Fiscalização realizada na terça-feira (24) apurou que a empresa responsável pela segurança do evento não possuía autorização da Polícia Federal para atuar. Vítima de 29 anos ainda sente dores das agressões sofridas no dia 15 de fevereiro
A Polícia Federal realizou fiscalização na cidade de Apodi, na região Oeste do Rio Grande do Norte, para apurar a atuação da empresa de segurança privada contratada pela prefeitura municipal para atuar nos eventos do Carnaval 2026. A diligência, ocorrida na terça-feira (24), foi motivada por denúncias e por imagens amplamente veiculadas na imprensa e nas redes sociais que registraram a agressão a um jovem com deficiência auditiva por indivíduos contratados para atuar na segurança do evento.
Durante a inspeção, os agentes federais constataram que a empresa operava de forma clandestina, sem a devida autorização da Polícia Federal para exercer atividades de segurança privada, o que configura irregularidade administrativa e criminal.

Foi lavrado auto de encerramento das atividades irregulares, e a Prefeitura de Apodi foi formalmente notificada acerca da contratação da empresa clandestina, com o objetivo de prevenir novas ocorrências dessa natureza. A empresa poderá responder pelas irregularidades relacionadas à prestação clandestina de serviço de segurança privada.
Jovem surdo foi agredido por seguranças no dia 15 de fevereiro
O episódio de violência ocorreu no domingo (15), durante as festividades de Carnaval em Apodi, mas as imagens passaram a circular nas redes sociais apenas na noite da quarta-feira (18), após publicação do influenciador potiguar Ivan Baron, que atua em pautas anticapacitistas.

No vídeo, é possível visualizar que a vítima é cercada por três agentes de segurança privada. De acordo com as informações divulgadas por Ivan Baron, o jovem é surdo e estaria tentando utilizar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) para explicar que não compreendia as ordens verbais dos seguranças. Apesar da tentativa de comunicação, ele acaba sendo empurrado, derrubado e golpeado com cassetetes pelos profissionais contratados.
“Um jovem surdo que não entendeu um sinal verbal foi covardemente espancado por uma equipe de segurança. Até quando pessoas com a responsabilidade de proteger e cuidar do bem estar serão usadas para violentar? Capacitismo é crime!”, escreveu o influenciador ao divulgar o vídeo.
Vítima de 29 anos ainda sente dores e passa por exames
A vítima das agressões foi identificada como Isaac Torres, 29 anos. Quatro dias após o espancamento, ele ainda convive com dores decorrentes dos golpes sofridos. Uma familiar do rapaz, que preferiu não se identificar, relatou à imprensa que ele vai passar por exame de raio-x para saber se houve alguma fratura.
A família informou que Isaac apresentou hematomas na cabeça, marcas de cassetetes nos ombros e na costela, além de corte no cotovelo esquerdo e dores na região das nádegas. Após as agressões, o rapaz foi socorrido por conhecidos da família, que o levaram ao hospital.
“Ficamos em choque. O pai e a mãe dele são idosos e moram com ele. Ele está bem, mas sente dores ainda das pancadas”, afirmou a familiar.
Um Boletim de Ocorrência sobre o caso foi registrado na segunda-feira (16), um dia após as agressões. O exame de corpo de delito foi realizado no dia seguinte (17).
Polícia Civil trata caso com prioridade
A delegada-geral da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, Ana Claudia Saraiva, afirmou que o caso está sendo tratado com prioridade e que já foram iniciados os encaminhamentos para a investigação. A declaração foi feita durante coletiva de imprensa realizada na quinta-feira (19), na sede da Governaria, durante apresentação dos dados da Operação Carnaval 2026.

De acordo com a delegada, a ação foi um crime “covarde” praticado contra uma pessoa em situação de vulnerabilidade. Ela determinou ao delegado do município de Apodi todas as providências necessárias para apurar o ocorrido.
“Determinei ao delegado do município todas as providências, inclusive de procurar a família [da vítima], para que todos os exames periciais [sejam realizados], a fim de dar prioridade ao caso. Afinal de contas é um crime covarde contra uma pessoa em situação de vulnerabilidade. Daremos toda a atenção e prioridade necessária”, destacou Ana Claudia Saraiva.
Posicionamento da Prefeitura de Apodi
A Prefeitura Municipal de Apodi divulgou nota na manhã da quinta-feira (19) afirmando que tomou conhecimento do episódio e determinou imediata apuração dos fatos junto à empresa responsável pela segurança do evento. O município afirmou que medidas cabíveis serão adotadas.
A família do jovem agredido informou que tem recebido o apoio necessário por parte da administração municipal.
Irregularidades na contratação e possíveis responsabilizações
Com a constatação da Polícia Federal de que a empresa de segurança atuava de forma clandestina, sem a devida autorização do órgão federal, novas implicações legais podem recair tanto sobre a empresa quanto sobre o município de Apodi, que realizou a contratação.
A prestação de serviços de segurança privada sem autorização constitui irregularidade grave, sujeitando a empresa a responsabilização administrativa e criminal. A notificação formal enviada à Prefeitura de Apodi tem como objetivo prevenir a repetição de contratações dessa natureza em eventos futuros.
As investigações seguem em andamento tanto pela Polícia Civil, para apurar as agressões sofridas por Isaac Torres, quanto pela Polícia Federal, no âmbito da fiscalização das atividades de segurança privada no município.
Foto: Divulgação/PF / Reprodução
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