Por Thiago Martins – thiagolmmartins@gmail.com
Mobilidade em Pauta
O acidente que deixou uma estudante ferida após cair de um micro-ônibus em movimento na Zona Oeste de Natal na última quarta-feira (25) pode ter sido agravado por uma prática irregular já denunciada no sistema de transporte alternativo: o bloqueio do equipamento de acessibilidade do veículo.
O micro-ônibus envolvido – de matrícula 1.E2.7, que opera a linha L1 (Coophab/Rodoviária) – circula com o elevador de acessibilidade bloqueado. Ele já havia sido mostrado em matéria anterior divulgado na coluna MOBILIDADE EM PAUTA.
Além dele, outros dois veículos da linha L1 também seguiam a mesma prática: os veículos 1.E2.1.1 e o 1.E2.28. No entanto, nos últimos meses, o carro 1.E2.1.1 deixou de operar – e não foi substituído, enquanto o 1.E2.28 passou por reformas de adequações e teve o espaço da acessibilidade reposta.
Dinâmica do acidente levanta novo alerta
Com o equipamento de acessibilidade travado, o espaço de embarque interno fica reduzido e o fluxo de passageiros é comprometido. A tendência é que os usuários tenham dificuldade para avançar até a roleta, permanecendo nos degraus próximos à porta.
Nesse contexto, a hipótese mais provável é que a passageira tenha embarcado, não tenha conseguido completar o deslocamento interno (subido os degraus) e, com o veículo ainda em movimento e com a porta aberta, tenha sido arremessada ao solo durante uma curva.
A situação reforça um problema estrutural: o bloqueio da acessibilidade não afeta apenas pessoas com deficiência – que ficam impedidas de utilizar o transporte – mas compromete diretamente a segurança de todos os passageiros.
Acessibilidade negada e risco ampliado
O bloqueio do elevador é considerado uma infração grave por especialistas do setor, pois viola princípios básicos de segurança operacional e de inclusão no transporte público.
Na prática, essa irregularidade provoca:
- redução do espaço interno de circulação;
- embarque inseguro de passageiros;
- dificuldade de controle do fluxo no interior do veículo;
- aumento do risco de quedas durante o deslocamento.
Além disso, a prática impede o direito constitucional de mobilidade de pessoas com deficiência, que deixam de ter acesso ao serviço público de transporte.
Problema estrutural já conhecido
O caso não é isolado. O histórico recente do transporte alternativo na região metropolitana de Ntal – tema recorrente nas análises sobre mobilidade urbana e intermunicipal no estado – aponta para uma sequência de problemas operacionais, incluindo veículos em condições inadequadas, falhas de fiscalização e descumprimento de normas técnicas básicas.
A ausência de padronização e de controle efetivo que deveria acontecer pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagens), órgão gestor de transporte do estado, contribui para um ambiente operacional onde práticas irregulares acabam sendo normalizadas, ampliando os riscos à população.
Responsabilização e fiscalização
Diante do acidente, cresce a pressão para que haja apuração técnica sobre as condições operacionais do veículo e sobre o cumprimento das normas de acessibilidade e segurança.
Não apenas na vistoria do veículo em questão envolvido no acidente, mas de todos que seguem em operação.
O caso reforça um ponto central que você vem destacando em suas análises sobre o transporte local: quando a regulação falha, o risco deixa de ser exceção e passa a integrar a rotina do sistema.
Fotos: Reprodução

Sobre Thiago Martins, colunista do Por Dentro do RN
Thiago Martins é jornalista formado pela UFRN e há 15 anos dedica-se ao estudo e à cobertura do setor de mobilidade urbana. Escreve sobre o tema desde o início da carreira, colaborando com portais de notícias especializados e acompanhando de perto as transformações na mobilidade ativa, no setor de transportes e na infraestrutura urbana. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
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