Editorial POR DENTRO DO RN

A recente polêmica envolvendo a divulgação de uma suposta “ordem de serviço” por parte da Prefeitura de Parnamirim escancara um problema que tem se tornado recorrente na atual gestão da prefeita Nilda: a distância entre o discurso e a realidade administrativa. Em um cenário onde a população aguarda soluções concretas para problemas históricos da cidade, o que se vê é uma comunicação institucional que, cada vez mais, aposta na estética e na narrativa — ainda que, por vezes, em desacordo com os fatos.
O episódio é emblemático. Um vídeo institucional foi amplamente divulgado como se representasse o início de uma obra ou serviço relevante. No entanto, o próprio documento exibido no material revela outra natureza: tratava-se, na prática, do envio de um projeto de alteração legislativa à Câmara Municipal. Ou seja, não havia obra, não havia execução imediata — havia apenas o início de uma tramitação burocrática que ainda depende de aprovação e, posteriormente, de implementação.
A diferença não é meramente técnica. Trata-se de um ponto central na relação entre gestão pública e transparência. Uma ordem de serviço carrega consigo a ideia de ação concreta, de máquinas nas ruas, de melhorias palpáveis. Já o envio de um projeto de lei é apenas uma etapa inicial, muitas vezes distante de qualquer resultado prático no curto prazo. Confundir — ou pior, misturar propositalmente — essas duas coisas compromete a confiança da população.
Esse não é um caso isolado. A gestão da professora Nilda tem sido marcada por uma forte presença digital, com produção constante de vídeos, anúncios e peças institucionais que buscam transmitir dinamismo e eficiência. No entanto, a percepção crescente entre moradores e observadores da política local é de que há um descompasso entre o volume de conteúdo divulgado e a efetiva entrega de resultados.
Parnamirim enfrenta desafios antigos e urgentes: infraestrutura precária em diversos bairros, problemas na mobilidade urbana, dificuldades na saúde pública e uma sensação generalizada de abandono em determinadas áreas. Diante desse cenário, o cidadão espera mais do que anúncios — espera soluções. E soluções não se constroem com vídeos bem editados, mas com planejamento, execução e acompanhamento de políticas públicas.
O uso excessivo do marketing como ferramenta de gestão pode até gerar ganhos momentâneos de imagem, mas cobra um preço alto no médio e longo prazo: a perda de credibilidade. Quando a população percebe que o que é anunciado não corresponde ao que é entregue, instala-se um sentimento de descrédito que contamina toda a administração.
Outro ponto que merece atenção é o amadorismo na condução da comunicação institucional. Em tempos de acesso fácil à informação, qualquer divergência entre discurso e documento é rapidamente identificada e amplificada. A falta de rigor técnico na divulgação de atos administrativos demonstra não apenas descuido, mas uma possível tentativa de inflar ações que ainda não saíram do papel.
Além disso, o episódio levanta questionamentos sobre a prioridade da gestão. Está-se governando para resolver problemas reais ou para alimentar redes sociais com conteúdo positivo? A política pública não pode ser reduzida a uma estratégia de engajamento digital. A cidade real exige respostas concretas — e urgentes.
A ausência de um posicionamento claro ou correção do conteúdo divulgado agrava ainda mais a situação. O silêncio institucional diante de um erro evidente reforça a percepção de que não há compromisso com a transparência. Em uma administração pública, reconhecer equívocos e corrigi-los não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade.
Parnamirim precisa de mais do que narrativas bem construídas. Precisa de gestão eficiente, planejamento consistente e, sobretudo, respeito à inteligência do cidadão. A comunicação pública deve ser uma ferramenta de prestação de contas — não de confusão.
Enquanto episódios como este continuarem a se repetir, a gestão da prefeita Nilda seguirá sob o peso de críticas que vão além da oposição política e alcançam o senso comum da população: a de que há muito anúncio e pouca entrega.
E, na política, essa é uma conta que sempre chega.
Foto: Reprodução/Redes Sociais
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