Por Thiago Martins – thiagolmmartins@gmail.com
Mobilidade em Pauta

Às vésperas da aguardada licitação do transporte público de Natal, a realidade que circula diariamente pelas ruas da capital é ainda mais preocupante do que se imaginava. Levantamento exclusivo da coluna revela que 49,63% da frota urbana e semiurbana de Natal é composta por ônibus usados, provenientes de outros estados — percentual que pode ser arredondado para 50%. Na prática, um em cada dois ônibus em circulação na cidade não foi adquirido novo (de fábrica)..
O dado escancara o nível de desgaste do sistema de transporte coletivo no momento em que a Prefeitura afirma que o edital da licitação está em fase final e pode ser publicado a qualquer momento.
Frota envelhecida e dependente de ônibus usados
Além do alto número de veículos de segunda mão, chama atenção a idade elevada dos ônibus mais antigos em cada empresa, o que compromete conforto, regularidade e segurança do serviço ofertado à população.
Confira o atual cenário da frota urbana e semiurbana de Natal:
- Guanabara
Frota de 131 ônibus, sendo 22 usados
Ônibus mais antigo: 2011
- Transnacional
Frota de 107 ônibus, sendo 48 usados
Ônibus mais antigo: 2013
- Santa Maria
Frota de 61 ônibus, sendo 58 usados
Ônibus mais antigo: 2012
- Conceição
Frota de 47 ônibus, sendo 33 usados
Ônibus mais antigo: 2009
- Via Sul
Frota de 46 ônibus, sendo 25 usados
Ônibus mais antigo: 2009
- Cidade do Natal
Frota de 33 ônibus, sendo 15 usados
Ônibus mais antigo: 2011

Somados, os números revelam um cenário alarmante: praticamente metade da frota que atende Natal é formada por ônibus usados, muitos deles já com mais de uma década de fabricação.
Sistema sucateado à espera da licitação
A situação ganha contornos ainda mais graves por ocorrer às vésperas da licitação do transporte público, um processo aguardado há anos e sucessivamente adiado. A Prefeitura de Natal tem reiterado publicamente que o edital está em elaboração final e deve ser divulgado em breve.
Enquanto isso não acontece, o sistema opera com uma frota envelhecida, manutenção onerosa e qualidade cada vez mais questionada pelos usuários, que enfrentam quebras constantes, superlotação e longos intervalos.
Reflexo direto da insegurança jurídica
O alto índice de ônibus usados é visto como reflexo direto da insegurança jurídica do setor. Sem contratos definitivos e regras claras de longo prazo, as empresas evitam investimentos pesados em veículos novos e optam por incorporar ônibus vindos de outros estados como solução paliativa para manter a operação.

O resultado é um transporte público pouco atrativo, obsoleto e distante das necessidades da população, justamente no momento em que a cidade discute o futuro do sistema.
Expectativa por mudanças reais
Com a licitação batendo à porta, cresce a pressão para que o novo edital estabeleça exigências rigorosas de renovação de frota, limites claros para idade dos veículos e fiscalização efetiva. Caso contrário, o risco é que Natal apenas legitime, em contrato, um sistema envelhecido e ineficiente.
Para quem depende diariamente do ônibus, o dado de que quase 50% da frota é composta por veículos usados simboliza mais do que números: representa o atraso de um modelo que precisa, urgentemente, ser substituído.
Foto: Arquivo/POR DENTRO DO RN

Sobre Thiago Martins, colunista do Por Dentro do RN
Thiago Martins é jornalista formado pela UFRN e há 15 anos dedica-se ao estudo e à cobertura do setor de mobilidade urbana. Escreve sobre o tema desde o início da carreira, colaborando com portais de notícias especializados e acompanhando de perto as transformações na mobilidade ativa, no setor de transportes e na infraestrutura urbana. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
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