Editorial POR DENTRO DO RN

A decisão do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, de antecipar sua renúncia para disputar o Governo do Rio Grande do Norte abre, inevitavelmente, um novo capítulo na política potiguar. Com um discurso carregado de esperança – “eu acredito muito que está chegando uma grande mudança no estado do Rio Grande do Norte” – o gestor tenta se posicionar como símbolo de renovação. Mas a pergunta que se impõe é direta e incômoda: que tipo de mudança, de fato, está sendo proposta?
A saída antecipada da Prefeitura de Mossoró, marcada para 27 de março, cumpre um rito político conhecido – o da desincompatibilização para disputar cargos maiores. Até aqui, nada fora do script. O problema não está na estratégia eleitoral, mas na coerência entre discurso e prática. E é justamente nesse ponto que a narrativa de “mudança” começa a enfrentar fissuras.
Nos últimos dias, um episódio grave colocou Mossoró no centro de um debate sensível: a prisão do jornalista Ronny Holanda enquanto realizava uma reportagem em uma unidade de saúde pública. O caso, posteriormente considerado ilegal pela Justiça, não pode ser tratado como um fato isolado ou meramente administrativo. Ele carrega implicações profundas sobre liberdade de imprensa, transparência e o papel do poder público diante da crítica.
É impossível ignorar o contexto. O jornalista estava exercendo sua função ao mostrar a realidade de uma UPA lotada – algo que, em qualquer democracia sólida, deveria ser não apenas permitido, mas incentivado como instrumento de fiscalização social. A reação do aparato estatal, no entanto, foi a detenção. Ainda que versões oficiais tentem justificar a ação como cumprimento de protocolos, a decisão judicial que relaxou a prisão evidencia que houve, no mínimo, excesso.
Mais grave ainda é o simbolismo do episódio. A presença de um agente público com cargo comissionado na gestão municipal participando da prisão levanta questionamentos sobre possíveis conflitos entre interesse público e interesse político. Some-se a isso relatos de que o jornalista já havia sido alvo de outras abordagens e até “alertas” prévios, e o que se desenha é um cenário preocupante.
Diante disso, o discurso de Allyson Bezerra ganha um novo peso. Quando fala em “grande mudança”, o prefeito – agora pré-candidato — precisa responder: mudança para quem? E em qual direção? Porque mudança, por si só, não é virtude. A história política brasileira está repleta de exemplos em que o apelo à renovação serviu apenas como verniz para práticas antigas, ou até mais problemáticas.
Uma verdadeira mudança exige compromisso com princípios democráticos básicos. Entre eles, o respeito irrestrito à liberdade de imprensa. Governos que se incomodam com a crítica, que reagem com repressão ou tentativas de intimidação, não sinalizam avanço — sinalizam risco. A crítica, por mais dura que seja, é parte essencial do jogo democrático. Sem ela, o que resta é o silêncio imposto.
É claro que não se pode atribuir automaticamente ao prefeito toda e qualquer ação de agentes públicos. No entanto, líderes são, sim, responsáveis pelo ambiente político e institucional que constroem. E quando episódios como esse acontecem, cabe mais do que silêncio ou justificativas técnicas: cabe posicionamento firme em defesa das garantias constitucionais.
Ao deixar Mossoró, Allyson tenta ampliar seu alcance político para os 167 municípios do estado. Mas também leva consigo o legado de sua gestão — com seus acertos e, sobretudo neste momento, com suas controvérsias. Em uma campanha que promete girar em torno da ideia de mudança, será inevitável o confronto entre narrativa e realidade.
O eleitor potiguar, cada vez mais atento, saberá fazer essa leitura. Não basta prometer transformação; é preciso demonstrar, na prática, compromisso com valores que sustentam a democracia. E isso inclui aceitar o contraditório, conviver com a crítica e garantir que jornalistas possam exercer seu trabalho sem medo.
No fim das contas, a “grande mudança” evocada por Allyson Bezerra pode se tornar um poderoso slogan de campanha. Mas slogans não governam estados. O que governa – e define o futuro – são atitudes.
E é justamente nelas que reside a dúvida que paira sobre o Rio Grande do Norte hoje.
Foto: Arquivo
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