Editorial POR DENTRO DO RN

A política não se mede apenas por discursos — mede-se, sobretudo, por força real, articulação e controle de espaços estratégicos. E foi exatamente isso que o ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias, perdeu ao ser destituído da presidência estadual do Republicanos no Rio Grande do Norte.
A decisão da executiva nacional da legenda, liderada por Marcos Pereira, não apenas encerra um ciclo — ela inaugura um novo cenário político no estado. E, mais do que isso, marca simbolicamente a primeira derrota concreta de Álvaro Dias no tabuleiro eleitoral de 2026.
Uma perda que vai além do discurso
Publicamente, Álvaro tentou minimizar o impacto. Em nota, classificou o episódio como algo natural, quase irrelevante. Mas a realidade política é bem diferente.
A presidência de um partido não é um cargo decorativo. Ela significa controle de:
- tempo de rádio e TV
- fundo partidário
- articulação de nominatas
- definição de alianças
Ao perder o comando do Republicanos para o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, Álvaro não apenas cede espaço — ele entrega a um adversário direto uma estrutura decisiva para a disputa estadual.
Trata-se de uma virada estratégica que reposiciona forças e enfraquece, de forma objetiva, o projeto do ex-prefeito.
O avanço silencioso de Allyson
A movimentação de Allyson Bezerra foi cirúrgica. Em Brasília, articulou diretamente com a cúpula nacional e garantiu o controle da legenda no estado. Com isso, passa a reunir ativos fundamentais para uma candidatura competitiva ao Governo do RN.
Enquanto Álvaro migra para o PL tentando reorganizar sua base, Allyson consolida terreno, amplia influência e ocupa espaços deixados pelo adversário.
Na prática, o que se vê é um jogo político em que um avança enquanto o outro recua.
O peso das dificuldades jurídicas
A perda do Republicanos não ocorre isoladamente. Ela se soma a um contexto ainda mais delicado para Álvaro Dias: questionamentos judiciais que podem impactar diretamente sua elegibilidade.
Há movimentações no campo jurídico envolvendo o ex-prefeito relacionadas às eleições de 2024, incluindo pedidos que questionam sua capacidade de disputar o pleito de 2026. Mesmo que ainda não haja decisão definitiva, o simples fato de enfrentar esse tipo de contestação já gera desgaste político e insegurança entre aliados.
Na política, percepção é quase tão importante quanto realidade — e, neste momento, o cenário não favorece Álvaro.
A nota de Álvaro Dias
Na tentativa de conter a repercussão, o próprio Álvaro divulgou a seguinte nota:
“Como é de conhecimento público, eu já havia anunciado minha mudança de partido para o PL. Portanto, recebi com tranquilidade a decisão do Republicanos, estando agora liberado para seguir em um novo projeto partidário.
Inclusive, o presidente Marcos Pereira já tinha conhecimento desse fato há bastante tempo. Se o partido resolveu promover nossa substituição, essa é uma decisão interna que poderia ter sido tomada até antes.
Tenho gratidão pelo período em que estive na legenda, no qual sempre fui bem acolhido e contei com apoio às pautas do Rio Grande do Norte.
Quanto à decisão de tornar inativa a comissão que eu presidia, trata-se de uma deliberação interna da direção partidária, que vem ocorrendo em várias cidades do Brasil, não cabe a mim comentar ou interferir. Respeito plenamente as decisões institucionais da sigla.
Sigo focado no futuro, no diálogo com a população e preocupado com a construção de um novo caminho político para o nosso estado.”
Irrelevante? Não para a política real
O tom adotado na nota busca transmitir normalidade. Mas a política não funciona apenas com narrativas — ela responde a fatos.
E o fato é claro: Álvaro perdeu um partido para um adversário direto.
Mais do que isso, perdeu no momento em que mais precisava demonstrar força e capacidade de articulação. A justificativa de que já havia deixado a sigla não apaga o simbolismo da decisão nacional, tampouco o recado político enviado.
A leitura em Brasília foi objetiva: faltou organização, faltou estrutura, faltou competitividade.
Foto: Verônica Macêdo/Ilustração
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