Hospitais públicos do RN enfrentam crise de desabastecimento e risco à segurança dos pacientes

Hospitais públicos do RN enfrentam crise de desabastecimento e risco à segurança dos pacientes

Relatórios do Cremern apontam falta de insumos, medicamentos e exames nos hospitais Walfredo Gurgel e Tarcísio Maia, com impacto direto nos atendimentos de urgência

Relatórios elaborados pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern) apontam falhas graves nos hospitais da rede estadual de saúde, com desabastecimento de medicamentos e insumos essenciais, comprometimento de exames laboratoriais e riscos diretos à segurança de pacientes. A situação foi identificada durante vistorias realizadas no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal, e no Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró.

Diante do cenário, o Cremern protocolou uma Reclamação Pré-Processual na Justiça Federal em 3 de junho de 2025, solicitando providências por parte do Governo do Estado. Segundo o conselho, passados 10 dias, não houve melhora na situação das unidades vistoriadas.

No Walfredo Gurgel, relatório de vistoria realizada no dia 26 de maio aponta falta de antibióticos de amplo espectro (como Meropenem e Polimixina), trombolíticos (como Alteplase), anestésicos, analgésicos, anti-inflamatórios e insumos básicos como seringas, agulhas e álcool 70%. No setor de oftalmologia, não havia colírios nem pomadas anestésicas. Já na ala de queimados, faltavam lâminas específicas para o funcionamento do dermátomo elétrico, essencial para cirurgias em pacientes graves.

Segundo o Cremern, a falta desses materiais prolonga internações, eleva o risco de infecções hospitalares e pode resultar em mortes evitáveis. A gestão hospitalar atribui parte do problema à instabilidade de recursos da Fonte 500 (estadual), responsáveis pelo financiamento de muitos dos insumos em falta. Um processo licitatório estaria em andamento, mas sem previsão de conclusão.

O relatório aponta ainda que a escassez atinge diretamente o setor de urgência e emergência. A equipe médica da ala de queimados relatou que tem arcado pessoalmente com a compra de materiais básicos para a realização de curativos. O mês de junho, historicamente marcado pelo aumento de casos de queimaduras graves, agrava a preocupação.

Em Mossoró, no Hospital Regional Tarcísio Maia, vistoria feita em 5 de fevereiro identificou 29 leitos de UTI, dos quais um estava bloqueado por falta de insumos. A Central de Abastecimento da unidade apresentava desabastecimento relevante, com pedidos de reposição feitos à Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat) em janeiro parcialmente atendidos. A direção do hospital relatou à equipe de fiscalização a paralisação de uma reforma estrutural e a adoção de compra emergencial com dispensa de licitação como alternativa provisória.

O Cremern afirma que o problema de abastecimento se estende a outras unidades da rede estadual. O Hospital Santa Catarina, por exemplo, estaria com a UTI em funcionamento precário, segundo relatos colhidos pelo conselho.

Relatório aponta dívida de R$ 4,1 milhões com fornecedores

Um memorando da Divisão da Farmácia do Walfredo Gurgel, assinado por Thiago Alessandro Bezerra de Sá e enviado à Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN) em 26 de maio, reconhece o quadro crítico de desabastecimento. O documento aponta inadimplência acumulada com fornecedores como principal causa da falta de itens médico-hospitalares essenciais.

O relatório cita uma dívida superior a R$ 4,1 milhões com empresas fornecedoras, entre elas:

  • UNI Hospitalar: R$ 1.329.595,10
  • Conquista Distribuidora: R$ 617.278,80
  • ROSS Medical: R$ 280.464,00

O documento destaca que muitos fornecedores suspenderam as entregas por falta de pagamento, mesmo com tentativas parciais de regularização. A situação compromete diretamente a reposição de medicamentos vitais, como antibióticos, anestésicos e trombolíticos, além de materiais como ataduras, seringas e campos operatórios.

A chefia da farmácia alerta que o impasse pode levar à paralisação de setores essenciais e comprometer atendimentos de urgência e emergência, além de cirurgias e procedimentos clínicos.

Suspensão de exames laboratoriais compromete conduta médica

Além da escassez de insumos, a inadimplência também compromete a realização de exames laboratoriais essenciais para diagnóstico e tratamento. Estão suspensas análises de bioquímica clínica, imunologia, sorologia e microbiologia, consideradas indispensáveis para o manejo de infecções hospitalares e avaliação do estado clínico de pacientes internados.

O Cremern afirma que a suspensão dos exames prejudica diretamente a conduta médica, inviabilizando decisões terapêuticas seguras e aumentando os riscos de agravamento dos quadros clínicos.

Servidores e familiares protestam por falta de insumos

Na manhã do dia 13 de junho, servidores do Walfredo Gurgel, acompanhados por familiares de pacientes, realizaram protesto em frente ao hospital denunciando a falta de insumos como lençóis, sabão, álcool e medicamentos. Segundo relatos, a escassez obriga a equipe a priorizar pacientes mais graves para receberem itens básicos como banho ou lençóis limpos.

Representantes sindicais apontaram que a situação se estende por pelo menos quatro meses e afirmaram que, em períodos de vistoria, a unidade costuma receber reforço temporário de insumos para “disfarçar” a real situação. Também foram relatadas mortes de pacientes cujas infecções poderiam ter sido evitadas com a estrutura adequada.

Justificativa da Sesap/RN

A Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap/RN) ainda se manifestou após a nova denúncia do Cremern. Em nota divulgada no início do mês, a pasta afirmou que as dificuldades de abastecimento decorrem da redução da alíquota do ICMS, que teria retirado R$ 132 milhões do financiamento da saúde em 2024. A secretaria também afirmou estar aplicando esforços para a regularização dos estoques em toda a rede estadual, composta por 21 hospitais e outras unidades de referência.

Foto: Arquivo/POR DENTRO DO RN/Ilustração / Tony Winston/Agência Brasília / Carmem Félix/Governo do RN/Ilustração

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