Padre Tiago Theisen, o sacerdote que plantou flores de esperança no coração do futuro, por Edivan Martins

Padre Tiago Theisen, o sacerdote que plantou flores de esperança no coração do futuro, por Edivan Martins

O jornalista e ex-vereador de Natal, Edivan Martins, fala sobre o padre Tiago Theisen, que faleceu no último dia 9 de outubro após 66 anos de sacerdócio.

“Um dia em minha vida, coloquei meu sonho em um navio. Deixei minha amada cidade, segui a luz do farol do Senhor e cruzei o oceano com saudade. O maior tesouro que carreguei foi a mais doce lembrança da família e das verdadeiras amizades”. No porto de Antuérpia, em Flandres, o maior da Bélgica, um navio cargueiro apita chamando os últimos passageiros. Com uma bagagem de 40 malas cheias de livros, remédios, lembranças e saudades, o jovem padre Jacques Theisen, vai deixando sua terra natal Namur, vendo se misturar no encontro das águas dos rios Sambre e Mense a lágrima saudosa da família.

Era 8 de março de 1968. A Europa se derretia em protestos. O concílio vaticano II, sob a batuta do Papa João XXIII, trilhava numa nova teologia. No Brasil, a censura batia até às portas dos seminários, muitos fechados pelo regime militar. Por isso o Arcebispo de Natal, Dom Nivaldo Monte, foi a Roma solicitar padres que pudessem se incorporar aos 35 sacerdotes da época. Ao primeiro convite do bispo, o jovem padre colocou o dedo no mapa e disse: “vou pra Natal”.

O navio holandês cortou os mares durante 14 dias até o porto de Recife. A poeira encobria a estrada de barro. Da janela do ônibus, ele observava a paisagem árida, a terra seca e a vida dura do sertanejo. Ao pisar o solo de uma Natal de 200 mil habitantes, ganhou o nome de Padre Tiago.

Embalado pela brisa suave que descia pela ponta do morcego, celebrou a primeira missa na Praia do Meio. Vendo as dunas correrem para abraçar o Forte dos Reis Magos, construído sob arrecifes, logo comparou com a cidadela de sua Namur, uma das mais poderosas fortalezas da Europa, erguida sobre rochas.

As igrejas de estilo barroco ornadas por arenitos esculpidos e colunas de mármores coloridos, ele trocou por capelas modestas. A simplicidade vivida nos tempos de seminaristas, quando se deslocava 11 quilômetros de bicicleta, para um aposento com uma cama, guarda-roupa e uma jarra d’água para asseio, ele continuou em Natal ao escolher um velho casarão no bairro do Bom Pastor, um dos grotões mais humildes da zona oeste da capital.

Assume a mais populosa paróquia da diocese de Natal. Área dos maiores índices de violência, desemprego, problemas sociais e maior concentração de favelas.

Do tradicional de histórico bairro das Quintas seu raio de atuação rumava em direção do Bom Pastor, Km 6, Felipe Camarão até o Guarapes. A outra rota seguia os caminhos do Rio Potengi com boa visão do alto nordeste. Cruzava a velha ponte de ferro de Igapó, aldeia velha da cidade, até o vilarejo de Regomoleiro, já nos prados de São Gonçalo do Amarante.

Foi visionário e enxergava a zona norte como uma área promissora. Quando a bandeira da ponte velha sinalizou sua primeira passagem, deparou-se com uma região de 7 mil habitantes, espalhados principalmente por Igapó e a Praia da Redinha. O fim de sua paróquia era Pitangui, uma simples vila de pescadores em Extemoz, catequisada por Jesuítas nos idos do século XVII.

A década de 70 representou um marco no processo de urbanização da zona norte e 44 conjuntos habitacionais foram construídos, muitos deles batizados pelo padre Tiago que ergueu a primeira igreja no Soledade I, em 1977, dedicada a São João Evangelista e só parou em 1998 com a edificação da igreja de São Pedro e São Paulo no Conjunto Alvorada.

Foi uma travessia mosaica passar do sotaque francês para o nordestino e amoldar os intestinos, já fragilizados por cirurgias, às feijoadas e carnes de sol, porém, sua fome maior era nutrir o povo com alimentos pro corpo e pra alma.

Na primeira missa celebrada nas Quintas já foi identificando as aptidões das pessoas e distribuindo tarefas na formação da equipe: Severina ficou com a secretaria, Dona Filó com as tapiocas e confeitos, numa pequena quitanda ao lado das escadas; no catecismo: Seu João Mariano e João Alfredo; a zeladora, Dona Terceira; no canto, Socorro; na organização dos bancos e pra controlar o silêncio das crianças, meu avô Vicente Terto, que me levou àquela celebração.

Estávamos na porta lateral da igreja quando vimos o padre de olhos azulados, descer de uma rural, apagar o cigarro acoplado numa piteira, olhar pro relógio e começar a missa pontualmente na hora marcada. O português que treinou no navio não foi suficiente para que os fiéis entendessem a homilia. Compreensível mesmo somente o rito da elevação da hóstia.

Fui crescendo em meio aquela dinâmica efervescente da paróquia. Doentes fazendo filas à procura dos remédios do padre que curavam feito os milagres de Cristo. Beladonas, arsênicos e perfuliatuns aliados a fitoterápicos eram manipulados no casarão por acadêmicos de medicina, entre eles: Dr. Boucinhas, Assis, Dras Regina Koote, Celeste, Helena, Vera, Ana, Lúcia, Goretri, Ilani e Nelly. Assim, vi nascer, de forma pioneira, a homeopatia no Rio Grande do Norte, com jovens acadêmicos de medicina e farmácia, consultando nos ambulatórios e manuseando “beladonas, arsênicos e perfuliatuns”, sob a égide do inscrito na Organização Mundial de Medicina, sob o número 4.05.0176.

Adolescente, ingressei no grupo de jovens TUDIFA (Turma que diz e faz) e passei a conhecer o pensamento, as ideias e a grande figura humana de um sacerdote que inseria no trabalho pastoral, leituras especializadas em psicologia, pedagogia, sociologia, medicina, parábolas e o evangelho. Com ele despertamos para as questões sociais, para a desigualdade, injustiças.

Em suas manias de documentações e estatísticas estão arquivados os nomes de Edivan Martins, Delmir Ferreira, júnior, Roberto, Olavo Ataíde, Adelma, Kátia, Rosa Maria, Eris, Aldo, Carlos Segundo, João Maria Alves, os irmãos Jonas e Gerson de Castro, Carlinhos Peixoto… Integrávamos o trabalho com a juventude, realizando missões evangelizadoras, peças teatrais, missas e projetos.

Recordo quando fomos a Fortaleza em duas kombis para comprar ternos de futebol, instrumentos para bandas musicais, flautas, e ele fez questão de coroar a viagem com a celebração de uma missa numa capelinha a beira mar e altar em forma de barco, de uma comunidade carente do conterrâneo belga, padre Caetano.

Fui monitor do Projeto Elo na antiga Favela do Japão, que ele sobrevoou, pilotando um helicóptero, para apresentar às autoridades o formato de habitação popular que mudaria o nome da localidade para Novo Horizonte. Lá também participei do programa nutricional do INAN, que distribuía 30 mil quilos de alimentos por mês à 5.000 famílias carentes.

Teve dois batismos: um na catedral Saint Aubain e o outro a bordo de um avião Fokker, que ele pilotou sozinho como prova final para ter o diploma de piloto civil. Sua roupa preferida sempre foi a do trabalho. Desprovido de vaidades, nunca mudou seu modo de vestir: calça de tergal, camisa de manga curta e chinelão com meias.

Horas ele queria voar para chegar rápido às soluções. Mas o senso pedagógico sugeria uma aterrisagem no conhecimento da geografia humana por um céu de ideias e ações, cujo destino era formar, mudar tendo como guia os ensinamentos cristãos. Ideias também foram ouvidas pelos órgãos de informação da época, e que culminaram com um chamado do padre Tiago à Polícia Federal, juntamente com a cantora da missa, Socorro, Moisés Domingos e outros.

Padre Tiago não abria mão da formação dos grupos de trabalho. Planejava reuniões, era um exímio criador de siglas, resumia ideia para uma melhor compreensão e assim para cada segmento aplicava uma didática simples. Toda quarta-feira, às 22 horas, a coordenação jovem tinha reunião de aprofundamento no casarão e ao término, sob sua direção, a kombi saia entrecortando a noite nos devolvendo aos nossos lares. A ele sou grato. Por aceitar ser meu padrinho de crisma e ter aprendido no altar de sua sabedoria credenciais de solidariedade, amizade fraterna, a arte de servir e ensinamentos cristãos, essenciais à família e ao exercício da atividade pública.

A maior lição foi sua própria lição de vida. Lição de ser padre na simplicidade e humildade que exige o evangelho. Da capacidade de unir ciência, fé e obra como prega Tiago, o apóstolo. Sua obra tem a história e a raiz do pau brasil, plantado ao lado de sua janela. Árvore protegida por lei, semelhante aos direitos das crianças e adolescentes, encartadas na constituinte, que teve o padre Tiago como relator de um grupo.

Se priorizava a nutrição do povo é porque o farelo foi o sustento principal de sua família durante a segunda guerra; pregava a paz pra não voltar a presenciar a decapitação de um padre amigo e o fuzilamento de pessoas em sua cidade; criou jardins com nome de flores, pela consciência de que o conhecimento transforma e forma cidadãos e cidadãs.

Agora o senhor já pode contemplar o abraço dos rios de sua terra com o nosso Potengi que banha suas queridas paróquias. Se já não estão mais aqui os que derramavam lágrimas ao vê-lo partir naquele março de 68, receba, pois, as lágrimas dos que lhe fizeram filho desta terra dos Reis Magos.

Sua entrada nos portões celestiais terá a luz divina do lampião que rasgava a escuridão de suas noites no Bom Pastor. Voltarás a saborear a água da cacimba que matou sua sede durante os primeiros anos no seu humilde casarão. As flautas tocarão hinos infantis e o aroma da vida eterna exalará no colorido corredor de lírios, tulipas, girassóis e orquídeas, dos jardins que tanto o senhor plantou, regou e amou.

Edivan Martins – jornalista e ex-vereador de Natal

Foto: Reprodução

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