Trajetória do Papa Francisco: da juventude em Buenos Aires ao comando da Igreja Católica

Trajetória do Papa Francisco: da juventude em Buenos Aires ao comando da Igreja Católica

Jorge Mario Bergoglio se tornou o primeiro papa sul-americano da história após décadas de atuação religiosa na Argentina e envolvimento com causas sociais e diplomáticas

Jorge Mario Bergoglio nasceu em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, na Argentina. Filho de uma família de origem italiana, foi o mais velho entre cinco irmãos e cresceu no bairro de Flores. Seus avôs falavam piemontês, dialeto do norte da Itália, e esse foi o primeiro idioma com o qual teve contato.

Durante a infância, frequentava a Basílica de San José de Flores com sua avó Rosa. Aos domingos, era comum ir ao estádio com a família torcer pelo San Lorenzo de Almagro, clube no qual seu pai jogou basquete. Aos 12 anos, enquanto estudava em um internato salesiano, sentiu pela primeira vez o chamado à vida religiosa, embora esse desejo tenha permanecido latente até a juventude.

Antes de ingressar no seminário, Bergoglio formou-se como técnico em química e chegou a estagiar em um laboratório. Segundo relato autobiográfico publicado no livro “Vida – Minha História Através da História”, lançado em 2024, uma confissão feita em 1953 mudou o rumo de sua vida. Ao entrar na Basílica de Flores, sentiu-se tocado por uma experiência espiritual profunda que definiu sua vocação.

A decisão de seguir o sacerdócio foi inicialmente mantida em segredo. Bergoglio temia a reação da mãe e chegou a dizer que pretendia estudar Medicina. Mais tarde, ao ser confrontado por ela, que descobriu livros de teologia entre seus pertences, enfrentou resistência. Mesmo assim, ingressou no seminário arquidiocesano de Buenos Aires aos 19 anos.

Durante sua juventude, Bergoglio relata ter tido uma namorada e, já no seminário, vivido uma paixão passageira. Os episódios, narrados em sua autobiografia, são apresentados como parte da construção de sua vocação, reafirmada com o tempo.

Atuação durante a ditadura argentina

A atuação de Bergoglio durante o regime militar argentino (1976–1983) gerou controvérsias. Enquanto era provincial dos jesuítas na Argentina, foi acusado de omissão no caso dos padres Orlando Yorio e Francisco Jalics, que foram presos e torturados pelo regime.

Em sua autobiografia, Bergoglio afirma que as acusações são falsas. Diz ter intercedido junto a figuras do governo militar, como Jorge Rafael Videla e Emilio Massera, pela libertação dos religiosos. Segundo ele, também ajudou outros perseguidos políticos, incluindo um catequista que escapou disfarçado de padre utilizando seus documentos.

Ascensão na hierarquia eclesiástica

Em 1992, o Papa João Paulo II nomeou Jorge Mario Bergoglio como bispo auxiliar de Buenos Aires. Nove anos depois, foi elevado ao cargo de cardeal. Nessa fase, intensificou sua atuação com populações pobres e se destacou pela vida simples: usava transporte público e recusava luxos.

Durante a nomeação como cardeal, convenceu seus compatriotas a não viajarem ao Vaticano e pediu que o dinheiro fosse doado aos necessitados. Presidiu a Conferência Episcopal Argentina entre 2005 e 2011, período em que adotou uma postura firme contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Chamou a proposta de “projeto do diabo” em uma carta enviada a freiras carmelitas.

Eleição como papa

Após a renúncia de Bento XVI, em fevereiro de 2013, o conclave escolheu Jorge Mario Bergoglio como novo pontífice em 13 de março daquele ano. Tornou-se o primeiro papa sul-americano da história e o primeiro não europeu em mais de 1.200 anos.

O nome “Francisco” foi escolhido em homenagem a São Francisco de Assis, após um conselho do cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes: “Nunca se esqueça dos pobres”, teria dito ao recém-eleito papa.

Postura pública e ações como pontífice

Ao longo de seu papado, Francisco adotou hábitos discretos e uma comunicação direta com os fiéis. Evitava aparições midiáticas, recusava banquetes e manteve estilo de vida modesto. Em 2015, surpreendeu ao lançar um disco de rock progressivo com o grupo italiano Le Orme, intitulado Wake Up!.

Também participou de eventos inter-religiosos, como o encontro com Ahmed Al-Tayeb, Grande Imã de Al-Azhar, nos Emirados Árabes Unidos, em 2019. Juntos, assinaram o Documento sobre a Fraternidade Humana, com apelos à paz e ao diálogo.

No campo moral, manteve posição contrária à legalização do aborto e da eutanásia, defendendo a proteção à vida. Trabalhou para recuperar a credibilidade da Igreja, abalada por escândalos de abuso sexual. Em 2014, pediu perdão às vítimas de pedofilia cometida por clérigos católicos.

Nos últimos anos, passou a usar cadeira de rodas em razão de problemas no joelho, o que reduziu sua agenda internacional. Mesmo assim, seguiu ativo em questões geopolíticas.

Diplomacia e conflitos internacionais

O Papa Francisco também se destacou na diplomacia global. Teve papel central na reaproximação entre Estados Unidos e Cuba e fez constantes apelos em defesa dos migrantes e refugiados.

Foi um crítico persistente da guerra na Ucrânia, chegando a se emocionar publicamente ao falar sobre as vítimas civis. Mesmo hospitalizado, manteve contato com representantes católicos na Faixa de Gaza para acompanhar a situação da população afetada pelos bombardeios.

Sua liderança combinou atuação pastoral com influência diplomática, além de manter proximidade com os mais pobres, característica que marcou sua trajetória desde Buenos Aires até o Vaticano.

Foto: Annett Klingner/Pixabay / manfred Kindlinger/Pixabay / Mikdev/Pixabay / Tânia Rêgo/Agência Brasil

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