Surfando Karmas & DNA, por Gustavo Guedes - Por dentro do RN
Surfando Karmas & DNA, por Gustavo Guedes

Surfando Karmas & DNA, por Gustavo Guedes

Por Gustavo Guedes
Para o Por Dentro do RN

Dificilmente, alguém me verá tomando a atitude de iniciar uma conversa sobre a minha vida pessoal com quem eu conheço pouco; a não ser que o interesse parta da outra parte e seja sincero, obviamente. Ainda que isso não seja problema para mim, tenho em mente que não são todas as pessoas que estão dispostas a ouvir o próximo, a não ser pela curiosidade pelo que é insólito e sensacionalista; a minha vida, todavia, não deve ser novela para essas pessoas.

Diante disso, afirmo: este espaço é o único local onde, dentre outras coisas, eu despejo tudo aquilo o que acumulo no intervalo de tempo entre um texto e outro, goste você ou não, caro leitor; interprete você o que eu digo corretamente ou não.

Como já falei antes, para mim, aqui é o melhor lugar para colocar as ideias no lugar sem ocupar os ouvidos das pessoas que me cercam; para elas, ofereço assuntos melhores e mais interessantes. Nada é repetitivonada é mais do mesmo e sempre há uma camada a mais para abordar determinados assuntos; e tudo faz parte de algo que eu, ainda, não sei como nomear. Há quem diga que é autoconhecimento, mas eu acho que vai além.

Me dirijo diretamente aos que dispensam alguns minutos lendo o que escrevo porque sei que estou vulnerável a todo o tipo de valorações, sejam elas positivas ou negativas. Mesmo existindo os que aparecem por aqui buscando, de maneira sincera, saber como estou e o que ando fazendo; há, também, os que vêm checar se eu já pulei de uma ponte ou se já me afoguei em minhas certezas.

Aos primeiros, agradeço pela preocupação; aos últimos, todavia, achei que vocês tinham mais o que fazer em suas vidas medíocres, que aparentam ser interessantes nos locais onde vocês gostam de exibi-las.

POR ONDE ANDEI ENQUANTO NINGUÉM ME PROCURAVA?

No mesmo canto de sempre; fazendo, primordialmente, as mesmas coisas de sempre; com pequenas, mas cada vez maiores, novidades.

Já se foram alguns meses desde o meu último texto e eu continuo aqui no meu canto, fazendo o que está ao alcance, ainda que tenha dado uma escapadas algumas vezes, dada a situação atual da pandemia neste mês de abril de 2022, mas com responsabilidade.

O fato é que, no que se refere a redes sociais, digamos que eu estou mais na minha, embora deixe escapar alguns posicionamentos pontuais por aí; além das passagens filosóficas que eu ainda posto nos destaques do Instagram. Para evitar embates inúteis e nada produtivos, resolvi me fechar no meu mundinho e esperar o tempo passar. O que não quer dizer, todavia, que ando desocupado.

Se você ainda está em home office ou trabalha essencialmente de casa desde sempre, sabe que é possível ficar — muito — ocupado; e, graças ao acaso, tenho o privilégio de me manter atarefado e produtivo; seja com trabalho, estudos, música ou leituras.

E eu consigo ser grato a essas pequenas novidades que quebram um pouco da monotonia e dos momentos turbulentos dos últimos dois anos. De certa forma, essa é a razão pela qual demoro a aparecer por aqui, embora nunca tenha parado de escrever: o processo é lento, mas contínuo.

UM PÁLIDO PONTO AZUL PERDIDO NA VASTIDÃO DO ESPAÇO

Peço com licença, aqui, para fazer uma pequena digressão. Durante muito tempo, olhei bastante para o céu; não com uma visão metafísica da existência, tampouco tentando justificar as minhas desgraças atribuindo culpa aos astros e aos planetas.

Há quem pense, arrogantemente, que o Universo e sua infinitude giram e se expande em torno de nossos dramas minúsculos; mas eu não sou um desses. O meu interesse nisso segue o caminho oposto: cada vez que olho para o céu, tenho mais certeza de que somos nós, apenas nós, os responsáveis pelos nossos atos; não é Marte, Vênus, muito menos Mercúrio retrógrado.

Além do mais, seria uma puta de uma arrogância achar que a espécie humana existe porque é superior a outras espécies, visto que estamos todos dentro de um sistema. Sendo bem honesto, sequer tenho certeza de que somos únicos nisso tudo.

Buscar compreender a minha posição em tamanha grandiosidade não significa viver a vida sem propósito, uma vez que ela existe para ser vivida, tampouco pregar uma falsa humildade em prol de um ascetismo hipócrita, pautado em ideais antinaturais.

O objetivo é perseguir propósitos pelos quais valham a pena viver, não me prendendo aos ideais acima. Uma vez que você conhece o jogo, fica mais fácil de jogá-lo.

HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Em minhas aventuras pela Filosofia, tirei os últimos anos para ler Nietzsche, um dos filósofos mais compartilhados pela galera no Instagram e sobre o qual eu não sabia quase nada, a não ser pelos poucos textos isolados que havia lido logo no início da faculdade de Jornalismo, ainda em 2012, quando a tarefa de ler grandes clássicos, infelizmente, tinha o objetivo de ganhar uma nota no final do semestre.

Como quase toda citação que se compartilha na Internet, há uma tendência de se tirar frases de contexto, de uma maneira que fiquem mais adequadas às nossas realidades, digamos. Longe de ser um grande especialista nos escritos do filósofo alemão, mas dá para perceber que é justamente contra essa realidade que ele empreende sua luta.

Toda essa realidade na qual a raça humana é especial e tem um propósito para existir, ou que é guiada por valores nobres (muitos impostos pelo Cristianismo) pelos quais vale a pena morrer. Nietzsche é contra toda a moralidade idealizada e difundida pelos valores cristãos; e, ao dizer que “Deus está morto”, a provocação é contra o Cristianismo, uma criação de seres humanos, não contra Deus exatamente.

Para o autor, quando o indivíduo se satisfaz com explicações metafísicas que justifiquem a complexidade das coisas, no fundo, é como se esse indivíduo estivesse preso a um mundo que criaram para ele, no qual ele não pode pensar.

Sou muito curioso, muito incrédulo e muito insolente para ficar satisfeito com justificativas grosseiras para situações palpavelmente complexas. Para mim, Deus é uma dessas soluções grosseiras; uma solução que mostra falta de respeito para com nós, os pensadores. No fundo, é apenas uma grosseira proibição criada por nós mesmos, na qual a regra é: você não deve pensar!

Ecce Homo — “Why Am I So Clever?”
Friedrich Nietzsche
Pág. 29

Segundo Nietzsche, portanto, ao atribuir nossas condutas a uma razão nobre da nossa existência, esta a qual nos priva de nossa capacidade de pensar e de nossas vontades mais básicas, estaríamos vivendo de maneira errada, como um escravo de nós mesmos.

Todas aquelas coisas que a humanidade valorizou com tanto zelo até agora nem mesmo são reais; eles são meras criações da fantasia ou, mais estritamente falando, mentiras provenientes dos instintos maus de naturezas doentes, perniciosas no sentido mais profundo.

Todos os conceitos de «Deus», «alma», «virtude», «pecado», «além», «verdade», «vida eterna» são criações humanas para lidar com a natureza hostil à qual a própria humanidade está vulnerável; mas foi nelas em que procuramos a grandeza da natureza humana, a sua «divindade».

Ecce Homo — “Why Am I So Clever?”
Friedrich Nietzsche
Pág. 52

No caso do Cristianismo, por exemplo, nós só poderíamos acessar o mundo ideal — o céu — após a nossa morte física; isto é, até morrer fisicamente, deveríamos nos privar dos nossos instintos, nos castrando do prazer de se viver integralmente. Neste aspecto, o Cristianismo se assemelha à filosofia de Platão, uma vez que ambos defendem a ideia de que vivemos em um mundo “de aparências”, e que existe outro mundo superior, mais importante, um mundo real, ideal.

O soco no estômago vem quando Nietzsche diz que não existe esse tal mundo ideal, real. O mundo real é o mundo no qual vivemos, com todas as coisas que nele habita, aquele mundo que os nossos sentidos podem tocar; e muita gente só faz o bem porque tem medo de ser castigado caso não o faça.

Tendo em mente que a religião é responsável por punir com o inferno quem fizer mal ao próximo, o filósofo é categórico ao dizer que a benevolência de muitos, na verdade, só existe porque essas pessoas foram ensinadas, por meio da moral cristã, que a recompensa para quem faz o bem é ir para o céu.

Mas e os ateus? Você, leitor, pode perguntar. Não importa.

Se partirmos da ideia de que nós, seres humanos, tendemos sempre a atribuir um sentido nobre à vida, qualquer indivíduo— do mais insignificante ao mais avançado — buscará justificativas igualmente nobres que tragam esse sentido para suas ações.

Cada um desses heróis grita: ‘atenção, há algo significativo nesta vida, há um sentido por trás dela!’

Esse é o impulso que age igualmente em todos os indivíduos: dos mais elevados aos mais insignificantes; o impulso à conservação da espécie, que surge de tempo em tempo como razão e paixão do espírito.

Com esse impulso, vem uma série de motivos ao redor; e a qualquer custo querem fazer esquecer que, no fundo, tudo é impulso, instinto, tolice e ausência de motivo.

The Joyful Wisdom — Book I
Friedrich Nietzsche
Pág. 74

Para Nietzsche, a vida existe por existir, não havendo qualquer sentido nobre por trás dela. E esse é mais um soco no estômago: quantos de nós tomamos atitudes que consideramos corretas de maneira racional, não atribuindo qualquer ideal nobre ou religioso a elas?

Quantos não defendem a ideia de que o “universo nos devolve, em dobro, tudo o que fazemos” ou coisas do tipo? A crítica de Nietzsche vai diretamente contra essa visão transcendental da existência humana. Não existe universo ou recompensas divinas por nada que façamos, sejam essas ações boas ou más: tudo é apenas ação e reação. C’est fini.

Gradualmente, o homem tornou-se um animal fantástico, que mais que qualquer outro tem de preencher uma condição existencial: ele tem de acreditar e saber, de vez em quando, por que existe; sua raça não pode florescer sem uma confiança periódica na vida — sem fé na razão da vida.

The Joyful Wisdom — Book I
Friedrich Nietzsche
Pág. 75

Como percebem, Nietzsche utiliza todo o seu raciocínio para, basicamente, nos chamar de hipócritas.

Afinal, quem nunca esperou ser reconhecido apenas porque fez o bem ou o correto? Uma vez que a gente faz uma ação positiva esperando o reconhecimento ou recompensas, a ação em si não é sincera; e acabamos sugerindo que não a faríamos caso não acreditássemos ser recompensados por realizá-las.

UM TÓPICO PARA ESPÍRITOS LIVRES

Quem ouve falar sobre Nietzsche superficialmente, não perde tempo antes de encaixá-lo na caixinha do niilismo, sem atentar para toda a carga semântica que a palavra pode carregar, dependendo do contexto.

Geralmente, as pessoas conceituam niilismo comparando-o com o verbete equivalente a pessimismo no dicionário, como se fosse a tendência para ver e julgar as coisas pelo lado mais desfavorável; ou a disposição que determinado indivíduo tem para esperar sempre pelo pior, de negar a existência.

Eu, que já pensei assim, respondo: o conceito não está errado, porém, incompleto. Filosoficamente falando, Schopenhauer e Nietzsche, talvez, sejam os dois principais nomes que vêm à mente quando falamos de niilismo. A ideia, aqui, é diferenciar o pensamento de ambos no que se refere ao termo, focando na visão nietzschiana de niilismo.

Schopenhauer defende a negação máxima à vida, negativamente, fazendo com que o indivíduo se conforme com a sua existência, acreditando que tudo é e/ou foi em vão. Para ele, não há deuses, valores, tampouco um lugar para o qual o indivíduo possa ir. Não há qualquer energia vital que o faça lutar por coisa alguma.

Mas há também o niilista reativo, este o qual, mesmo entendendo a “morte do deus” do Cristianismo, se agarra a outros ideais que, no fundo, também o escravizam. Nietzsche condena o niilismo reativo porque este apenas mudou o deus — ou a causa — pelo qual o indivíduo deve clamar, o que o impede de criar seus próprios valores e de exercer a sua vontade de poder.

Logo, de acordo com esse conceito, até mesmo um ateu que “matou deus” acabou criando uma realidade na qual exista um sentido superior e metafísico, em que o indivíduo se enxerga como parte de uma causa pela qual deva vive e morrer, incapacitando-o de ser o personagem principal de sua própria existência, uma vez que o faz buscar sentido lógico para a vida e para os infortúnios que o afligem em idealismos metafísicos, ou platônicos.

O terceiro tipo de niilismo proposto por Nietzsche, porém, supera esses comportamentos, os quais o filósofo considera dignos de indivíduos fracos e ressentidos. Definindo-se como o primeiro filósofo trágico, isto é, aquele que pratica o niilismo em seu alto nível: o niilismo ativo, no qual o indivíduo diz sim à vida mesmo sabendo dos golpes do destino que não há nada além dela.

Imagine o quão chocante deve ser para aqueles que buscam sentido para a vida e para as tragédias pessoais em remédios transcendentais saber que há quem opte por viver a vida intensamente, com tudo o que ela tem a oferecer, mas sem quaisquer muletas para lidar com o sofrimento, quando ele bate à porta. Por pensar assim, Nietzsche foi e é, até hoje, considerado louco.

O dizer sim à vida e até mesmo aos seus problemas mais estranhos e difíceis: a vontade de viver regozijando-se com sua vitalidade infinita no sacrifício de seus tipos mais elevados — isso é o que chamei de dionisíaco, é o que eu quis dizer como a ponte para a psicologia do filósofo trágico.

Ecce Homo — “Why Do I Write Such Excellent Books?”
Friedrich Nietzsche
Pág. 71

Logo, a oposição entre o niilismo o schopenhaueriano e o nietzschiano está aqui: o primeiro é caracterizado pela revolta contra a existência, de maneira passiva e conformada.

O segundo, por sua vez, vai no caminho oposto, uma vez que o indivíduo aceita a inexistência de sentido para a vida, mas age ativamente e encara as dificuldades apenas pelo amor ao conflito, colocando a sua vontade de poder e a sua capacidade de criar novos valores acima de tudo.

Ele pratica o duplo sim e nega o niilismo totalmente, pois afirma a si próprio e à sua vontade de poder, aceitando a vida como ela é e abomina qualquer valor platônico, ideal e fora da realidade.

O idealismo não me apetece: onde tu vês coisas ideais, eu vejo coisas humanas, infelizmente; coisas demasiado humanas. A palavra espírito livre, neste caso, não deve ser entendida como outra coisa senão um espírito que se tornou livre; que, de novo, tomou o controle de si próprio.

Ecce Homo — “Why Do I Write Such Excellent Books?”
Friedrich Nietzsche
Págs. 82 e 83

O conflito seria o exercício pleno da vivência humana, pois o indivíduo aceita os golpes do acaso e não se ressente por nada. O ressentimento é a arma para indivíduos fracos, que não conseguem se afirmar diante de quaisquer amarras morais ou metafísicas que possam fazê-los abdicar da existência e da vontade de criar novos sentidos para as coisas.

Ser feliz, portanto, é estar apto e consciente para lutar contra tudo o que possa ser uma ameaça a essa liberdade e à capacidade que ele tem de afirmar a sua vontade de poder.

VICIADO EM CAOS, NA BEIRA DO CAIS

Ultimamente, venho buscando esse tal niilismo ativo que norteia toda a obra do filósofo alemão. Mas esse é um tema para ser melhor desenvolvido em textos futuros, quando eu estiver mais familiarizado com essa complexidade de conceitos.

Todavia, diante de minhas tragédias pessoais, aprendi a aceitá-las e deixei de procurar justificativas transcendentais para não enfrentá-las adequadamente; ou ainda de me prender a comportamentos que me faziam me colocar em uma posição de injustiçado, de alguém que precisava ter sua redenção ou coisa do tipo: simplesmente, não penso mais assim.

A mudança de pensamento se deu apenas pela consciência de que, segundo Nietzsche, o indivíduo é feito de vontades; e, quando amarras morais não conseguem mais aprisioná-las, ele irá encontrar caminhos para satisfazê-las, não pensando em quaisquer consequências.

Entenda você, caro leitor, que eu não estou dizendo que tenhamos de, inescrupulosamente, dar vazão a todas as nossas vontades porque essa é a natureza humana. A ideia, aqui, é apenas ter a consciência de que não importa o que façamos, os resultados dessas ações terão consequências terrenas, não sobrenaturais; logo, não esqueçamos há uma ou várias reações para cada uma de nossas ações.

E tais consequências, todavia, não estão sob nossa responsabilidade. Também não convém mais atribuí-las a uma entidade superior, ao Universo, a Deus ou ao Diabo. A Filosofia fez para mim o que ela se propõe a fazer para todos que a buscam: me pensar, refletir e agir de acordo com essas reflexões; e, assim, ela também me ajudou a sair do poço sem fundo no qual eu me encontrava.

E nem precisou me prometer uma vida eterna para isso. No Estoicismo, aprendi a não me afetar tanto por situações alheias a mim e as quais não posso controlar ou mudar.

Por outro lado, estudando Nietzsche, venho aprendendo a compreender a natureza humana além dos valores considerados ideais; e a não me deixar dominar pelo ressentimento desencadeado pelas ações nocivas daqueles que quase me fizeram tirar a vida, e quem me conhece sabe sobre o que estou falando bem; ou dos ditos amigos que me deram as costas porque eu não aceitei suas omissões e sequer me procuraram para saber como eu estava.

Em meus momentos de decadência, proibi-me de tolerar o ressentimento porque ele era prejudicial. Assim que recuperei o controle da minha vida suficientemente, porém, mantive-o proibido, mas dessa vez porque estava abaixo de mim.

Ecce Homo — “Why Am I So Wise?”
Friedrich Nietzsche
Págs. 21 e 22

Estando solteiro desde o final de 2019, é normal que eu ainda lide com os efeitos psicológicos causados pelo contexto no qual eu passei boa parte da minha vida; e longe daqueles que, um dia, chamei de amigos. A vida é assim, meus caros e minhas caras; a maneira como enfrentamos essas desventuras é mais importante que a gravidade destas; e as nossas atitudes, estas sim, permitem que nos definamos enquanto seres humanos.

Mas lido com tudo isso com a serenidade que, mais de dois anos atrás, seria impossível imaginar que eu teria um dia. Serenidade essa a qual me permitiu passar a maior parte dessa pandemia isolado sem esmorecer.

O fatalismo manifestou-se em mim de tal maneira que, durante anos, me apeguei ferozmente a condições, lugares, habitações e companheiros quase insuportáveis, uma vez que o acaso colocou-os em meu caminho: era melhor que mudá-los, que enganar-se de que eles poderiam ser mudados e que revoltar-se contra eles.

A tarefa não é vencer os oponentes em geral, mas apenas aqueles oponentes contra os quais se deve reunir toda a sua força, habilidade e precisão. Não podemos guerrear contra aquilo que desprezamos.

Ecce Homo — “Why Am I So Wise?”
Friedrich Nietzsche
Págs. 22 e 23

SOBRE VIAJAR COMO CURA PARA O DESCONTENTAMENTO

Sêneca, em seus escritos, dizia que um indivíduo só será um escravo se a mente dele estiver escravizada. Para o filósofo, alguém que possui a mente livre estará sempre livre, independentemente de onde estiver o seu corpo: seja gozando da plena liberdade física, seja isolado em um cubículo.

Passado um tempo considerável, notei que os meus pensamentos iniciais, de logo quando fui diagnosticado com depressão e tudo ainda estava meio turvo na minha cabeça, envolviam sair de casa, sair do país: essa era a minha muleta para negar e não enfrentar a realidade.

A vontade era tão grande que o meu pai cogitou me dar uma forcinha para que isso acontecesse, chegando a ir em agências de intercâmbio, pesquisar países, o valor do dólar etc.

Você está surpreso que, após uma viagem tão longa e após tantas mudanças de paisagens, não tenha conseguido se livrar da escuridão e do peso da sua mente? Você precisa de uma mudança de alma, não de ares.

Ainda que você atravesse terras, cidades e mares, os seus problemas o seguirão a qualquer lugar que você viaje, pois serão como âncoras presas aos seus pés.

Epistulae morales ad Lucilium
Sêneca
Carta XXVIII
Capítulo I

Com o tempo, fui observando que, caso fizesse aquilo, estaria apenas fugindo dos problemas, não os enfrentando adequadamente; com o esforço e a força de vontade que eles exigem. Até o dia que eu perderia o fôlego de tanto fugir eeles me alcançariam novamente.

Aqui, dou um certo crédito aos antidepressivos; não para endeusá-los, mas para reconhecer que cumpriram o seu papel adequadamente, o de desacelerar pensamentos e permitir que a gente viva uma vida normal, menos precipitada. Hoje, constato que teria sido apenas jogar fora tempo e dinheiro, uma vez que eu não iria conseguir usufruir as coisas boas que esses lugares, na teoria, me trariam.

Imagine o que é ir para o Canadá, para os Estados Unidos ou para Dublin e não estar bem o suficiente para aproveitar esses lugares têm de melhor?

O plano ainda existe, só está aguardando o momento minimamente ideal para ser posto em prática. Digo minimamente porque, no fundo, nunca haverá o momento perfeito para se fazer nada; é o medo do incerto que sempre trabalha para nos fazer recuar.

Tal fuga não ajuda porque você deve abandonar os fardos que pesam sobre a sua mente; e, até que você faça isso, nenhum lugar irá satisfazê-lo. Você perambula para cá e para acolá, a fim de livrar-se do fardo que pesa sobre você, embora este se torne mais problemático por causa da inquietação que reside dentro de você próprio.

Epistulae morales ad Lucilium
Sêneca
Carta XXVIII
Capítulo II e IV

SOBRE A TRANQUILIDADE DA ALMA

Se me perguntarem o que será daqui para frente, continuarei com a mesma resposta de textos anteriores: não faço a mínima ideia; e isso não parece me assustar.

Só posso fazer conjecturas das coisas que estão por vir, me baseando no caminho que venho trilhando até então. Ainda assim, nada me garante que as coisas sairão da maneira que tais conjecturas sugerem; então eu prefiro não ficar muito preso ao futuro.

Nunca se esqueça: quanto mais alto voamos, menores parecemos para aqueles que não podem voar.

The Dawn of Day
Friedrich Nietzsche
Aforismo 574

Em contrapartida, posso fazer uma análise positiva e, de certa forma, orgulhosa de todo o processo árduo de mudança de postura diante de tudo; mas um orgulho positivo, não arrogante e dotado daquela superioridade tola. Quando Nietzsche fala sobre voos mais altos, não se trata de bens materiais, de ter um emprego bom ou de se hospedar em bons hotéis: tudo isso está fora do indivíduo e vai e vem; além de sofrer influência do acaso.

Tais voos relacionam-se à libertação do indivíduo de valores morais cujos objetivos consistem em impedi-lo de pensar e de agir corretamente, de acordo com a sua natureza e sem qualquer medo de castigos divinos ou golpes do destino. Alçar novos voos é se permitir evoluir em meio ao caos e às incertezas, agindo da maneira que considera correta.

Geralmente, aqueles que olham para o alto e nos observam minúsculos, fazem isso porque se mantêm presos a ideais que os impedem de enxergar além e de maneira mais clara; então acham sempre que estão certos, não compreendendo bem os que não se dobram a determinadas imposições ou se comportam de uma maneira determinada.

Uma vez libertos dessas amarras, também nos libertamos da ideia de que somos importantes a ponto de não podermos rir de nós mesmos e de nossa insignificância, das nossas tragédias. Por fim, também nos libertamos totalmente da visão errônea que têm da gente: cada um fala o que quer e eu aceito se quiser aceitar.

Você nunca achará quem possa zombar de você no que você tem de melhor, fazendo com que você perceba a sua ilimitada miséria de rã, de mosca. Rir de si próprio em sua completude: para isso, nem os melhores tiveram coragem; e até os mais talentosos tiveram pouco gênio!

The Joyful Wisdom — Book I
Friedrich Nietzsche
Pág. 74

Ao rirmos de nós mesmos, a vida se torna mais leve de ser vivida, ainda que estejamos cercados de problemas. Para o filósofo alemão, quando alguém diz que está bem apenas porque é privilegiado por várias circunstâncias favoráveis, no fundo, ele não pode chamar isso de felicidade, mas de um estado ideal de preguiça, no qual o indivíduo vive uma vida sem quaisquer dificuldades.

Os que buscam sentidos metafísicos para a vida não permitem que riamos da existência, de nós mesmos, tampouco deles. Para eles, o indivíduo é sempre o indivíduo, algo primordial à existência, o princípio e o fim. Também não há outras espécies; por mais tolas e entusiasmadas que sejam suas invenções e avaliações, por mais que ele julgue erradamente o curso da natureza e negue suas condições.

The Joyful Wisdom — Book I
Friedrich Nietzsche
Pág. 75

Logo, como já falei em algum tópico mais para cima: a capacidade de aceitar e atravessar turbulências, muitas vezes por meio do bom humor, é um requisito básico para a felicidade e deve ser o objetivo de um pessimista trágico; ainda que a vida não faça sentido.

A morte de um tio e as rasteiras de algumas pessoas me fizeram reforçar mais ainda esse tal pessimismo trágico em mim. Embora a tristeza tenha se apossado de minha alma por uns dias, depois de um tempo, foquei nas lições e aprendizados que esses episódios sempre deixam.

O problema do jovem, hoje em dia, é achar que a felicidade se encontra em quaisquer artifícios que estejam fora dele mesmo; e isso envolve álcool, cigarro, sexo, drogas ilícitas e qualquer outra coisa que o ajude a fugir da realidade inescrupulosamente, apenas por fugir.

Um dia a conta chega e, dificilmente, quem nos incentivou a viver uma vida desregrada vai estar ao nosso lado quando tudo desmoronar. Quando o baque ocorre, é cada um por si e salve-se quem puder. E eu, que já caí e me levantei várias vezes, sei o que é sentir na pele o abandono.

Foto: Ilustração

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Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, por Astronomia, por Filosofia, pela boa política, por serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
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