Editorial POR DENTRO DO RN

A decisão do deputado estadual Hermano Moraes de aceitar a condição de pré-candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Allyson Bezerra não é apenas mais um movimento no tabuleiro político do Rio Grande do Norte — é, possivelmente, o passo mais arriscado de toda a sua trajetória pública.
E não se trata aqui de negar o direito legítimo de ambição política. Pelo contrário. A política exige coragem, visão e, muitas vezes, decisões ousadas. O problema é quando ousadia e imprudência passam a caminhar perigosamente lado a lado.
Hermano Moraes construiu uma carreira sólida. Com atuação consistente na Assembleia Legislativa, presença municipalista e serviços prestados em diversas áreas, o parlamentar pavimentou um caminho que, hoje, praticamente garantia sua reeleição. Em um cenário político instável, poucos nomes possuem a previsibilidade eleitoral que Hermano alcançou ao longo dos anos. Abrir mão disso não é apenas uma escolha — é uma aposta de alto risco.
Uma troca desigual
Ao aceitar ser vice, Hermano deixa de ser protagonista para ocupar uma posição historicamente secundária. Mais do que isso: vincula seu destino político diretamente ao desempenho de Allyson Bezerra, um nome que, embora competitivo nas pesquisas, carrega consigo uma série de incertezas.
É preciso dizer com clareza: liderar levantamentos iniciais não garante vitória. A história recente da política potiguar — e brasileira — está repleta de exemplos de candidaturas que começaram fortes e sucumbiram ao longo da campanha.
No caso de Allyson, há um agravante. O prefeito de Mossoró enfrenta questionamentos e processos que, ainda que não tenham resultado em condenações, representam um fator de desgaste político real. Em uma eleição majoritária, especialmente para o Governo do Estado, esse tipo de variável pesa — e muito.
O risco de um projeto incerto
Ao atrelar sua imagem à de Allyson, Hermano Moraes assume também os riscos desse projeto. Caso a candidatura não avance ao segundo turno ou seja derrotada, o deputado poderá se ver fora da Assembleia Legislativa e sem o capital político que construiu ao longo dos anos.
É uma equação simples: o que está em jogo não é apenas um cargo, mas uma trajetória.
Além disso, há um ponto estratégico que não pode ser ignorado. Mesmo que a chapa avance, o papel de vice-governador nem sempre garante protagonismo político ou autonomia. Em muitos casos, trata-se de uma função limitada, dependente da relação com o titular e das circunstâncias do governo.
Hermano, que hoje possui voz ativa e independência como parlamentar, pode se ver em uma posição de menor influência.
Entre o cálculo e o impulso
A justificativa apresentada pelo deputado — a necessidade de um novo modelo de gestão para o Estado — é legítima. O Rio Grande do Norte, de fato, enfrenta desafios fiscais, estruturais e sociais que exigem planejamento e responsabilidade.
No entanto, é preciso separar discurso de estratégia.
A construção de um projeto de governo sólido não depende apenas de boas intenções ou diagnósticos corretos. Depende, sobretudo, da viabilidade política da chapa e da capacidade de enfrentar adversários em um cenário que tende a se tornar cada vez mais competitivo.
A leitura de que Allyson “incomoda” adversários pode até fazer sentido no início da corrida eleitoral, mas não elimina os obstáculos reais que surgirão ao longo da campanha — especialmente quando o debate se aprofundar e os holofotes se voltarem para todos os aspectos da gestão e da vida pública dos candidatos.
Um erro que pode custar caro
O MDB, sob a liderança de Walter Alves, busca ampliar sua presença e influência no estado. A indicação de Hermano como vice faz parte dessa estratégia. No entanto, estratégia partidária nem sempre coincide com o melhor caminho individual.
E é justamente aí que reside o ponto central deste editorial.
Hermano Moraes não precisava desse risco. Tinha — e ainda tem — capital político suficiente para continuar contribuindo com o Estado a partir de uma posição segura e consolidada. Ao optar por uma candidatura incerta, ele coloca em xeque não apenas uma eleição, mas um legado.
A política é feita de escolhas. Algumas constroem pontes; outras, abrem abismos.
Se a aposta der certo, Hermano poderá chegar ao Executivo estadual e ampliar sua atuação. Mas, se der errado, o preço pode ser alto demais — inclusive para alguém que tinha tudo para seguir como um dos nomes mais respeitados e estáveis da política potiguar.
No fim das contas, a pergunta que permanece é inevitável: vale a pena trocar o certo pelo duvidoso?
Foto: João Gilberto/ALRN/Ilustração
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