríamos um carinho ou mantínhamos um relacionamento amoroso/fraterno porque, simplesmente, temos medo de ficar sozinho devido à dificuldade de se encontrar alguém “de futuro” hoje em dia. Repare nas aspas no termo “de futuro”, pois eu abomino esse adjetivo, uma vez que não creio que exista isso.


Esse tipo de queixa é compartilhada aos montes em textões no Facebook, em tweets sarcásticos no Twitter ou em frases de efeito nos stories do Instagram. O problema existe, é conhecido, mas quantos de nós vamos além da superfície de likes nas redes sociais e nos aprofundamos nestes temas de maneira crítica, em prol de uma mudança de dentro pra fora, para que nos blindemos dos efeitos nocivos disso tudo que foi exposto acima? Falar o óbvio, sentar e reclamar resolve?

Ninguém pode ser feliz entregando-se a fantasias tolas; pois nada traz felicidade a menos que, também, traga calma; e não vive bem aquele que desperdiça a sua vida apreensivo e preocupado.

Sêneca, em Cartas de Sêneca a Lucílio


É certo que, em uma realidade como a nossa, quaisquer lampejos de carinho, de afeto e de consideração já são vistos como sinais de que encontramos o grande amigo ou amor das nossas vidas, mas as coisas não funcionam bem assim: buscar no outro a nossa (inexistente) metade “perdida” é a receita ideal para a frustração. O que precisamos para ser feliz não está no outro e triste o indivíduo que acredita que está. E eu já acreditei, por oito anos, que as coisas funcionavam assim.

Em primeiro lugar, a gente só lida melhor com as decepções que certas jornadas nos trazem quando a gente olha pra frente e aprende que o que passou não volta mais: ficar preso ao passado nos faz sofrer duas vezes. Em segundo lugar, quando a gente deixa de achar que o mundo nos odeia ou que a gente nasceu para viver das migalhas alheias, colocando em mente as pessoas são feitas de erros, acertos, sacanagens e boas ações: tudo isso junto em um só ser.

Em terceiro lugar, sem querer valorar o que é “certo” ou “errado”, é preciso ter em mente pessoas decepcionam umas as outras. Umas mais, outras menos, mas todo mundo decepciona ou já decepcionou alguém. Brigar contra isso é em vão. O que a gente faz com o que fazem com a gente é que nos diferencia dos demais.

Em vez de procurar definir o que é certo ou errado, acho mais inteligente tentar ter em mente que as nossas ações têm consequências e elas podem ser, individualmente, boas ou ruins. Que tenhamos liberdade para fazer tudo o que queremos fazer, mas sempre prontos para, cedo ou tarde, “sentar à mesa do banquete de consequências”.

A independência é algo para pouquíssimos: é a prerrogativa dos fortes. Quem procura sê-lo sem ter a obrigação, demonstra que, provavelmente, não apenas é forte; mas também possuidor de uma audácia imensa.

É inevitável — e justo — que os nossos mais altos anseios pareçam bobagens, em algumas circunstâncias delitos, quando chegam indevidamente aos ouvidos daqueles que não foram feitos para eles.

O que serve de alimento para o espírito de uma classe de indivíduos, deve ser como veneno para outras.

Nietzsche, em Além do Bem e do Mal

Quando mergulhamos de cabeça nesta missão de aprender com as nossas tragédias pessoais e começamos a traçar os nossos limites, definindo até onde devemos ir e até onde as pessoas que nos cercam devem ir, fica mais fácil perceber em que ponto o nosso senso de comunidade deixa de sê-lo e se transforma em “aceitar qualquer coisa para ser aceito, amado e pertencer a um lugar qualquer que nos caiba”. Isso está sob nosso poder.

Eu, que já pensei em tirar a minha própria vida por coisas que me fizeram em um passado não tão distante, passei a ganhar mais qualidade de vida e saúde mental quando comecei a pensar e, principalmente, a agir assim. E é isso que me diferencia de quem vive de postar frases de motivação na Internet e não procura, de fato, agir como tenta mostrar.

Acima de tudo, quando você se ofender pela deslealdade ou ingratidão de alguém, volte-se para dentro de si próprio: a culpa é exclusivamente sua se você confiou que uma pessoa com essas características seria fiel a você.


Marco Aurélio, em Meditações

Em minhas aventuras filosóficas do último ano, sempre retorno ao aforismo do abismo de Nietzsche: quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E, se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.

Todos nós temos os nossos abismos e, de acordo com a mensagem que o filósofo alemão nos passa, mesmo quando somos desafiados por esses abismos, é possível tirar o máximo valor das nossas tragédias pessoais. E ele fala isso sem romantizar o sofrimento; é algo mais como, já que eu não pude nem posso evitar isso, como posso tirar vantagem disso?

Para ele, a quantidade exata de tempo que uma pessoa deve olhar para o abismo consiste no período necessário para que ela consiga reconhecer e aceitar a realidade de sua dor, compreendendo-a e tirando as lições que devem ser tiradas. Em seguida, o indivíduo deve abandoná-la antes que ela o engula integralmente e o faça viver uma vida de ressentimento.

O ressentimento, quando nascido da fraqueza, não é mais prejudicial para ninguém que para o próprio indivíduo fraco; ao contrário daqueles fortes em espírito, para os quais o ressentimento é um sentimento supérfluo.

Os meus leitores que conhecem sabem a seriedade com que a minha Filosofia trava guerra contra os sentimentos de vingança e rancor.

Em meus momentos de decadência, proibi-me de tolerar os sentimentos acima porque eram prejudiciais; assim que recuperei o controle da minha vida suficientemente, porém, mantive-os proibidos, mas desta vez porque estavam abaixo de mim.

Nietzsche, em Ecce Homo


O ressentimento nos envenena e nos faz perder a chance de exercer a nossa vontade de potência, a nossa capacidade de fazer chover quando tudo parece árido. É preciso resistir em meio ao caos e ser corajoso para, mesmo diante das dificuldades e das incertezas, não aceitar qualquer coisa senão o quinhão que é nosso por direito.

Foto: Ilustração/Pixabay

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Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, por Astronomia, por Filosofia, pela boa política, por serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
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