Editorial POR DENTRO DO RN

No jogo político, há regras claras. E há também comportamentos que, embora não ilegais à primeira vista, levantam questionamentos inevitáveis — especialmente quando envolvem algo tão sensível quanto pesquisas eleitorais. No centro dessa discussão, está o pré-candidato Allyson Bezerra, que parece manter com os levantamentos de intenção de voto uma relação, no mínimo, seletiva.
Afinal, qual é o critério?
Quando uma pesquisa o favorece, ela vira manchete, ganha destaque nas redes sociais e é celebrada como um indicativo da vontade popular. Quando surgem problemas, inconsistências ou — pior — quando o resultado pode não ser tão confortável, o silêncio passa a falar mais alto. Ou, em alguns casos, a própria pesquisa sequer chega ao conhecimento do público.
O episódio mais recente é emblemático. A pesquisa registrada sob o número RN-09960/2026, conduzida pelo Instituto Ranking, tornou-se alvo de questionamentos formais no Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte. E não por detalhes técnicos irrelevantes, mas por divergências que desafiam a lógica básica de qualquer levantamento sério.
Os dados divulgados simplesmente não correspondem ao questionário registrado na Justiça Eleitoral.
É como se estivéssemos falando de duas pesquisas distintas. Nomes que nunca foram apresentados aos entrevistados aparecem nos resultados. Um candidato que estava no questionário desaparece completamente na divulgação. Não se trata de interpretação. Trata-se de incompatibilidade factual.
Ainda assim, a pesquisa foi utilizada. Foi compartilhada. Foi comemorada.
E depois… apagada.
Sem explicação. Sem esclarecimento. Sem qualquer tentativa pública de justificar o ocorrido.
A pergunta que fica é simples: o pré-candidato desconhecia as inconsistências ou escolheu ignorá-las enquanto lhe eram favoráveis?
Essa não é a primeira vez que o tema “pesquisa” se torna sensível no entorno político de Allyson. Meses antes, uma outra situação já havia chamado atenção. Uma pesquisa do Instituto Affare, considerada confiável no estado, foi impedida de ser divulgada após ação judicial movida por aliados do próprio pré-candidato.
O argumento? Questionamentos sobre o registro profissional do estatístico responsável.
Curioso.
Especialmente porque, segundo relatos, os números não eram desfavoráveis a Allyson. Pelo contrário. Ainda assim, a divulgação foi barrada.
Então, novamente, a dúvida se impõe: por que impedir uma pesquisa em que o próprio candidato aparece bem posicionado? O que exatamente se teme — o resultado ou o processo?
Há algo de contraditório nessa sequência de episódios. De um lado, a tentativa de impedir que determinados números venham a público. De outro, a utilização de dados que agora estão sob investigação.
Convenhamos: não é apenas uma questão jurídica. É, sobretudo, uma questão política e ética.
Pesquisas eleitorais não são peças de marketing descartáveis. Elas são instrumentos fundamentais para a transparência do processo democrático. Quando manipuladas, distorcidas ou utilizadas de forma seletiva, deixam de informar e passam a confundir o eleitor.
E o eleitor — este sim — merece respeito.
O caso agora está sob análise da Justiça Eleitoral, que deverá esclarecer o que, até o momento, permanece nebuloso. O processo em tramitação no TRE-RN pode trazer respostas técnicas, documentais e, eventualmente, responsabilizações.
Mas há uma resposta que não virá dos autos.
A resposta política.
Essa depende exclusivamente de Allyson Bezerra. Depende da disposição de explicar, de assumir posições e, principalmente, de tratar o eleitor com a transparência que o momento exige.
Porque, no fim das contas, a questão não é apenas sobre uma pesquisa.
É sobre credibilidade.
É sobre coerência.
E é sobre o tipo de relação que um pré-candidato pretende estabelecer com a verdade — mesmo quando ela não cabe em um gráfico favorável.
Foto: Arquivo/POR DENTRO DO RN/Ilustração
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