Artigo – Crise no transporte de Pernambuco expõe contraste preocupante com a realidade do Rio Grande do Norte

Artigo - Crise no transporte de Pernambuco expõe contraste preocupante com a realidade do Rio Grande do Norte

Por Thiago Martins – thiagolmmartins@gmail.com
Mobilidade em Pauta

O encerramento das atividades da Rodoviária Logo Caruaruense, em Caruaru (PE), após mais de 60 anos de operação, vai muito além do fechamento de uma empresa tradicional. O caso abriu uma crise institucional no transporte intermunicipal pernambucano e levantou questionamentos graves sobre fiscalização, segurança e responsabilidade do poder público. Ao mesmo tempo, o episódio lança luz sobre uma realidade igualmente – ou até mais – preocupante vivida no Rio Grande do Norte, onde problemas estruturais no transporte de passageiros se acumulam sem solução efetiva.

Em Pernambuco, as denúncias apontam que a Logo Caruaruense operava há cerca de três anos sem vistorias regulares, com frota envelhecida e ônibus acima do limite de idade permitido em lei. O caso ganhou ainda mais repercussão por envolver diretamente a família da governadora Raquel Lyra, levantando dúvidas sobre eventual omissão do Estado e falhas da Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI). A principal questão deixada no ar é simples e grave: se uma empresa tradicional operava fora das regras, o que dizer das demais?

No Rio Grande do Norte, a situação não é menos alarmante. Ao contrário de Pernambuco, onde o caso veio à tona a partir de uma empresa específica, no RN os problemas são generalizados e recorrentes. Há anos, circulam no estado ônibus e veículos alternativos fora das normas do Regulamento do Sistema de Transporte Intermunicipal de Passageiros (STIP/RN), com flagrantes irregularidades ignoradas – ou aceitas – pelo órgão gestor, o Departamento de Estradas e Rodagens, o DER/RN.

Entre os problemas já amplamente documentados estão ônibus com mais de 20 anos de uso, veículos em péssimas condições mecânicas, ausência de itens básicos de segurança, acessibilidade bloqueada ou inutilizada, impedindo o uso por pessoas com deficiência, além de empresas que tiveram caducidade decretada, mas seguem operando normalmente, como nos casos da Viação Nordeste e da Alves. Em paralelo, dezenas de cidades do interior permanecem sem atendimento regular, penalizando diretamente a população mais dependente do transporte público.

O contraste entre os estados está menos na existência dos problemas e mais na reação institucional. Em Pernambuco, o fechamento da Logo Caruaruense escancarou uma crise que agora exige respostas do governo e dos órgãos de controle. No Rio Grande do Norte, a crise parece naturalizada, com irregularidades persistindo ano após ano, sem ações estruturantes, sem punições exemplares e sem transparência.

Esse cenário aponta para uma urgência inequívoca: o transporte público no RN caminha para um colapso silencioso, com serviços cada vez mais precários, frota envelhecida e usuários expostos a riscos diários. Sem políticas públicas reais, sem fiscalização efetiva e sem planejamento, o resultado inevitável é um sistema cada vez pior, mais caro socialmente e mais inseguro.

Diante desse quadro, cresce a expectativa – e a cobrança – por uma atuação mais firme do Ministério Público, instituição que goza de amplo respeito da sociedade. A intervenção do MP pode – por que não dizer “precisa”? – ser decisiva para romper a inércia, exigir cumprimento das normas, responsabilizar gestores e impedir que o transporte de passageiros continue operando à margem da lei.

O caso de Pernambuco serve como alerta. O do Rio Grande do Norte, como sinal vermelho já aceso há muito tempo. Ignorar essa realidade significa aceitar que o direito de ir e vir continue sendo tratado como um favor, e não como um serviço essencial que exige seriedade, fiscalização e compromisso com a vida.

Fotos: Bruno Henrique/Ilustração

thiago martins

Sobre Thiago Martins, colunista do Por Dentro do RN

Thiago Martins é jornalista formado pela UFRN e há 15 anos dedica-se ao estudo e à cobertura do setor de mobilidade urbana. Escreve sobre o tema desde o início da carreira, colaborando com portais de notícias especializados e acompanhando de perto as transformações na mobilidade ativa, no setor de transportes e na infraestrutura urbana. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.

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