Psicóloga explica sinais mais comuns após perdas familiares e orienta como acolher crianças nesse momento
Choro, silêncio e medo: como o luto aparece na infância e o que os pais devem fazer
A morte de um ente querido transforma a rotina da família e também alcança o universo das crianças, ainda que muitas vezes em silêncio. Mudanças de comportamento, momentos de choro, medo de perder outras pessoas próximas e dificuldade para expressar sentimentos podem ser algumas das formas encontradas por elas para lidar com a ausência.
A bibliotecária Caaci Lima acompanhou a filha, Laura Beatriz, de oito anos, em duas experiências de perda. A primeira aconteceu quando Laura tinha quatro anos, com o falecimento do bisavô. A segunda, aos sete, com a morte da bisavó, com quem mantinha convivência mais próxima e visitas frequentes.
“No caso da bisavó, ela sentiu muito. Houve internação por mais de um mês e Laura sofria por não poder visitá-la. Depois da perda, fomos chamados pela escola, porque ela apresentava momentos de choro e isolamento”, relata a mãe.

Segundo a psicóloga Anna Cláudia Abdon, especialista da Empresa Vila no tema, o luto infantil existe e precisa ser reconhecido com sensibilidade. “Cada criança percebe a perda de uma forma diferente, muito ligada à idade e ao estágio de desenvolvimento. Algumas podem entender a ausência como algo temporário, outras sentem principalmente a falta na rotina e no convívio diário”, explica.
Ela ressalta que, diferentemente dos adultos, os pequenos costumam comunicar a dor mais pelo comportamento do que pela fala. “Uma criança mais quieta pode ficar agitada, outra, mais expansiva, pode se recolher. Também podem surgir irritabilidade, medo, dificuldade de atenção na escola ou apego excessivo aos cuidadores”, afirma.
De acordo com a especialista, outra característica comum do luto infantil é a alternância entre tristeza e momentos de aparente normalidade. O enlutado pode chorar em um instante e, logo depois, voltar a brincar. Isso não significa ausência de sofrimento, mas uma forma própria de processar emoções intensas.
“Os pequenos elaboram o luto em pequenas doses. Muitas vezes brincam, desenham ou mudam comportamentos para demonstrar aquilo que ainda não conseguem nomear”, pontua Anna Cláudia.
Caaci conta que, durante o processo, a filha também passou a associar a morte às pessoas mais velhas e demonstrou medo de perder os avós. Para ajudar, a família apostou no acolhimento e no espaço para que Laura expressasse o que sentia. “O que mais ajudou foi deixar que ela sentisse e acolher esse sentimento”, resume.
Nessas situações, de acordo com Anna Cláudia, esconder a verdade ou criar explicações confusas pode dificultar ainda mais o processo. O ideal é conversar com honestidade, em linguagem adequada à idade da criança.
“Ela percebe que algo mudou, o ambiente muda, as pessoas ficam diferentes, a rotina se altera. Por isso, é importante falar a verdade de forma cuidadosa, validar sentimentos como tristeza e raiva, e manter uma rotina previsível, para que ela se sinta segura”, orienta Anna Cláudia.
Por fim, a psicóloga alerta que, embora o luto seja uma reação natural à perda, alguns sinais indicam a necessidade de apoio psicológico: sofrimento intenso e persistente, isolamento, agressividade, prejuízo escolar, dificuldade para retomar a rotina ou quando a própria família não consegue oferecer suporte emocional naquele momento. “Não é preciso esperar a situação se agravar para buscar ajuda. O acompanhamento pode ser importante tanto para a criança quanto para os cuidadores”, finaliza.
Foto: Divulgação
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