Marco Legal do Transporte Coletivo avança na Câmara enquanto Governo Federal estuda Tarifa Zero

Marco Legal do Transporte Coletivo avança na Câmara enquanto Governo Federal estuda Tarifa Zero

Por Thiago Martins – thiagolmmartins@gmail.com
Mobilidade em Pauta

O transporte público urbano brasileiro pode entrar em uma nova fase regulatória e financeira. O Projeto de Lei nº 3278/21, que institui o Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano, está pronto para votação no Plenário da Câmara dos Deputados, ao mesmo tempo em que o Governo Federal aprofunda estudos para viabilizar a chamada tarifa zero no país.

A combinação das duas iniciativas aponta para uma possível reestruturação do modelo de financiamento e gestão do transporte coletivo, hoje considerado esgotado por especialistas e autoridades federais.

Nova governança e financiamento compartilhado

O texto do marco legal propõe a criação de uma rede única e integrada de transporte público coletivo, com participação da União, estados e municípios. Entre os principais pontos estão a gestão compartilhada do sistema, a previsão de recursos orçamentários para custear gratuidades e tarifas reduzidas e a definição de metas de universalização e transição energética.

O relator da proposta, José Priante, defende que a integração física, operacional e tarifária entre sistemas é essencial para ampliar a oferta e elevar o padrão de qualidade do serviço. O projeto também separa a tarifa paga pelo usuário da remuneração das empresas operadoras, que passaria a depender do cumprimento de metas de desempenho e qualidade.

Para o presidente da Câmara, Hugo Motta, a proposta responde ao atual desequilíbrio financeiro do setor, marcado por tarifas pressionadas e subsídios limitados por parte dos municípios.

A inclusão do Governo Federal no financiamento do sistema é vista como elemento central para fortalecer a mobilidade urbana, sobretudo nas regiões metropolitanas, onde a fragmentação institucional historicamente compromete a eficiência do serviço.

Governo Federal discute viabilidade de tarifa zero

Paralelamente à tramitação do projeto, o ministro das Cidades, Jader Filho, confirmou que o Governo Federal avalia a implementação da tarifa zero no transporte público urbano. O estudo econômico está sendo conduzido pelo Ministério da Fazenda por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o ministro, o modelo atual — baseado majoritariamente na cobrança direta do usuário — não responde mais às necessidades sociais e financeiras do sistema. A proposta de gratuidade universal exigirá, porém, uma nova estrutura de financiamento público e pactuação entre União, estados e municípios.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia indicado que o governo realiza uma “radiografia” do setor para identificar fontes sustentáveis de financiamento e alternativas de reorganização do modelo tarifário.

Atualmente, mais de uma centena de cidades brasileiras, em geral de pequeno e médio porte, já adotam algum formato de tarifa zero, o que serve como referência para o debate nacional.

Impactos esperados nas cidades

A eventual aprovação do marco legal combinada com a política de financiamento público ampliado pode redefinir a mobilidade urbana brasileira em três dimensões principais:

  • melhoria da previsibilidade financeira dos sistemas;
  • ampliação da acessibilidade social ao transporte;
  • modernização tecnológica e ambiental das frotas.

A política também pode impulsionar a transição para veículos menos poluentes e fortalecer mecanismos de transparência sobre custos operacionais, metas de qualidade e direitos dos passageiros.

Reflexos para o RN

A proposta tem potencial impacto direto em sistemas de transporte como o de Natal, Parnamirim e Mossoró, além da Região Metropolitana de Natal, onde a fragmentação entre sistemas municipais e intermunicipais tem sido um dos principais entraves à eficiência do transporte coletivo.

Nos últimos anos, debates locais têm apontado desafios estruturais como frota envelhecida, ausência de integração tarifária, baixa coordenação entre entes públicos e fragilidade na política de financiamento do setor – problemas que o marco legal pretende enfrentar por meio da governança compartilhada.

Caso aprovado, o novo modelo pode abrir caminho para políticas nacionais permanentes de subsídio e planejamento integrado, alterando o papel da mobilidade urbana na política pública de desenvolvimento social e econômico.

Um novo ciclo para o transporte público

A possível convergência entre regulação nacional e financiamento público estruturado sinaliza uma mudança de paradigma: o transporte coletivo deixa de ser tratado apenas como serviço local e passa a ser compreendido como política pública estratégica de alcance nacional.

Se confirmada, a combinação entre o marco legal e a discussão sobre tarifa zero pode representar a maior transformação institucional do transporte público urbano brasileiro nas últimas décadas.

Fotos: Tony Oliveira/Agência Brasília / Matheus H. Souza/Agência Brasília

thiago martins

Sobre Thiago Martins, colunista do Por Dentro do RN

Thiago Martins é jornalista formado pela UFRN e há 15 anos dedica-se ao estudo e à cobertura do setor de mobilidade urbana. Escreve sobre o tema desde o início da carreira, colaborando com portais de notícias especializados e acompanhando de perto as transformações na mobilidade ativa, no setor de transportes e na infraestrutura urbana. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.

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