Gustavo Guedes - Leia agora no Por dentro do RN

Gustavo Guedes

Gustavo GuedesGustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa por Música, Astronomia, serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio.

Sobre viver de migalhas e a equivocada necessidade de pertencer por pertencer, por Gustavo Guedes

Sobre viver de migalhas e a equivocada necessidade de pertencer por pertencer, por Gustavo Guedes

Por Gustavo Guedes
Para o Por Dentro do RN

Em uma realidade cada vez mais individualista, há quem se iluda com qualquer migalha de atenção, de falsa empatia, e se adapte a qualquer situação inferior à merecida. Neste contínuo processo de autoconhecimento, é seguro dizer que este que vos escreve, assim como vários outros indivíduos, foi uma dessas pessoas.

E, para chegar a essa conclusão, foi preciso sair da caverna da arrogância, do autoengano e aceitar a realidade como ela se apresentou a mim. Foi preciso analisar tudo criticamente, cada um dos momentos nos quais as minhas entregas pessoais a causas e pessoas ficaram no lado mais pesado da balança, sem contrapartidas ou sinal de companheirismo: apenas migalhas, sobras, restos do que se poderia ter.

É óbvio que não se trata de fazer e agir esperando recompensas em troca, não se trata disso. Porém, não nos deixemos levar pela linha tênue entre agir sem esperar nada em troca e desperdiçar nossa energia e dedicação com aqueles que , oportuna e pretensiosamente, se aproveitarão disso e da nossa boa vontade; e também se voltarão contra nós quando por alguma razão “subvertermos as expectativas” que eles próprios definiram como ideais.


Migalhas daquele patrão que não valoriza o nosso trabalho porque “não é nada mais além que a nossa obrigação”, que nos elogiam para nos ter em seus pés, mas nos descem o malho quando não correspondemos aos seus anseios. Migalhas daqueles amigos que recusam os nossos convites porque o trabalho e “as obrigações burocráticas” os impedem de qualquer coisa ou que só nos procuram quando precisam de algo. Ou ainda migalhas daquele amor que, um dia, já transbordou e hoje sobrevive de um passado distante, com a falsa esperança de que tudo voltará a ser como antes. Não volta.

A gente tende a aceitar essas situações porque temos medo de não encontrar outro emprego “devido à crise e aos boletos que batem à porta”, ou porque, presos às lembranças desse passado que não existe mais, não queremos romper laços com aqueles que pelos quais nutríamos um carinho ou mantínhamos um relacionamento amoroso/fraterno porque, simplesmente, temos medo de ficar sozinho devido à dificuldade de se encontrar alguém “de futuro” hoje em dia. Repare nas aspas no termo “de futuro”, pois eu abomino esse adjetivo, uma vez que não creio que exista isso.


Esse tipo de queixa é compartilhada aos montes em textões no Facebook, em tweets sarcásticos no Twitter ou em frases de efeito nos stories do Instagram. O problema existe, é conhecido, mas quantos de nós vamos além da superfície de likes nas redes sociais e nos aprofundamos nestes temas de maneira crítica, em prol de uma mudança de dentro pra fora, para que nos blindemos dos efeitos nocivos disso tudo que foi exposto acima? Falar o óbvio, sentar e reclamar resolve?

Ninguém pode ser feliz entregando-se a fantasias tolas; pois nada traz felicidade a menos que, também, traga calma; e não vive bem aquele que desperdiça a sua vida apreensivo e preocupado.

Sêneca, em Cartas de Sêneca a Lucílio


É certo que, em uma realidade como a nossa, quaisquer lampejos de carinho, de afeto e de consideração já são vistos como sinais de que encontramos o grande amigo ou amor das nossas vidas, mas as coisas não funcionam bem assim: buscar no outro a nossa (inexistente) metade “perdida” é a receita ideal para a frustração. O que precisamos para ser feliz não está no outro e triste o indivíduo que acredita que está. E eu já acreditei, por oito anos, que as coisas funcionavam assim.

Em primeiro lugar, a gente só lida melhor com as decepções que certas jornadas nos trazem quando a gente olha pra frente e aprende que o que passou não volta mais: ficar preso ao passado nos faz sofrer duas vezes. Em segundo lugar, quando a gente deixa de achar que o mundo nos odeia ou que a gente nasceu para viver das migalhas alheias, colocando em mente as pessoas são feitas de erros, acertos, sacanagens e boas ações: tudo isso junto em um só ser.

Em terceiro lugar, sem querer valorar o que é “certo” ou “errado”, é preciso ter em mente pessoas decepcionam umas as outras. Umas mais, outras menos, mas todo mundo decepciona ou já decepcionou alguém. Brigar contra isso é em vão. O que a gente faz com o que fazem com a gente é que nos diferencia dos demais.

Em vez de procurar definir o que é certo ou errado, acho mais inteligente tentar ter em mente que as nossas ações têm consequências e elas podem ser, individualmente, boas ou ruins. Que tenhamos liberdade para fazer tudo o que queremos fazer, mas sempre prontos para, cedo ou tarde, “sentar à mesa do banquete de consequências”.

A independência é algo para pouquíssimos: é a prerrogativa dos fortes. Quem procura sê-lo sem ter a obrigação, demonstra que, provavelmente, não apenas é forte; mas também possuidor de uma audácia imensa.

É inevitável — e justo — que os nossos mais altos anseios pareçam bobagens, em algumas circunstâncias delitos, quando chegam indevidamente aos ouvidos daqueles que não foram feitos para eles.

O que serve de alimento para o espírito de uma classe de indivíduos, deve ser como veneno para outras.

Nietzsche, em Além do Bem e do Mal

Quando mergulhamos de cabeça nesta missão de aprender com as nossas tragédias pessoais e começamos a traçar os nossos limites, definindo até onde devemos ir e até onde as pessoas que nos cercam devem ir, fica mais fácil perceber em que ponto o nosso senso de comunidade deixa de sê-lo e se transforma em “aceitar qualquer coisa para ser aceito, amado e pertencer a um lugar qualquer que nos caiba”. Isso está sob nosso poder.

Eu, que já pensei em tirar a minha própria vida por coisas que me fizeram em um passado não tão distante, passei a ganhar mais qualidade de vida e saúde mental quando comecei a pensar e, principalmente, a agir assim. E é isso que me diferencia de quem vive de postar frases de motivação na Internet e não procura, de fato, agir como tenta mostrar.

Acima de tudo, quando você se ofender pela deslealdade ou ingratidão de alguém, volte-se para dentro de si próprio: a culpa é exclusivamente sua se você confiou que uma pessoa com essas características seria fiel a você.


Marco Aurélio, em Meditações

Em minhas aventuras filosóficas do último ano, sempre retorno ao aforismo do abismo de Nietzsche: quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E, se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.

Todos nós temos os nossos abismos e, de acordo com a mensagem que o filósofo alemão nos passa, mesmo quando somos desafiados por esses abismos, é possível tirar o máximo valor das nossas tragédias pessoais. E ele fala isso sem romantizar o sofrimento; é algo mais como, já que eu não pude nem posso evitar isso, como posso tirar vantagem disso?

Para ele, a quantidade exata de tempo que uma pessoa deve olhar para o abismo consiste no período necessário para que ela consiga reconhecer e aceitar a realidade de sua dor, compreendendo-a e tirando as lições que devem ser tiradas. Em seguida, o indivíduo deve abandoná-la antes que ela o engula integralmente e o faça viver uma vida de ressentimento.

O ressentimento, quando nascido da fraqueza, não é mais prejudicial para ninguém que para o próprio indivíduo fraco; ao contrário daqueles fortes em espírito, para os quais o ressentimento é um sentimento supérfluo.

Os meus leitores que conhecem sabem a seriedade com que a minha Filosofia trava guerra contra os sentimentos de vingança e rancor.

Em meus momentos de decadência, proibi-me de tolerar os sentimentos acima porque eram prejudiciais; assim que recuperei o controle da minha vida suficientemente, porém, mantive-os proibidos, mas desta vez porque estavam abaixo de mim.

Nietzsche, em Ecce Homo


O ressentimento nos envenena e nos faz perder a chance de exercer a nossa vontade de potência, a nossa capacidade de fazer chover quando tudo parece árido. É preciso resistir em meio ao caos e ser corajoso para, mesmo diante das dificuldades e das incertezas, não aceitar qualquer coisa senão o quinhão que é nosso por direito.

Foto: Ilustração/Pixabay

Siga o Por Dentro do RN também no Instagram e mantenha-se informado.

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, por Astronomia, por Filosofia, pela boa política, por serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Siga Gustavo Guedes no Instagram: @gustavoguedesv
Siga Gustavo Guedes no Twitter: @gstvgds

Pérolas aos porcos - um texto sobre pandemia, reflexões internas e Estoicismo, por Gustavo Guedes

Pérolas aos porcos: um texto sobre pandemia, reflexões internas e Estoicismo, por Gustavo Guedes

Por Gustavo Guedes
Para o Por Dentro do RN

A primeira versão deste texto foi publicada (em outro local) em abril de 2020, quando o Brasil registrava pouco mais de 6 mil mortos pela Covid-19. De lá pra cá, este número cresceu 100.000 vezes e muita coisa mudou, muita mesmo; mas a premissa do texto é a mesma, independentemente do contexto: é importante concentrar-se em coisas sobre as quais temos controle e tirar o foco daquelas sobre as quais não temos. Por esta razão, resolvi atualizar tudo sem abrir mão da essência do texto original.

O último rolé que dei enquanto homem livre para lugares de grandes aglomerações foi em meados de março de 2020, logo no início da pandemia do coronavírus no Brasil. Era uma quarta-feira de karaokê em um bar em Candelária, aqui em Natal. Desde então, alternei entre os momentos de ócio criativo, quando aproveitei para escrever, refletir, tocar violão, estudar e fazer alguma coisa interessante; e aqueles nos quais pareci um vegetal, com um esgotamento mental sem razão aparente, vivendo da luz que entrava pela fresta da janela do quarto e sem vontade de fazer exatamente nada, vendo aleatoriedades na Internet e dormindo.

Durante estes quase dois anos da Covid-19 no Brasil, em conversas com os amigos, quando não me deparei com quem minimiza — ou até nega — os riscos da pandemia, não era raro lidar com quem ocupava o outro extremo do espectro: com os que sofriam (ou diziam sofrer) com a insônia, a compulsão alimentar, a ansiedade e os demais efeitos colaterais inerentes ao momento delicado atravessado por todos nós.

Hoje, exatamente um ano e seis meses desde a primeira versão deste texto, ainda costumo ler e ouvir as opiniões de quem inventa qualquer argumento para meter o louco ou mergulhar em uma tristeza profunda; ainda ouço, ainda leio, mas deixei de discutir com quem não está nem aí pra nada e só pensa em si; e também deixei de expor o meu modo de enxergar a vida para quem se encontra angustiado e sufocado pelas incertezas do dia-a-dia.

A razão da minha isenção — e aparente frieza — introduz ao meu objetivo principal desde 2019: fortalecer a minha mente concentrar-me nos eventos e ações que estão sob meu controle e aceitar todas aquelas sobre as quais eu não tenho domínio; e isso envolve eventos, pessoas, alegrias e tristezas.

VIVENDO EM PAZ SOB QUALQUER CIRCUNSTÂNCIA

Em se tratando de ansiedade e depressão, tenho o conhecimento da causa. Em meio às três drogas (devidamente receitadas por uma psiquiatra) que tomei entre dezembro de 2019 e agosto de 2020, estavam justamente duas daquelas utilizadas para tratar os dois transtornos citados acima. Logo, a minha experiência, mesmo que não seja a única, merece crédito e, como dizem atualmente, está no lugar de fala ao qual pertence.

A vida de quem tem ansiedade — e não procura ajuda — não é fácil e qualquer situação fora do normal, até nem tão fora do normal assim, é torturante. A gota d’água para a minha crise foi o fim de um relacionamento e o processo de retomada das rédeas da minha vida foi doloroso, angustiante e assustador. Mas, desde o início, trabalhei a minha mente para compreender que  a luta seria diária e eu não podia vacilar.

Quando a Covid-19 resolveu se meter a besta, eu já estava com a mente mais tranquila e menos vulnerável a fatores externos. Não atribuo a minha tranquilidade exclusivamente às drogas em questão, mas principalmente às escolhas que eu fiz quando tudo em minha cabeça era uma desorganização só: uma delas foi me debruçar sobre a Filosofia.

Em nenhuma ocasião se apresente como filósofo, não fale demais sobre os seus princípios em meio à multidão, apenas atue dentro deles. Ao invés de anunciá-los, permita que vejam as ações que esses princípios deram origem.
(The Enchiridion, p.36, Epicteto, 2014)

Uma vez interessado pela Filosofia, procurei fugir da visão esnobe de quem se interessa por alguma coisa simplesmente com o objetivo de tornar-se superior a alguém, por meio da imposição de teorias complicadas, termos técnicos e muitas vezes de difícil assimilação, e fui atrás de algo mais simples e aplicável ao meu conturbado cotidiano.

Em meio à busca por alguma coisa à qual eu pudesse me agarrar quando as circunstâncias não fossem tão favoráveis, conheci o Estoicismo, cujo princípio mais característico é o de concentrar-se em coisas sobre as quais temos controle e tirar o foco daquelas sobre as quais não temos.

Há coisas que estão ao nosso alcance, e há coisas que estão além do nosso poder. Dentro de nosso poder estão: a opinião, os objetivos, os desejos, a aversão e, em suma, quaisquer assuntos que sejam nossos. E, além de nosso poder estão: o nosso corpo, a propriedade, a reputação, a posição social e, em suma, tudo o que não é propriamente um assunto nosso.
(The Enchiridion, p.17, Epicteto, 2014)

Então, durante todo esse tempo, procurei internalizar a seguinte reflexão: quando decidem burlar o isolamento pelos motivos que julgam plausíveis, não importando as consequências que o ato irresponsável possa ocasionar, tenho eu, Gustavo Guedes, poder sobre isso? Quando, de maneira egoísta, não aceitam que aglomerações propiciam o contágio em massa de pessoas, dentre as quais estarão aquelas mais vulneráveis, tenho eu, Gustavo Guedes, poder para condenar quem “merece” e “não merece” ser contaminado pelo vírus?

A diferença entre o ano de 2020 e o momento no qual este texto está sendo atualizado, em outubro de 2021, é que agora nós temos vacinas e boa parte dos brasileiros tomou pelo menos uma dose. Logo, o fato novo é ouvir as seguintes justificativas, até mesmo daquelas pessoas que pregavam empatia meses atrás: ah, mas estamos vacinados!

Como se a vacina nos protegesse 100% do contágio , da transmissão e da morte. Confesso que ouço isso com frequência, mas não dou mais tanta importância e resumo minhas revoltas a tweets específicos, mas nada que me tire dos eixos por muito tempo. Minhas objeções a isso é que o brasileiro, no geral, não tem limites: no mínimo sinal de que as coisas estão melhorando, ao invés de manter a cautela e voltar a socializar com cuidado, mete o louco com tudo e, quando dá merda, inventa qualquer desculpa que o isente.

Em se tratando dos amigos e colegas que negligenciam a saúde mental: quando alguém, por não compreender que a saúde mental é importante e buscar ajuda profissional não é motivo de vergonha, se afunda em pensamentos automáticos, muitas vezes degradantes ou se entregam a prazeres baratos para preencherem seus vazios existenciais, tenho eu, Gustavo Guedes, poder para fazê-lo(a) mudar de ideia? Não se trata de ser frio, longe disso, mas de não gastar conselhos em vão.

E, no entanto, esse é precisamente o poder do estoicismo: a internalização da verdade básica de que podemos controlar nossos comportamentos, mas não os seus resultados — e muito menos os resultados dos comportamentos de outras pessoas — leva à calma aceitação do que quer que aconteça, seguro no conhecimento de que fizemos o nosso melhor, dadas as circunstâncias. (How To Be A Stoic: Ancient Wisdom for Modern Living, Capítulo III,
Massimo Pigliucci)

A minha aparente apatia diante de certos aspectos não decorre da frieza, mas da aceitação de que há coisas que não estão sob minha responsabilidade, sendo o egoísmo alheio e a incapacidade de reconhecer que precisa de ajuda apenas algumas dessas coisas. Até podemos tomar alguns cuidados para manter um corpo saudável e socialmente atraente e/ou aceitável, mas temos controle, por exemplo, sobre a nossa genética? E sobre a nossa predisposição a doenças? Entendem onde eu quero chegar?

Percebem que, tendo isso em mente, fica mais fácil raciocinar antes de tomar atitudes? Logo, se até sobre o nosso corpo, que nos acompanha até o último suspiro, não temos o total controle, por que deveríamos ter sobre as ações alheias?

Você pode ser invencível, se você nunca entrar em um combate onde a vitória não está sob o seu poder. (The Enchiridion, p.23, Epicteto, 2014)

NÃO CONFUNDAMOS ACEITAÇÃO COM NEGAÇÃO DA REALIDADE

Não sei vocês, mas eu sou do tipo de pessoa que, quando aprende sobre algo novo, gosto de debater o assunto com alguém que esteja minimamente interessado naquilo. Sem a soberba ou aquele ar de superioridade característico a alguns, apenas na tentativa de assimilar o que foi aprendido, abrindo a mente para os prováveis questionamentos que venham a surgir. É tão bom ouvir as histórias de alguém empolgado com aquilo que faz.

Uma das afirmações mais recorrentes de quem ouviu falar sobre o Estoicismo superficialmente é de que agir de maneira estoica seria negar a realidade até o ponto de se desconectar das emoções, o que está longe de ser verdade. Como um bom nietzschiano que me tornei, seria contraditório para mim adotar um comportamento negacionista da minha realidade.

Ignorar as nossas emoções e buscar no mundo externo remédios para tentar enganá-las não torna ninguém forte, tampouco nos torna estoicos. Evitar reconhecer e enfrentar os nossos problemas não é Estoicismo. Quando fazemos isso só para fingir que somos fortes, nós não estamos resolvemos nossos problemas; e isso nos faz fracos. Quando apenas fingimos ser estoicos, na verdade, perdemos o domínio sobre as poucas coisas que podemos, de fato, controlar.

Se você deseja progredir, você deve se contentar em parecer um tolo ou simplório no que concerne aos assuntos externos. Saiba que não é fácil manter a sua mente em harmonia com a natureza e ao mesmo tempo manter o controle das coisas externas. Se você dá atenção a uma, você necessariamente tem de negligenciar a outra. (The Enchiridion, p.21, Epicteto, 2014)

Ao contrário do que muitos pensam, o verdadeiro estoico não liga o foda-se para a realidade, mas age com técnica e habilidade na hora de lidar com ela. Logo, subentende-se que podemos ser mais enérgicos em alguns aspectos e mais ponderados em outros; não é simplesmente dar a outra face perante as ofensas, tampouco sair por aí querendo acabar com as injustiças do mundo brigando com tudo e todos.

E vou além: sabendo que os principais pensadores do Estoicismo da Antiguidade eram bastante ativos — social e/ou politicamente — na Roma Antiga, a afirmação de que o estoico viveria em um mundo no qual a realidade não importaria cai totalmente por terra. Colocar o Estoicismo nessa caixinha é conveniente para quem não está disposto a ir além das aparências; e eu vou explicar o porquê dessa afirmação logo no parágrafo abaixo.

Sêneca foi professor de Nero, que o condenou à morte; Marco Aurélio foi um dos cinco imperadores romanos mais bem-sucedidos da História e nunca perdeu sequer uma guerra enquanto foi imperador. Epicteto, por sua vez, embora escravizado, escreveu duas das obras mais importantes da Filosofia: Enchiridion de Epicteto e as Diatribes, cujos ensinamentos se perpetuam há séculos, mesmo que alguns coachs fuleragem tenham se apropriado deles e deturpado os seus sentidos em benefício próprio pra vender cursos no Instagram.

Como se pode observar, nenhum dos indivíduos acima ligou o foda-se para a realidade. Não só não ligaram o foda-se para a realidade como perpetuaram os seus feitos através dos séculos. Que tipo de indivíduo conformado faz isso? Até onde sei, nenhum.

O QUE É, DE FATO, SER ESTOICO?

Para fugir da visão superficial de que o Estoicismo prega uma vida cuja negação da realidade é tida como princípio, é preciso compreender como os estoicos dividem as coisas:

1 — As boas, consideradas as virtudes;

2 — As más, consideradas os vícios;

3 — As indiferentestodas as outras que não se encaixam em boas ou más.

Os nossos impulsos, juízos e desejos podem ser bons ou maus, e nós podemos controlá-los, logo, estão sob a nossa responsabilidade; Todas as demais coisas seguem suas próprias leis e a elas devemos ser indiferentes; e é aqui que todos confundem as bolas sobre o que é ser indiferente.

Os materiais são indiferentes, mas o uso que fazemos deles não é uma questão de indiferença. Como, portanto, um homem deve manter a firmeza e a paz de espírito e, ao mesmo tempo, o espírito cuidadoso, não sendo imprudente nem negligente? (Epictetus : the discourses as reported by Arrian, the manual, and fragments, p.237, Epicteto, 1956.)

Ser indiferente, de acordo com Epicteto, é aceitar a natureza das coisas que não estão sob o nosso controle e, a partir daí, agir com cuidado e sem precipitações na hora de lidar com elas. Se a situação apresentada é desagradável e não é coisa sobre a qual temos qualquer arbítrio, foquemos na técnica e na habilidade de atravessá-la impassivelmente. A técnica e a habilidade, neste caso, são coisas nossas.

Imagine um jogador de dados: para ele, os números são indiferentes, os dados são indiferentes; como ele vai saber o que vai cair? Não vai saber; mas ele deve ser cuidadoso e hábil com os números que caírem: essa é a tarefa dele. Da mesma maneira, portanto, a principal tarefa da vida é: distinguir as situações e pesá-las umas contra as outras, dizendo a si mesmo: “não posso controlar os fatores externos; mas a escolha sobre o que fazer com seus os resultados está sob meu controle”. (Epictetus : the discourses as reported by Arrian, the manual, and fragments, p.237–238, Epicteto, 1956.)

Retornando às problematizações sobre a falta de respeito de alguns com a pandemia; ou sobre quem se deixa levar pelas incertezas do futuro e não consegue manter a calma, é possível caracterizar tais opiniões e ações como indiferentes, uma vez que não tenho como fazer nada para torná-las favoráveis a mim. Portanto, qual deve ser a minha atitude diante delas? Observá-las cuidadosamente, ponderando o que me afeta e não me afeta, e agir com as técnicas e a habilidade adequadas para superá-las.

No caso específico, utilizar argumentos baseados em dados técnicos e científicos sobre os riscos de se promover aglomerações mesmo que estejamos vacinados e tentar dizer aos angustiados que tudo isso vai passar, aconselhando-os a buscarem ajuda profissional deveria ser suficiente e estaria sob a minha responsabilidade.

A maneira com a qual eles recebem essas informações e sugestões, muitas vezes negando-as e se chateando com minhas opiniões, todavia, não é coisa minha. E o fato de não ligar pra essas reações é o que me faz parecer, para alguns, alguém frio. Também não ligo. Ao perceber que o diálogo não está progredindo, portanto, o meu comportamento deve ser seguir o conselho de Epicteto sobre “não entrar em um combate em que não há chances de se sair vitorioso”.

É algo meio que preferir viver em paz a estar certo, sabe? Enquanto estive sem emprego fixo e sem salário fixo há por anos e meus amigos e conhecidos não sofriam com esse mal e todas as minhas apostas arriscadas pra vencer na vida deram errado, quais deveriam ser as minhas ações para cada uma dessas situações?

Se você imagina aquilo que, naturalmente, pertence a uma outra pessoa como propriedade sua, então você estará prejudicado. (The Enchiridion, p.17, Epicteto, 2014)

Aprendi, a duras penas, é claro, aceitar a realidade como ela se apresentava a mim. Aceitar sim, mas não simplesmente me conformar. A partir do momento que eu aceitei a minha realidade, consegui raciocinar a respeito de como iria lidar com ela e resolver as questões que tinham se aparecido no caminho.

Mas se você pensa que somente aquilo que lhe é próprio é o que lhe pertence; e aquilo que é próprio de outra pessoa pertence somente a ela, ninguém jamais irá colocar imposições ou limitações sobre você. Você não irá culpar a ninguém, não fará nada contra a sua própria vontade, não terá nenhum inimigo, pois nenhum mal pode alcançá-lo. (The Enchiridion, p.17, Epicteto, 2014)

Tinha eu, Gustavo Guedes, poder e controle sobre a condição alheia? Não. Logo, ela não me pertencia; tinha eu poder sobre o fato de eu receber diversos nãos e encontrar as portas fechadas quando procurava emprego? Não. O que estava ao meu alcance naquele momento? Continuar estudando, procurando e, por fim, avaliando maneiras de abrir por conta própria os caminhos.

AGORA EU VOU CANTAR PROS MISERÁVEIS, PRA ESSAS SEMENTES MAL PLANTADAS

Quando decidi me abraçar à Filosofia e ao Estoicismo para lidar com a minha realidade e traçar os meus objetivos de vida, é óbvio que também tive de lidar com o julgamento de terceiros no que concerne a essa escolha. Julgar é característico do ser humano e a gente nada pode fazer para mudar isso.

Se você se volta sinceramente à Filosofia, prepare-se desde o início para que zombem e riam de você: “aqui está ele novamente, se fazendo passar por filósofo. Onde é que ele adquiriu essa aparência orgulhosa? ”Agora, por sua parte, não tenha uma aparência arrogante, mas se prenda àquilo que lhe parece melhor. Lembre-se de que, se você for persistente, essas mesmas pessoas que, a princípio, te ridicularizaram irão, depois, te admirar. Mas se você for conquistado por eles, você será ridicularizado duas vezes. (The Enchiridion, p.24, Epicteto, 2014)

As opiniões alheias sobre mim não estão sob o meu controle, muito menos daquelas pessoas que ousam em me definir ou me julgar sem sequer me conhecerem minimamente. “Gustavo Guedes é isso, Gustavo Guedes é aquilo; Gustavo Guedes é um cuzão arrogante!”

Muitas pessoas tentam me definir pelo que escrevo, pelo que posto nos stories do Instagram e por conversas superficiais no WhatsApp, mesmo que essas plataformas representem quase nada de quem sou de verdade. Eu sou muitas coisas e elas não cabem no Instagram, no WhatsApp ou neste site.

A maneira como eu assimilo esses feedbacks, todavia, é de minha total responsabilidade. Depende de mim, Gustavo Guedes, — e de mais ninguém — utilizá-las ao meu favor ou simplesmente ignorá-las. Ser considerado louco, inconsequente e arrogante por terceiros, a princípio, pode ser desagradável.

Porém, qual deve ser o meu comportamento diante de tais julgamentos?

Em primeiro lugar, manter-se indiferente; em seguida, não agir feito louco, inconsequente e/ou arrogante. Dessa forma, o acusador não terá como sustentar suas teses e o cerne de suas maledicências por si só se destruirá. Eu só me preocupo com a minha reputação quando a ação nociva de terceiros faz com que eu perca oportunidades profissionais devido a calúnias e difamações. Mas, na maior parte do tempo, o que pensam de mim não paga minhas contas e eu simplesmente não ligo.

Lembre-se que más palavras ou golpes em si próprios não representam uma ofensa, mas a visão que consideramos essas coisas como tal. Quando, portanto, alguém te provocar, tenha certeza de que são as opiniões de quem está te provocando. Tente, portanto, em primeiro lugar, não ficar perplexo com as impressões que têm de você. Pois, se você ganha tempo e descansa, mais facilmente você se controlará. (The Enchiridion, p.23, Epicteto, 2014)

Manter um pensamento estoico tem sido, para mim, uma terapia melhor que qualquer outra, embora reconheça que não precisa ser a única. Considero mais válidas, todavia, quaisquer estratégias que, de maneira responsável e engrandecedora, tenham como foco a necessidade de se compreender que há coisas sobre as quais não temos qualquer poder e, consequentemente, não podemos evitar, restando a nós aceitar e agir habilidosamente para lidar com todas as situações externas às quais estamos vulneráveis.

Foto: Ilustração/Pixabay

Siga o Por Dentro do RN também no Instagram e mantenha-se informado.

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, por Astronomia, por Filosofia, pela boa política, por serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Siga Gustavo Guedes no Instagram: @gustavoguedesv
Siga Gustavo Guedes no Twitter: @gstvgds

Senador Jean e Fátima Bezerra eleições de 2022

Intrigas da oposição tentam ofuscar a força de Jean no Senado Federal em 2022, por Gustavo Guedes

Gustavo Guedes escreve: como um bom botafoguense e fã do futebol, Jean sabe que camisa não ganha jogo; mas que também faz um ótimo treino.

Em se tratando da falta de opositores que consigam, de fato, ameaçarem a reeleição da governadora Fátima Bezerra nas eleições do próximo ano, um recente artigo postado pela Agência Saiba Mais atentou para o fato de que, na verdade, a disputa mais difícil ocorrerá para o Senado Federal.

Enquanto Fátima segue influente desde 2014, quando conseguiu arrancar o Rio Grande do Norte das mãos de Henrique Eduardo Alves e, ao mesmo tempo, entregou o Estado para Robinson Faria, atitude esta pela qual deve se arrepender grandiosamente, o senador Jean, que assumiu a vaga de Fátima no Senado, vem despontando como o grande nome do PT para manter a cadeira em 2022, agora com todos os méritos.

Em entrevista ao programa Balbúrdia, do portal citado acima, o senador deixou claro que não tem medo do que está por vir. De acordo com o senador Jean, “não há motivos para o PT rifar, agora, a vaga para disputar essa eleição do Senado”, diz Jean, que embora deixar claro que tem vontade de disputar o pleito, também afirma que não tem projeto pessoal de poder, apenas por vaidade.

Sobre isso, o senador Jean é categórico, “meu projeto, desde 2013, é servir o partido. E acho que estou honrando o mandato, mantendo as bandeiras de Fátima e acrescentando as minhas”, reforça.

O parlamentar ainda segue certo consenso que alguns analistas políticos (falo dos sérios, não aqueles pagos para inventar fake news e tentam desestabilizar a gestão petista, ok?) têm seguido no Rio Grande do Norte, o de que Fátima Bezerra vem fazendo uma boa gestão e que, por causa disso, não apareceu ninguém à altura (e será que vai aparecer?) de arrancar dela uma reeleição que, até certo ponto, parece estar certa.

Sobre ser considerado fraco por seus opositores, o senador Jean diz que não tem medo dessa pecha e dá a entender que segue bem o ditado de que “o jogo só acaba quando o juiz apita”. “A oposição acha que disputar a cadeira do Senado é mais fácil. Mas aqui não tem fraquinho, não. Vamos mostrar que a gente merece e honra essa cadeira ao ponto de disputá-la”, dispara o senador Jean.

A confiança do senador tem uma razão óbvia, sobre a qual irei falar após deixar claro que, até este que vos escreve também não sabia muito sobre o trabalho e a vida do senador antes de ele assumir a vaga deixada por Fátima em 2018. Assim como me surpreendeu, por que não pode (e acho que vai) surpreender positivamente aqueles que não sabiam quem ele era antes de 2018? Bastou a campanha na última eleição para a Prefeitura para que eu visse que se tratava de um parlamentar íntegro e com bons projetos para o Rio Grande do Norte e para os brasileiros.

Como eu ia dizendo, a confiança do senador não é fruto de uma emoção metafísica, é baseada no trabalho que vem desempenhando no Senado, apresentando e tendo seus Projetos de Lei aprovados, como você mesmo pode observar neste link; além de estar viajando pelo Estado e despontando como um nome a ser considerado pelos potiguares, assim como fez em 2020, ao sair pelas ruas da capital angariando os votos que o deixaram na segunda posição no último pleito. Para quem diria que não iria ir longe, é um bom retrospecto, não?

Sobre os adversários do senador Jean

Em um estado acostumado a eleger os governos petistas desde muito tempo, o senador Jean, na visão deste que vos escreve, larga com uma pequena vantagem à frente de Rogério Marinho e Fábio Faria, ambos ministros do desgoverno Bolsonaro, que na eleição da qual saiu vencedor teve apenas 36,59% dos votos válidos no Rio Grande do Norte. É fato que o nordestino não se deixará levar por esse ‘interesse’ repentino do presidente no Nordeste, região à qual ele já atribuiu alguns preconceitos há não muito tempo.

Além disso, é ainda mais certo que ninguém comprará a candidatura de Rogério Marinho, que ganhou uma sobrevida política após se aliar ao bolsonarismo; muito menos a de Fábio Faria, cujos feitos envolvem a bajulação vergonhosa do autoritarismo de Bolsonaro e a vida pregressa como o “deputado que mais casou e se envolveu com famosas”.

Perguntado sobre quem gostaria de enfrentar, o senador Jean é categórico: “tanto faz, não quero nem saber. Eu quero é estar desse lado disputando com um dos dois. Agora, essa briga dos dois lá, é o seguinte, pega a pipoca e fica assistindo”, conclui.

Como um bom botafoguense e fã do futebol, Jean sabe que camisa não ganha jogo. E, como sempre gostou de falar pouco e agir muito, tem feito um ótimo trabalho costurando apoios e desfazendo, um a um, os ataques gratuitos que costuma sofrer por parte de quem se veste do antipetismo irracional para atacá-lo gratuitamente.

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, por Astronomia, pela boa Política, por serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Instagram: @gustavoguedesv
Twitter: @gstvgds

Leia mais sobre o senador Jean e sua produção parlamentar:

Bálburdia (Biólogo Henrique)

Biólogo Henrique: como a balbúrdia de um professor no YouTube vem ajudando a salvar serpentes no Brasil

Conheça o canal do biólogo Henrique, um especialista em serpentes que desmistifica os répteis para o público leigo de uma maneira simples e didática.

Fosseta loreal, órgão de Jacobson, soro antiofídico, dentição solenóglifa, opistóglifa etc. Arrisco dizer que você, caro leitor, já tenha se deparado com esses termos alguma vez em sua vida escolar; e que, provavelmente, as obrigações com outras disciplinas, atreladas à falta de aulas mais dinâmicas por uma série de fatores, tenham contribuído para essa sensação de estranhamento que você deve ter sentido ao ler o primeiro período deste texto.

Adianto, antes de tudo, que estou longe de ser especialista em serpentes. Estou mais para um jornalista curioso que, no afã de encontrar alguma atividade menos entediante para fazer na pandemia, resolveu aprender um pouco sobre esses bichos fenomenais.

O início de tudo

E eu me lembro como se fosse hoje: despretensiosamente, no início do ano passado, comecei a assistir a alguns canais que abordavam a Herpetologia (área da Biologia que se dedica aos répteis e aos anfíbios) de maneira, muitas vezes, amadora; mas com o didatismo suficiente para me fazer voltar a assistir aos vídeos outras vezes. Foi o caso dos canais de “Haroldo Bauer, o Rei das Serpentes” e do “Comédia Selvagem”, este último apresentado pelos figuraças Charles e Tiringa. Pegadinhas e zoeiras à parte, que todo nordestino que se preza conhece bem, duas coisas me chamaram atenção:

A primeira é o fato de nenhum dos apresentadores possuírem formação acadêmica para falar (tão bem) sobre serpentes; e a segunda, talvez a mais importante, é a função social que esses dois canais exercem sem perder o bom humor e, o melhor de tudo, longe da linguagem difícil e acessível apenas aos acadêmicos.

Haroldo no texto do biólogo Henrique
Foto: Reprodução/Rede Record

Os resultados são tão positivos que a diminuição da matança de serpentes por parte da população sertaneja se tornou um fato comprovado; basta ver os diversos depoimentos de inscritos que, por agora possuírem o conhecimento, optam em deixar os répteis vivos e contribuem para a preservação ambiental, conscientizando as pessoas sobre o papel das serpentes na natureza.

Charles no canal do biólogo henrique
Foto: Reprodução/Canal Comédia Selvagem

Por falta de informação e devido às tradições transmitidas de geração em geração, muitos desses animais morriam sem nem sequer oferecerem ameaça à população das áreas em que o convívio entre seres humanos e serpentes é comum, como o sertão nordestino e outras regiões distantes das grandes cidades.

Quando o popular e o erudito trabalham juntos

Recentemente, uma criança do estado no qual nasci e onde moro até hoje (o Rio Grande do Norte) foi picada, ao que parece, por uma serpente jararaca quatro vezes e sobreviveu. Embora eu seja alguém da capital e nunca tenha passado por uma situação parecida, fiquei impressionado com a resistência do garoto às picadas da cobra que mais causa acidentes no país. E é aqui, caro leitor, que o texto entra no assunto principal.

Por mais que eu considere importante a simplificação de temas complexos com o intuito de facilitar a compreensão por parte do público leigo, comigo incluso, as palavras de especialistas e o saber científico também têm a sua importância e o seu espaço no YouTube; e a transmissão desse conhecimento não precisa, necessariamente, ser chato e monótono.

Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Além de Charles e Tiringa, ou ainda do Rei das Serpentes, que permitiram que os seus inscritos tivessem outra visão a respeito do sertão nordestino e pernambucano, também passei a acompanhar biólogos de formação no YouTube.

Entre os vários que eu acompanho, tem um que eu gosto bastante e resolvi apresentar a vocês; e a minha escolha se deu por duas razões: A primeira pela maneira didática (ainda que técnica) que utiliza para divulgar a Herpetologia na Internet; e a segunda por possuir valores sociopolíticos semelhantes aos meus, sempre em defesa da Ciência, contra a desinformação e o obscurantismo científico; sem medo de se posicionar contra o desmonte que as instituições públicas vêm sofrendo nos últimos anos.

Conheça o canal ‘Biólogo Henrique, o biólogo das cobras’

Assisti tanto aos vídeos do Comédia Selvagem e do Haroldo Bauer que o YouTube começou a me indicar outros canais que falavam sobre serpentes, me levando direto para o canal do biólogo Henrique, de quem eu me tornei inscrito desde então.

O primeiro vídeo ao qual assisti, caso eu ainda esteja bem da memória, foi o de um homem que faleceu na Bahia após apertar uma cobra coral com as mãos. O rapaz, que estava alcoolizado, acreditava que o perigo da serpente estava “no ferrão” que ela teria na cauda e acabou morrendo após ser mordido (sim, a cobra coral morde, não pica) em uma das mãos.

Uma das coisas que aprendi nesse vídeo foi que, em primeiro lugar, cobras corais não têm ferrão; e, por fim, que tínhamos acabado de assistir a um caso raro no qual uma pessoa sofre um acidente com uma micrurus ibiboboca, nome científico da espécie de cobra coral mais comum no Nordeste do Brasil.

As serpentes do gênero micrurus, no Brasil, são as responsáveis pelo menor índice de acidentes no País, ainda que detenham o título de serpentes mais peçonhentas de todos os grupos de serpentes peçonhentas que ocorrem no Brasil.

Em vídeos sobre as corais que assisti no canal do biólogo Henrique, aprendi que algumas das razões que levam ao baixo índice de acidentes com as corais no Brasil se dão pelo fato dessas serpentes não realizarem uma picada verdadeira, uma vez que precisam morder seus predadores e possuem uma boca muito pequena.

Texto sobre o biólogo Henrique
Coral verdadeira (Micrurus ibiboboca)
Foto: Igor Roberto

Esses fatores, quando somados, demandam das serpentes do gênero micrurus um esforço um pouco maior que o esforço despendido por jararacas e cascavéis para que consigam inocular sua peçonha em seus predadores. Além disso, a quantidade pequena (cerca de 1%) de acidentes com esse tipo de serpente pode ser explicada pelo hábito que as cobras corais têm de viver escondidas embaixo de folhas secas e de troncos de árvores.

Quando comparadas com as jararacas (do gênero Bothrops) ou com a cascavel encontrada no Brasil (Crotalus durissus), as serpentes do gênero micrurus são relativamente mais dóceis, uma vez que não dão “botes” quando se sentem ameaçadas por qualquer razão. Mas isso não quer dizer, caro leitor, que você deva sair por aí pegando em cobras corais, pois há um risco enorme envolvido e um acidente com esses bichos pode ser fatal.

Eu já sabia que a cobra coral possuía a peçonha mais letal das serpentes Brasil, mas não fazia a mínima ideia de que o risco de ser mordido por uma era menor que o de ser picado por uma jararaca (a líder em acidentes) ou uma cascavel. O detalhe é que eu não aprendi nada disso na escola.

Das salas de aula para a bálburdia no YouTube: quem é o biólogo Henrique?

Embora acompanhe o biólogo Henrique no YouTube quase que diariamente, nunca havia tido a oportunidade de entrevistá-lo. Ultimamente, como vocês podem testemunhar, vinha me dedicando a entrevistas relacionadas à Astronomia, por ser uma área que vem me despertando mais dúvidas que as outras e devido ao fato de coisas interessantes estarem acontecendo em Marte e, muito em breve, na Lua.

Tudo mudou na última semana. Com o acidente com o bebê em São José do Seridó, aqui no Rio Grande do Norte, vi a oportunidade de pedir explicações sobre o caso para o biólogo e aproveitei para pedir uma entrevista exclusiva a ele, que aceitou prontamente o contato e ainda gravou um vídeo explicando o que pode ter acontecido com o bebê.

Se quiser conhecer o trabalho do biólogo Henrique e compreender o que aconteceu com o bebê, assista ao vídeo abaixo. Ele menciona o Por Dentro do RN e eu fiquei muito feliz por isso.

Henrique Abrahão Charles, também conhecido como o biólogo Henrique, nasceu na cidade de Nova Friburgo, no sudeste do estado do Rio de Janeiro e dedica a sua vida profissional (e por que não pessoal?) à Biologia; e, embora um herpetólogo também se dedique aos anfíbios, a paixão do biólogo Henrique parece ser mesmo as serpentes.

A minha hipótese foi confirmada quando, em meu contato inicial para começar a escrever este texto, perguntei sobre a sua formação acadêmica e sobre suas atividades profissionais e recebi a seguinte resposta:

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestrado no Comportamento Predatório de Serpentes Boidaes (anacondas, sucuris, serpentes arco-íris e jiboias) de Diferentes Habitats na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Além disso, Henrique é professor e já deu aulas de Biologia na rede pública do estado fluminense.

“Ensinar Ciência é um dom, mas é muito difícil ensinar Ciência”, diz o biólogo Henrique

Como sempre costumo perguntar aos meus entrevistados cientistas e/ou divulgadores científicos, perguntei ao Henrique sobre sua opinião a respeito do ensino da Ciência nas escolas e como os professores poderiam estimular os alunos a darem mais valor à área. “Para você ensinar Ciência você precisa estar completamente apaixonado pela Ciência”, diz.

O biólogo e professor ainda aponta a superlotação de salas de aula como um dos entraves para o ensino adequado da Ciência nas escolas, que chegam a ter mais de 40 alunos por sala de aula; o que faz com que os professores fiquem sobrecarregados e, sob o meu ponto de vista, acaba atrapalhando qualquer tentativa de dar aulas mais dinâmicas e interessantes.

Biólogo Henrique ensinando
Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

“Nós temos de ser não apenas educadores; muitas vezes, nós temos de agir como pais dos alunos”, continua Henrique, que se emociona ao contar para este repórter as histórias de alguns alunos para os quais já deu aula enquanto era professor na rede pública. “Muitas vezes, tive de me preocupar se os meus alunos estavam comendo ou não; além disso, cansei de ver vários deles indo para a escola com problemas familiares de toda natureza. Então a gente acaba fazendo aquilo que a gente consegue para entregar uma aula interessante aos alunos”, conclui.

Confesso que as respostas do professor me fizeram refletir sobre as minhas críticas, que agora enxergo ser injustas em certos casos, ao modo de se ensinar Ciência nas escolas. Por ter estudado na rede particular durante a minha vida toda, nunca parei para pensar (não a fundo) na situação dos alunos de escola pública que, por várias razões internas e externas ao ambiente escolar, têm o seu desempenho prejudicado não só nas Ciências, sejam elas naturais ou exatas, mas em qualquer outra disciplina. “O problema é estrutural”, diz Henrique.

Sobre a criação do canal ‘Biólogo Henrique, o biólogo das cobras’ no YouTube

Quando perguntado sobre as motivações que o fizeram abrir um canal no YouTube e “dar a cara pra bater” em uma rede que, ao mesmo tempo em que pode ser maravilhosa, também pode ser tóxica na mesma medida, Henrique diz que a ideia veio após vários pedidos de ex-alunos e de pessoas o estimulando a gravar as coisas que ensinava. A carreira de professor entrou em um hiato depois que Henrique abandonou as salas de aula para se dedicar ao Parque Ecológico da Restinga do Barreto, localizado no município fluminense de Macaé, às margens da BR-106.

Biólogo Henrique no Parque
Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Como subsecretário do Meio Ambiente de Macaé, o herpetólogo ajudou a tirar o maior parque urbano de restinga do mundo do papel e, embora não exerça mais nenhum cargo de chefia do local, ainda continua sendo consultor e biólogo do parque.

Em relação à motivação que teve para dar início à sua jornada no YouTube, o entrevistado diz que ela veio após o apelo de ex-alunos e de visitantes do parque, que pediam para que ele gravasse tudo aquilo que ele estava ensinando para aqueles pequenos grupos que apareciam no local. “Grava isso, cara; grava esse conhecimento que você passou. A gente viu aqui, mas outras pessoas também precisam ver”, revela Henrique sobre os estímulos que o levaram a se tornar conhecido no YouTube.

Relação com os haters e críticos

Mesmo com todos os avanços e com uma crescente de seguidores e apoiadores no canal, nada é perfeito. Quando o assunto são os haters, o biólogo afirma que há uma quantidade ínfima deles; e que não chegam a incomodar. Todavia, o biólogo diz que é recorrente alguns inscritos tentando refutá-lo em seus vídeos por meio do senso comum e do disse me disse, ainda que o seu conteúdo diga o contrário de maneira embasada.

“Por exemplo, quando eu digo que apenas a Ciência tem a cura para acidentes que envolvem picada de serpentes, algumas pessoas costumam dizer que existem chás milagrosos ou uma receita da vovó capazes de neutralizar as toxinas no corpo humano”, conta. Com o tempo, o herpetólogo diz que essas pessoas vão aprendendo e passam a compreender as coisas de maneira científica e menos dogmática. “É prazeroso trabalhar o medo das pessoas a um nível em que elas passem a achar as serpentes fascinantes”, diz.

Foto: Reprodução/YouTube

Em relação ao medo, ele conta que é uma coisa normal do ser humano e uma marca evolutiva da nossa espécie desde a época das cavernas, na qual animais peçonhentos já causavam problemas para o Homem. O temor pelas serpentes também é justificado, de acordo com o professor, pela quantidade de acidentes ofídicos que ocorrem no Brasil por ano, cerca de 30 mil.

“Morrem por volta de 150 pessoas por picada de cobras no País por ano”, afirma. No mundo, esse número chega a 4.000.000 de casos por ano; e morrem entre 80 e 140 mil pessoas. Com tantos dados assustadores, fica fácil descobrir as razões pelas quais o medo é completamente justificável.

“As serpentes são extremamente importantes na natureza para a regulação ambiental”.

Como em todas as coisas na natureza, a razão pela qual as serpentes existem é maior que qualquer medo que elas possam causar: equilíbrio ambiental.

Sobre a importância que esses répteis têm para o equilíbrio ecológico, o biólogo Henrique diz que, “se fôssemos fazer um cálculo linear, estima-se que uma serpente, ao longo dos seus 20 anos, poderia evitar o nascimento de dois milhões de roedores. Elas são extremamente importantes pois auxiliam na regulação ambiental”.

O herpetólogo continua dizendo que “também criou o canal com o objetivo de transformar esse medo das pessoas em fascínio”, por meio da conscientização sobre “papel que as serpentes desempenham na natureza”.

É visível perceber a felicidade que o professor tem ao concluir que se sente muito satisfeito por estar atingindo esse objetivo dia após dia. “Após o início do meu trabalho no canal, cansei de ver pessoas dizendo que não matam mais os animais porque entendem a importância deles”, comemora.

“O potencial biotecnológico de uma jararaca é capaz de salvar milhares de pessoas ao redor do mundo”

Sobre a importância da peçonha de serpentes para a Medicina, confesso a vocês que a primeira vez que eu ouvi sobre o fato foi no canal do Haroldo Bauer. Na ocasião, descobri que o farmacologista brasileiro Sérgio Henrique Ferreira foi o responsável por isolar uma substância no veneno da jararaca capaz de ajudar pessoas com hipertensão.

Sérgio Henrique Ferreira
Foto: Reprodção/Arquivo/SBED

Por essa razão, o cientista foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências em 29 de março de 1984 e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no período de 1997 a 1999, tendo recebido da entidade o título de presidente de honra. Hoje em dia, pessoas que sofrem com a pressão alta e utilizam o Captopril para controlá-la devem, e muito, às cobras jararacas e ao cientista por ter descoberto e isolado essa substância para a fabricação do medicamento.

Sobre os colegas e a fama de rei da balbúrdia: perguntei ao biólogo Henrique se ele sofreu preconceito por parte de seus pares da Academia

Quando perguntei ao entrevistado sobre a relação dele com seus colegas da Academia, ele me respondeu que sentiu preconceito logo no início do canal, mas por parte de outros divulgadores e/ou cientistas que trabalham no mesmo nicho de conteúdo. Para quem ainda não teve a oportunidade de ver, Henrique tornou-se conhecido como o “Rei da Balbúrdia” após os ataques de um certo ex-ministro da Educação do governo Bolsonaro (a quem não vou dar Ibope) às instituições públicas, se referindo a elas como espaços de “balbúrdia e arruaça”.

Vale salientar que ataques desse nível são comuns tanto para a alta cúpula de bolsonaristas convictos, que costumam circundar o presidente, quanto para o apoiador mais “baixo clero” que possa existir. Em seus vídeos, como uma reação irônica à fala do ex-ministro, o biólogo Henrique passou a utilizar a “máscara da balbúrdia” em homenagem aos trabalhos de pesquisa realizados pelas instituições públicas do Brasil e para, de maneira bem-humorada, divulgar a Ciência.

Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Henrique diz que até mesmo os colegas da Academia compreendem a necessidade da máscara para atrair a atenção da “criançada que assiste ao canal, incluindo autistas, que passam a se interessar pelo conteúdo em decorrência da maneira descontraída que os vídeos são gravados”, diz o professor.

Ainda de acordo com o biólogo, “uma vez que o conteúdo abordado é de pós-graduação, no âmbito de mestrado e até mesmo de doutorado, é comum que a Academia também seja atraída ao canal”. Se ainda restavam dúvidas sobre a aceitação do canal do biólogo Henrique pelos biólogos, o entrevistado conta que muitos pesquisadores do Butantan não só aprovam e apoiam o trabalho dele no YouTube como também participam com dicas, entrevistas ou simplesmente como espectadores.

Política e Ciência se misturam? Para o biólogo Henrique, se misturam completamente

Uma das questões mais controversas para alguns divulgadores científicos que eu sigo, e não só da área da Biologia, é a certa ojeriza que sentem quando alguém toca no assunto Política. Quando não estão abstendo de opiniões a esse respeito em suas redes, muitos deles simplesmente partem para o senso comum de que “políticos são todos iguais” e que “nada vai mudar” Como falei logo no início deste texto, uma das coisas que me fizeram seguir o biólogo Henrique no YouTube foi o fato de me identificar com alguns de seus posicionamentos.

Quando perguntei sobre a relação entre Política e Ciência, Henrique foi categórico ao afirmar que “a divulgação científica é político-ativista”, isto é, o indivíduo faz Ciência e defende a Ciência porque acredita no que está defendendo. Na visão deste que vos escreve, o fato de o professor ter estudado em universidade pública e ter participado da administração de um parque público tenha o ajudado a enxergar a importância das políticas públicas para a Ciência no Brasil, mas essa visão ainda não é tão clara para muitos divulgadores, infelizmente.

Biólogo Henrique segura uma iguana
Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

“Ciência e Política se misturam completamente. A gente vem de uma época de ditadura na qual você não podia falar sobre Política que seria perseguido”, diz o professor. De acordo com o herpetólogo, foi a partir daí que se criou essa ideia de que não devemos discutir sobre o tema.

“A Ciência segue uma diretriz política e não é, de maneira nenhuma, neutra”, continua Henrique. Para ele, a Ciência funciona tanto para o bem quanto para o mal; e pode servir tanto para os interesses públicos quanto para os privados; é tudo questão de que sejam traçadas diretrizes capazes de nortear a Ciência.

“O ofidismo, por exemplo, é uma doença tropical negligenciada. Todos os avanços científicos ocorreram por causa de investimento público; graças ao médico Vital Brasil e ao Butantan”, destaca. Para a iniciativa privada, todavia, não seria lucrativo produzir e vender soro antiofídico para as pessoas porque “pobre não tem dinheiro pra comprar” e, como se sabe, o mercado vive essencialmente de lucro.

“É preciso ter uma bancada da Ciência na política brasileira”

Em contraposição às bancadas da bala, do boi e da bíblia; ou à bancada recente dos negacionistas da Ciência, o biólogo Henrique ainda é defensor da mobilização dos cientistas brasileiros para se lançarem no cenário político e formarem a “bancada da Ciência”.

Dessa forma, de acordo com o especialista em serpentes, uma bancada formada por homens e mulheres da Ciência poderia ajudar na formulação de diretrizes que incentivassem à área científica e ajudassem e combater de frente essa “idade média” que vem tomando conta das discussões políticas nos últimos anos.

“Divulgador que ignora isso não terá, depois, o que divulgar. Não dá para ficar em cima do muro enquanto a anticiência levou a óbito mais de meio milhão de pessoas no Brasil. E eu não irei ficar nessa covardia”, conclui.

O canal do “Biólogo das Cobras” é a prova de que dá para ser técnico sem ser chato; e os resultados provam isso

Com mais de 300 mil seguidores no YouTube e cerca de 65 milhões de visualizações, o canal do biólogo Henrique é uma prova prática de que é possível divulgar a Ciência na Internet sem ser chato ou monótono.

O fato de o obscurantismo científico e o negacionismo estarem em alta, atrelado à dificuldade que os canais de Ciência no YouTube têm de crescer, torna importante dar destaque ao sucesso do canal do “Biólogo das Cobras”, que se tornou, seguramente, o maior canal do mundo (de estudo) da fauna ofídica.

Além disso, o biólogo ainda administra a maior página do mundo de divulgação da herpetofauna, em Língua Portuguesa, do Facebook. É claro que os números, isoladamente, não querem dizer muita coisa. Mas, no caso acima, posso garantir que a qualidade da audiência também traz qualidade ao conteúdo do canal.

Foto: Reprodução/Cedida pelo entrevistado

Em nome dos leitores do Por Dentro do RN e de todos os interessados por Ciência que conheceram um pouco mais sobre a Herpetologia e sobre o canal, gostaria de agradecer ao biólogo Henrique pela atenção dispensada a este repórter.

Também quero revelar, publicamente, que a divulgação dessa área no YouTube me ajudou a aprender que uma cobra peçonhenta não tem “quatro ventas”, mas sim um órgão chamado de fosseta loreal (exceto as da família dos Elapídeos) o qual utiliza para detectar as variações de temperatura do ambiente e auxiliar na hora da alimentação e da defesa de predadores; e me ajudou, também, a ficar fascinado por esses bichos tão mal compreendidos quanto as serpentes.

No Brasil, das 370 espécies de serpentes catalogadas, apenas 55 são consideradas “de importância médica” e podem causar acidentes graves; ou seja, quando você mata uma serpente, há grandes chances de estar tirando a vida de uma que nem sequer seria um risco pra você.

Foto: Reprodução/Facebook/Hora da Ciência

E tem outro fato importante: todas essas 55 espécies estão inclusas em apenas quatro gêneros. São eles: o grupo das jararacas (Bothrops), o das cascavéis (Crotalus), o das corais (Micrurus) e o das surucucus (Lachesis); que possuem características marcantes capazes de nos fazer ligar o alerta e deixá-las em paz, no máximo desviando do seu caminho e/ou pedindo ajuda a alguém.

Sendo assim, deixo um apelo a você, caro leitor: viu uma cobra por perto? Não mate. O fato de tê-la enxergado já garante que você terá cautela e não se aproximará ao ponto de o encontro se tornar perigoso. Diferente do que diz o dito popular, cobras não correm atrás das pessoas a fim de picá-las.

Até a próxima e viva a balbúrdia!

Siga o Por Dentro do RN também no Instagram e mantenha-se informado.

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, por Astronomia, serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Instagram: @gustavoguedesv
Twitter: @gstvgds

Estrelas Mercúrio Retrógrado

Mercúrio retrógrado: saiba por que o pobre planeta NÃO tem culpa pelos nossos problemas

Sobre como vieses de confirmação e retrospectiva nos fazem crer em Astrologia e que o suposto Mercúrio retrógrado explica nossas desventuras.

Ao escrever esse texto pela primeira vez, eu estava passando por uma das piores fases da minha vida e os motivos não cabem por aqui, pelo menos não até agora. Entre a primeira versão e esta versão do artigo que você está lendo agora, caro leitor, foram-se exatamente 487 dias; ou um ano e quatro meses. Esse pequeno “disclaimer” inicial tem o simples objetivo de situar o leitor em um tempo que, conforme eu falei acima, não condiz mais com a realidade; foi muita água rolando debaixo da ponte.

As lições aprendidas no período de conturbações e de ansiedade fora do controle, por outro lado, são perpétuas e me acompanharão para sempre; e me ajudarão a lidar com os próximos baques, e a evitar procurar em seres extraordinários ou doutrinas metafísicas e irracionais a explicação e os culpados para as tragédias pessoais que resolvam aparecer para mim no futuro. Por essa razão, avaliei que seria pertinente dar uma adaptada no texto e publicá-lo novamente, agora neste canal; para que todos possam ler. Vamos ao que interessa, né? Vamos ao bendito do Mercúrio retrógrado.

O meu primeiro contato com o termo Mercúrio retrógrado

Quem me acompanhou no final de 2019 até meados de março de 2020, percebeu o rebuliço pelo qual eu estava passando naquela época. Os efeitos psicológicos do fim de um relacionamento de oito anos, os problemas financeiros inerentes a qualquer membro da classe média brasileira e os conflitos familiares deram o tom na minha vida nesse ínterim. E o que essas três áreas têm em comum? É simples: são áreas adoradas pela astrologia e por quem atribui a ela um papel decisivo no comportamento dos seres humanos.

Não costumo explicar a intenção dos meus textos, porém, abro uma exceção e deixo claro que o meu objetivo não é criar treta com quem se sente melhor com a leitura de mapas astrais ou com quem, intimamente, se pauta na posição das estrelas para tomar decisões. O gosto particular de cada um não é problema meu e nunca será.

Se o problema fosse apenas com o tal do Mercúrio retrógrado, seria o menor dos problemas. O meu incômodo, se é que posso chamar de incômodo, é direcionado a quem busca justificar suas ações mundanas culpando os astros: ora, a culpa não é das estrelas. Sabendo dos perrengues expostos por mim naquela época, para um grupo seleto de leitores e escritos sem qualquer filtro, recebi vários e-mails e estava próximo de pessoas que levavam ao extremo temas como astrologia, tarô etc, etc, etc.

Mercúrio Retrógrado
Foto: Reprodução/Internet

No último Carnaval que aproveitei antes da pandemia, ainda em 2020, durante o meu exílio em uma casa de praia com algumas pessoas e com uma crush do Tinder, fui apresentado ao termo que dá titulo a esse tópico: Mercúrio retrógrado; e também ao conceito de inferno astral. Na hora, fiquei pensando, onde é que eu estou? Mas resolvi deixar a conversa fluir para ver as conclusões que eu tiraria com aquilo tudo. Não custava nada, custava? Há gente que faz coisa pior no Carnaval, vamos concordar.

Como jornalista e curioso, resolvi tentar entender os porquês que tornam Mercúrio retrógrado, o que o planeta fez ou faz para ser assim e por que eu deveria me preocupar com isso. No dia em que escrevi a versão original desse texto, descobri que estava vivendo o que a astrologia chama de inferno astral. Isto é, de acordo com os astrólogos, o inferno astral de um ariano (que é o meu caso) ocorre quando “o Sol está passando pela constelação de Peixes no céu”. Basicamente, o inferno astral de qualquer pessoa será sempre o signo anterior ao signo dela; sendo assim, o signo anterior ao de Áries é o de Peixes. As razões pelas quais acreditam nisso, todavia, eu não quis saber.

O que é Mercúrio retrógrado e por que as pessoas o culpam quando alguma coisa dá errado?

Sabendo que cada um mete o louco à sua maneira no Carnaval e isso não é problema meu, por estar em ambiente hostil e cercado de gente que acredita no que dizem os horóscopos e os mapas astrais, resolvi (tentar) compreender a visão da astrologia sobre o “fenômeno” e descobri que, de acordo com essa pseudociência tão adorada até mesmo por alguns psicólogos e cientistas, as coisas tendem a ficar instáveis e confusas na fase chamada Mercúrio retrógrado; a qual, em linhas gerais, o planeta estaria andando para trás. Sim, anos depois da Teoria da Relatividade, da visita da New Horizons a Plutão e ao cinturão de Kuiper; e em uma época na qual Estados Unidos e China têm robôs explorando Marte, há quem acredite que Mercúrio anda pra trás.

Brincadeiras à parte, o conceito de Mercúrio retrógrado já começa errado para mim (que entendo um pouco) e para quem entende muito sobre Astronomia. Como amante dessa Ciência tão maltratada, aprendi que Mercúrio retrógrado não existe porque nenhum planeta orbita o Sol de maneira retrógrada: no caso de um suposto movimento de translação “ao contrário” , tudo não passa de ilusão de ótica para um observador que esteja na Terra. Simples assim. Como alguém pode basear uma ideia em algo que, simplesmente, não existe?

Além de Mercúrio retrógrado, fizeram meu mapa astral
Para quem quiser me definir pelo signo, eis o mapa que fizeram pra mim em 2020. rsrsrs
Foto: Astrolink

Ainda assim, houve quem ousasse colocar a culpa no pobre planeta pelas turbulências que chacoalharam a minha vida durante o início do ano passado. Sem qualquer arrogância ou aquela soberba acadêmica da qual eu sou um crítico ferrenho, posso dizer que essas pessoas falharam miseravelmente na missão de encontrar explicações místicas para tentar explicar meus infortúnios; e eu vou dizer o porquê. Aos fatos: de acordo com os astrólogos e simpatizantes, a última vez que Mercúrio esteve retrógrado, em 2019, foi entre 31 de outubro e 20 de novembro. Memorize esse período, caro leitor.

Em 2019, o meu namoro acabou após umas coisas que vieram à tona; coisas estas inaceitáveis até mesmo para o cara mais liberal do mundo, não pelo ocorrido em si, mas pela conspiração e pelas tramas envolvidas; mas isso não vem ao caso. Por ter uma memória boa, sei que o alarme mais evidente de que tinha algo errado disparou no dia 20 de outubro; e também me lembro de que eu recebi uma das piores notícias da minha vida no dia 12 de dezembro. Comparando com o período que pedi para memorizar, temos onze dias antes do início e e vinte dois dias após o fim do que alegam ser um fenômeno astrológico capaz de instabilizar nossas vidas.

Que mané Mercúrio retrógrado, Mercúrio é inocente! Mas temos de procurar um culpado, não?

Se eu não fosse tão bom com datas, poderia ter me deixado levar pela explicação dos leitores do Personare e caído na história para boi dormir, ainda que bem contada, sobre os infortúnios da minha nada mole vida naquela época. O meu veredito é que o pobre e minúsculo planeta é inocente!

Como falharam nessa primeira justificativa, tentaram explicar a minha, digamos, sensibilidade e inquietude alegando que eu estaria, desde o dia 20 de fevereiro daquele ano, passando pelo meu inferno astral, já que eu sou do signo de Áries e o Sol começa a passar pela constelação de Peixes nessa data.

Só que a minha vida estava uma bagunça desde 2019, sem tréguas, sem planetas ou constelações que pudessem me ajudar. A diferença é que, dia após dia, por esforço próprio e com ajuda profissional, fui tendo mais jogo de cintura e tranquilidade para lidar com os altos e baixos. Como já estava envolvido até o pescoço com a pseudociência, fui além e descobri que os meus pares perfeitos seriam as pessoas do meu signo e, além disso, quem nasceu sob o signo de Leão, Libra ou Sagitário.

Meu maior relacionamento durou oito anos; e a pessoa por quem fui perdidamente apaixonado era, adivinhem, Leonina. Como se não bastasse, Leão ainda seria o meu paraíso astral. De acordo com os aspirantes a João Bidu, a combinação perfeita! Só que não. Descobri ainda que o meu ascendente é Sagitário, só não entendi bem o que isso significa na prática e, sendo honesto, não tinha qualquer interesse em entender.

Penso, logo existo / Eu acredito, logo estou certo
Foto: Reprodução/Internet

Onze anos atrás, em 2010, antes de começar o meu namoro mais longo, namorei uma sagitariana por alguns meses. No final das contas, ela terminou comigo porque estava entediada. Logo depois, arrumou um namorado, casou e, até onde sei, teve filho. Em janeiro de 2020, conheci uma menina foda, inteligente, linda e adorável. Tudo se encaixou. Adivinhem o signo? Capricórnio, um dos signos com a menor chance de combinação com Áries. Por que não deu certo? Simples: por culpa exclusivamente minha, não por falta de afinidades; simplesmente porque eu não estava preparado para um compromisso sério naquele momento. Mas a culpa não foi das estrelas, foi minha, por ter sido burro a ponto de nutrir por meses o sentimentos por uma leonina que estava se lixando para mim e fazia questão de mostrar isso.

Há 17 anos, conheço uma taurina de quem me aproximei do ano passado pra cá: mulher foda, inteligente, linda, fala alemão como uma nativa, alguém que minha antiga escola permitiu se aproximar de mim, mas que as coisas da vida fizeram que ela morasse na Alemanha e arrumasse um namorado por lá; mas somos amigos e isso é o que importa. De acordo com a astrologia, porém, ela não seria uma boa combinação para mim por ser do signo de Touro.

Enfim, acho que vocês já têm ideia da conclusão que eu quero tirar disso tudo. Ainda assim, eu poderia passar horas tentando defender o meu ponto de vista com evidências científicas de que astrologia é placebo: só funciona para quem acredita e se deixa influenciar. Poderia, ainda, dizer que os acertos atribuídos aos astros podem ser explicados por dois mecanismos psicológicos inerentes ao ser humano: o viés de confirmação e o viés de retrospectiva.

Sobre o viés de confirmação e o viés de retrospectiva

Como já tentei deixar claro desde o início desse texto, a minha intenção aqui nunca foi pregar para convertidos, pois todos sabemos que cada um já é feliz (ou acredita que é) com a maneira com a qual enxerga o mundo e suaviza a realidade dura e cruel, tentando atribuir um sentido metafísico às intempéries da vida. Porém, também não posso me autocensurar com medo de ser acusado de roubar a brisa alheia apenas porque as crenças dela não resistem a um questionamento.

Sendo assim, acho que você, caro leitor, já leu alguma coisa em um horóscopo que, até certo ponto, fez sentido pra você. É uma característica típica inerente a nós, seres humanos, tentar encontrar sentido em tudo o que nos acontece. Dessa forma, ficamos mais vulneráveis aos efeitos do vieses de confirmação e de retrospectiva que introduzi no final do tópico anterior.

Mercúrio Retrógrado no viés de confirmação
Foto: Reprodução

Enquanto o viés de confirmação explica a nossa tendência em aceitar informações e características que combinem com o que sabemos ou acreditamos, ignorando as demais; isto é, a nossa mente está disposta a enxergar apenas aquilo que faz sentido para as nossas crenças.

viés de retrospectiva, por sua vez, explica a tendência que o indivíduo tem de lembrar-se dos acertos e esquecer-se dos erros: isto é, é mais fácil se lembrar de uma previsão que se concretizou do que daquelas que deram errado. Você, por exemplo, se lembra daquela previsão de uma semana maravilhosa ou daquele aumento de salário que você iria ter e não teve? Talvez não porque não se concretizou e você, subconscientemente ou não, ignorou.

Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu te digo

Quem entende de signos alega que eu sou um cara chato, arrogante, briguento, difícil de lidar e tudo de ruim; mas ignora os aspectos positivos que, provavelmente, eu deva ter. Dizem que o lado bom dos arianos, por exemplo, consiste no fato de serem pessoas honestas, leais e que odeiam violações a esses dois valores.

E de fato eu me considero assim, mas não porque sou ariano; e sim porque eu acho que as pessoas deveriam ser assim, não faltando com a verdade para com as outras pessoas, ainda mais quando as mentiras são capazes de causar danos (quase) irreparáveis aos indivíduos que são expostos a elas. E não falo isso com aquela ideia de fazer o bem para conseguir algum prêmio ou ganhar uma vaga no céu.

Yeah Science, Bitch | Mercúrio retrógrado
Foto: Reprodução/Know Your Meme

Para mim, ser honesto não é ser besta, como muitos pensam. Ser honesto, de acordo com os parâmetros para se viver bem em sociedade, é uma atitude inteligente; não se trata de se sentir especial por agir como a “alma mais honesta do mundo”. Todos nós temos o nosso lado ruim e oculto; é fato que eu também sei ser ruim, mas por que eu seria? Apenas para suprir os meus desejos de vingança?

A questão é que alguns adeptos da astrologia se parecem com alguns evangélicos lendo a Bíblia e seguindo apenas o que interessa a eles. Obviamente, não acredito em qualquer estereótipo atribuídos a mim, mas confesso ser difícil lidar com a ideia de que alguém, sem nunca ter trocado qualquer ideia comigo, define que sou de tal jeito porque sou do signo de Áries. O mais contraditório nisso tudo, na minha visão, é que essas pessoas são as mesmas que dizem não se rotular ou ficar dentro de caixinhas. What about agir da maneira que o seu signo diz que você é, bitch?

Mercúrio retrógrado está para o entendedor de Astrologia tal como o torcedor mais fiel está para o seu time

Uma coisa é certa: existindo ou não, sendo verdade ou mentira, se você se relaciona com alguém que leva tudo isso a sério e acredita em mapas astrais a ponto de justificar os seus erros e acertos, pode ter certeza que tais convenções irão funcionar; subconscientemente ou não, esses indivíduos agirão de tal maneira que todas as características e ações esperadas para tais características irão se concretizar.

Um exemplo prático: namorar uma leonina e ter dois ex-amigos (isso existe?) leoninos me fez penar com manipulações, com o caráter orgulhoso daqueles que eram incapazes de reconhecer que estavam errados em alguma coisa. O plano de fundo para determinados comportamentos era nada mais e nada menos que a astrologia. Quando eu ficava puto por tamanha manipulação, adivinha o que acontecia? Eu tinha o meu repúdio deslegitimado porque nasci em Abril sob o signo de um carneiro. Depois que entraram em minha vida, muita coisa virou um inferno porque, vez ou outra, sempre estavam metendo signos em tudo.

Ao vivo é muito pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista)

O último ano, ao contrário do que muitos pensam, não me tornou pessimista com a vida. Muito pelo contrário, aprendendo que a vida se vive aqui e que não é preciso haver qualquer sentido para ela, ficou mais fácil abstrair a ideia de que viver é, sim, esses altos e baixos; e eles não têm nada a ver com fatores metafísicos, ou com a infinitude do Universo querendo nos testar.

Hoje, como nunca, me tornei alguém mais pé no chão do que eu já era. Me sinto bem melhor assumindo a responsabilidade pelos meus atos sem buscar culpados para justificá-los; e sem usar qualquer muleta como desculpa para me isentar de minhas obrigações e dos meus BOs. De acordo com o psiquiatra e psicoterapeuta suíço, Carl Jung, “até você se tornar um indivíduo consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”.

Coloquei-me em minhas próprias mãos e recuperei a minha saúde: a primeira condição de sucesso em tal objetivo é que, no fundo, o homem goze de suas plenas faculdades mentais. Uma natureza intrinsicamente mórbida não se tornará, jamais, saudável. É sob essa luz que, agora, avalio o longo período de infortúnios que suportei: redescobri a vida e a mim mesmo. Provei todas as coisas boas e, mesmo as ninharias, consideradas banais por aqueles que gozam de uma vida mais confortável, tornaram-se mais prazerosas. Eu fiz a minha filosofia.

Friedrich Nietzsche em Ecce Homo (1908)
Páginas 12 e 13

Muito dessa visão não me impede de enxergar e usufruir as pequenas alegrias da vida, todavia. Nunca me considerei tão bem quanto agora, e olhe que as mudanças mais extraordinárias não aconteceram na minha vida externa, apenas internamente. Confesso que Nietzsche e o Estoicismo têm um pouco de culpa nisso. Enquanto um me fez quebrar toda a má consciência que certas doutrinas nos impõem quando queremos exercer nossas vontades, o outro me fez me prender às coisas sobre as quais eu tenho algum poder de mudança.

Depois de tudo isso, só quero deixar reforçar a ideia de que não sou contra a astrologia como uma maneira individual de se conectar com o universo, alienígenas, Nirvana ou qualquer coisa assim. Cada um faz o que quer, com quem quer e do jeito que quer. Para mim, astrologia é como uma religião qualquer: se você está feliz individualmente e não a utiliza como bode expiatório para as suas atitudes, ótimo. Por mais que eu não concorde e tenha várias ressalvas a fazer, respeito plenamente o seu direito de crer no que ou em quem quiser e me abstenho de opinar.

Todavia, se alguém me pedisse para indicar alguma coisa alguma coisa, seria o episódio do “Explicando”, da Netflix, que fala sobre a astrologia e aponta os estudos que explicam o porquê de os astros não interferirem no comportamento das pessoas. O episódio tem menos de trinta minutos e não utiliza jargões científicos e arrogantes para passar a mensagem e ajudar a esclarecer alguns pontos importantes sem comprar briga com adeptos do João Bidu, do Personare ou da Capricho.

É provável que os resultados das sensações religiosas, morais e estéticas pertençam apenas à superfície das coisas, enquanto o indivíduo gosta de acreditar que, por meio dessas sensações, ele está pelo menos em contato com a essência do mundo. A astrologia acredita que o céu estrelado gira em torno do destino de cada indivíduo; e o sujeito moral supõe que os anseios de seu coração devem constituir, também, a essência e o coração de todas as coisas.
A razão pela qual ele se ilude é que tais sensações produzem, nele, uma profunda felicidade e infelicidade; e, portanto, ele sente o mesmo orgulho com a astrologia.

Friederich Nietzsche
Human, All to Human
Capítulo 1.4

Foto: JavierPardina / Adobe Stock

Siga o Por Dentro do RN também no Instagram e mantenha-se informado.

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa pela área musical, Astronomia, serpentes e tem uma simpatia por aviões; e tudo mais que o ajude a sair do tédio. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Instagram: @gustavoguedesv
Twitter: @gstvgds

Universo Genial 175 mil

Universo Genial: como um estudante de Física criou, por meio do humor, uma das maiores páginas sobre divulgação astronômica do Instagram

Conheça Jeferson Stefanelli, que criou o Universo Genial para aproximar a Astronomia do público leigo por meio do humor no Instagram.

Por Gustavo Guedes, para o Por Dentro do RN

Dando continuidade ao projeto de escrever sobre páginas e canais que tratem da divulgação científica na Internet, me entrei em contato com Jeferson por e-mail e quis saber um pouco mais sobre o seu trabalho, suas aspirações profissionais e as motivações que o levaram a criar um dos perfis que eu mais gosto (e acho engraçadas) no Instagram.

O Universo Genial entrou na minha vida quando um conhecido compartilhou uma foto da suporta descoberta da tão falada fosfina no planeta Vênus. Na época, chegaram a dizer que isso seria um indício de vida. Tempos depois, porém, revisaram o estudo e perceberam que a substância nem era tão abundante assim na atmosfera do planeta.

Fundador do Universo Genial no Instagram e Facebook
Foto: cedida pelo entrevistado

Quem é Jeferson Stefanelli?

Imagine o que é ser um estudante de exatas que conseguiu o feito de ter 175 mil seguidores no Instagram. Esse é o caso de Jeferson Stefanelli, dono da Universo Genial, página humorística que procura simplificar a Astronomia para o público geral. Nascido no município paulista de São Bernardo do Campo, casado com Vânia e pai da estudante de Psicologia Letícia, Jeferson é um jovem de 43 anos, apaixonado por Astronomia e um fã inveterado de Carl Sagan, um dos cientistas mais importantes do século XX.

“Sempre fui um apaixonado pela Astronomia desde os meus 9 anos, quando li o grande livro Cosmos, de Sagan”, diz Jeferson, que revela que essa foi a inspiração dele para, ainda em 2014, criar a página do Universo Genial no Facebook, que conta hoje com quase 40 mil curtidas.

Como aconteceu a migração do Universo Genial para o Instagram?

Há três anos, após o Facebook começar a perder o protagonismo que já teve outrora, Jeferson resolveu migrar a página para o Instagram, plataforma que mais cresceu nos últimos anos. Para Jeferson, o cabeça por trás dos posts humorísticos no Universo Genial, a motivação para a criação da página veio pela sua paixão pela Astrofísica, que estuda há doze anos e o fez entrar em licenciatura em Física.

E foi no Instagram que Jeferson conseguiu a visibilidade que poucos têm atualmente, ainda mais quando se trata de um assunto maltratado pelos “jovens místicos” de hoje em dia: a Astronomia. Com posts engraçados, o Universo Genial me arranca boas gargalhadas e, ao mesmo tempo, me despertam a curiosidade para explorar mais sobre o tema.

E não é porque são engraçados que não têm papel didático. Muito pelo contrário: durante as lives que realiza com certa frequência, no contato direto com seus seguidores, Jeferson ajuda a simplificar a Astronomia de uma maneira de dar inveja a qualquer professor que se proponha a tarefa.

Stefanelli é um fã incondicional da Ciência, uma de suas maiores, se não a maior, paixão.

Stefanelli, que ainda não é formado, sempre deixa isso claro em seus vídeos. Além disso, segundo suas próprias palavras e independentemente do cargo profissional que ele exerça enquanto pessoa , o Universo Genial tem a função de “compartilhar os assuntos mais complexos da Astronomia de uma forma mais simples”.

Como seguidor e entusiasta da Astronomia, posso dizer que o futuro Físico (ou professor de Física?) vem fazendo esse trabalho muito bem. Jeferson é mais um dos divulgadores científicos da Internet que adotam o “humor ácido para combater as pseudociências que infestam o Brasil atualmente”. E é isso o que importa: combater charlatões e pseudociências.

Sobre as pseudociências e a divulgação científica no Brasil

Quando o assunto são as pseudociências, o fundador do Universo Genial é categórico. Sem titubear, as pessoas acreditam em pseudociências porque “não precisam pensar”. Basta perceber o número de pessoas que se deixam levar por promessas absurdas e soluções “quânticas” para problemas ordinários que fica fácil concordar com Jeferson.

Na minha opinião, o termo “quântico” é o novo “gourmet: um termo que tem um sentido totalmente diferente daquele que foi apropriado e adotado por charlatões para ganhar dinheiro dos indivíduos mais incautos, para não dizer burros. Mas é como diz o velho provérbio popular: todos os dias saem de casa um malandro e um besta. Quando os dois se encontram, alguém faz negócio.

De acordo com Jeferson, a sociedade e a mídia, atualmente, “se aproveitam desses temas e do sensacionalismo porque é mais rentável” e o estudo demanda “anos e anos de estudos, de experimentação”. A Ciência, por sua vez, se atém aos fatos e ao Método Científico; e isso faz com que não “haja espaço para achismos”.

E você, caro leitor, qual o seu papel nisso tudo?

Sobre o ensino das Ciências nas escolas, administrador do Universo Genial diz que é preciso mudar o modo de se ensinar Ciência na escola

Conforme eu disse no texto anterior, eu era um desastre na escola quando o assunto era relacionado às Ciências Exatas; um verdadeiro desastre. Certamente, não isento a minha parcela de responsabilidade na minha trágica trajetória pelos cálculos, porém, de acordo com o próprio Jeferson, é preciso que haja “uma mudança geral da grade curricular nas escolas”; e acabar com a ideia de que “o conhecimento de alguém é baseado em responder perguntas automaticamente”.

“O conhecimento tem quer adquirido com vontade, com prazer, não como obrigação”, diz Stefanelli; e deixa claro que, obviamente, as técnicas existem e devem ser utilizadas, de maneira que fique mais fácil esquematizar o pensamento, porém, elas podem ser “simples, criativas e cativantes, não mecânicas”.

Stefanelli conta que as ideias para as publicações no Universo Genial vêm mais à noite e, às vezes, por meio dos próprios seguidores

Perguntei a Jefferson de onde vinham todas as ideias que eles tinham para as postagens que ele faz no perfil do Universo Genial no Instagram. Segundo ele, elas surgem mais no período noturno e, muitas vezes, são ideias dos próprios seguidores da página.

“Durmo com um bloco de notas ao lado da minha cama e vou anotando as ideias que aparecem durante a noite”, diz; e conclui dizendo que as inspirações também surgem nas lives que realiza com seus fiéis seguidores.

Relação entre trabalho e família: o velho embate entre Religião e Ciência

Jeferson é casado com Vânia Stefanelli. Juntos, tiveram uma filha chamada Letícia, que está no terceiro ano da Psicologia. Ao ser perguntado sobre o apoio que recebe da esposa, alega que Vânia sempre o apoiou em seus projetos pessoais e profissionais.

O problema “é que parte da família não compreende muito bem o trabalho que desenvolvo fazendo divulgação científica na Internet”, diz. Sei bem como é, Jeferson; imagine o que é dizer aos pais que decidiu estudar Jornalismo? Um curso para o qual nem exigem diploma hoje em dia. Mas o importante é fazer o que se gosta!

Letícia, filha de Jeferson, à esquerda; Jeferson Stefanelli ao centro
e Vânia, à direita
Foto: cedida pelo entrevistado

Por ter um posicionamento ácido e uma visão pouco ortodoxa em relação às religiões, já que é ateu, Jeferson diz que algumas pessoas da família não gostam muito do que ele faz. Sobre Vânia, todavia, Stefanelli não poupa palavras: “ela sabe dessa minha paixão em melhorar o conhecimento científico de quem tem interesse”, conclui.

Nas conversas com a esposa, Jeferson sempre diz não querer ser famoso, que a fama é passageira, mas que “quer ser lembrado por alguém quando falarem sobre Astronomia”, afirma.

Sobre realizações pessoais e profissionais com o perfil do Universo Genial

Perguntado sobre se a página no Instagram e Facebook já dão alguma espécie de retorno financeiro, Jeferson afirma que “bem pouco”, porém, a realização pessoal com o projeto é diametralmente oposta aos ganhos monetários.

Para ele, o Universo Genial é “um lazer, um hobby; é sempre um prazer falar sobre ciência com quem quer ouvir”, diz. Além disso, Stefanelli reconhece que o projeto no Instagram permitiu e permite o contato e o networking com grandes nomes da divulgação científica ao redor do mundo: “do Brasil à Italia, da Grécia aos Estados Unidos, do Chile até a Índia”, conclui.

No final da entrevista, pedi para Jeferson deixar uma mensagem para os leitores do Por Dentro do RN que o seguem no Instagram. Em nome da página do Universo Genial, Stefanelli disse que agradece a atenção e carinho de todos e deixou uma mensagem para os fãs: “a única coisa que nos diferencia das outras oito milhões de espécies catalogadas em nosso planetas é a racionalidade; então, vamos utilizá-la, questionando, pesquisando e, por fim, não acreditando em algo só porque alguém pediu para acreditar”.

Em nome do Por Dentro do RN, agradeço ao Jeferson pela atenção dispensada a mim, enquanto repórter, e reforço, enquanto entusiasta da Ciência, que sem ela e sem os divulgadores científicos que tentam simplificá-la para os leigos, a situação talvez estaria bem pior atualmente, em meio a tanto obscurantismo. No mais, que tal vocês acompanharem o Jeferson lá no Instagram?

Vamos desejar sucesso ao Jeferson e vida longa ao Universo Genial!

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa por Música, Astronomia, Serpentes, Aviação e tudo mais que ajude a sair do tédio. Não acredita em signos e não tem muita paciência para quem baseia sua vida em Astrologia. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Gostou do texto? Como estou escrevendo?
Instagram:
@gustavoguedesv
Twitter: @gstvgds
Tem alguma pauta interessante pra mandar? [email protected]

Divulgadores Científicos do Brasil

Divulgadores científicos no YouTube e a guerra contra negacionistas e charlatões

Divulgadores científicos jovens e veteranos usam o YouTube como arma contra o negacionismo e querem aproximar o público da Ciência.


Por Gustavo Guedes, para o Por Dentro do RN

É fato que o negacionismo científico é um fenômeno recorrente em boa parte da existência humana. Não importa se ele ocorre por fatores religiosos, pela guerra política de versões sobre um mesmo fato, ou ainda pelo simples desconhecimento do método científico por parte de nós, brasileiros leigos; o tal do negacionismo sempre esteve ali, latente, à espera de alguém que o tirasse das sombras e o defendesse publicamente.

Mas o negócio parece que ficou feio de uns anos pra cá, principalmente: terraplanismo, movimento antivacina, ataques coordenados às instituições públicas de qualidade etc. Um dos resultados dos constantes ataques sofridos pela Ciência no Brasil é a saída de jovens cientistas para outros países onde possam ser valorizados de verdade. Além disso, tudo piora em meio ao mar de desinformação, às notícias sensacionalistas e ao negacionismo que tomam conta das redes sociais e dos aplicativos de mensagens.

Negacionista - Dicio, Dicionário Online de Português.

Na tentativa de combater esse tipo de comportamento, um grupo brasileiro de divulgadores científicos tomou para si a ingrata missão de aproximar a Ciência daqueles que nunca tiveram acesso a ela de maneira eficiente, maneira esta contrária ao comportamento arrogante de parte da Academia, que se isola em seu Olimpo intelectual; ou ainda à metodologia equivocada do ensino das Ciências que é aplicada até os dias de hoje, baseada no ensino mecânico e, muitas vezes descontextualizado, de postulados, fórmulas, cálculos e mais cálculos.

E é sobre esse grupo de divulgadores científicos no YouTube do qual irei falar neste texto.

O problema, para mim, sempre esteve na base

Particularmente, sempre fui um desastre na escola quando o assunto envolvia os temidos cálculos. Acreditem, eu era uma verdadeira lástima. Fico arrepiado só de me lembrar do período da escola, onde enquanto passava direto nas disciplinas da área de Humanas, sofria para aprender as “Quatro Leis da Termodinâmica” na Física ou as “Equações Logarítmicas” na Matemática; mas quem disse que eu aprendi?

Instituto Reis Magos, 2007.
Eu sempre gostei, digamos, de atividades mais dinâmicas.
Foto: Gustavo Guedes, Natal, ano de 2007

Embora não reclame da minha área profissional, é claro, a razão acima é uma que me fez escolher iniciar e seguir uma carreira no Jornalismo. Não que atualmente isso seja visto com glamour, é claro, em decorrência da quantidade de colegas apelando para a situação em que vivemos. Mas, como diria a mamãe, eu não sou todo mundo, né? Há bons e maus profissionais em todas as áreas.

Divulgadores científicos do YouTube simplificam a Ciência como estratégia para combater o negacionismo

Passado o trauma do período escolar, meu espírito curioso me fez dar outra chance à Ciência, agora sem a necessidade de fazer provas para passar de ano. Com o surgimento de canais sobre Ciência no YouTube brasileiro nos últimos anos, passei a acompanhar de perto o crescimento dos canais de divulgadores científicos na plataforma; e confesso que foi uma das melhores coisas que eu fiz na vida.

O interessante disso tudo é que se alguém me perguntasse algo sobre Astronomia ou Física dez anos atrás; ou sobre Genética, ou ainda sobre a composição da rarefeita atmosfera marciana, provavelmente, eu agiria um dos seres mais ignorantes na Terra para responder qualquer uma delas; e esse verbo “agir” aqui, conjugado no futuro do pretérito, é para demarcar que, hoje, eu já sou bem menos ignorante que dez anos atrás e não ajo mais dessa forma. Inclusive consigo conversar, minimamente, sobre esses temas; e sem aquela chatice acadêmica que 99% das pessoas não entendem.

Muito desse avanço, sem dúvidas, pode ser creditado aos divulgadores científicos que citarei logo abaixo; e os quais indico com toda a satisfação do mundo, aproveitando este espaço para, com minhas palavras, ajudar a despertar a curiosidade científica de quem me acompanha por aqui.

Conheça 7 divulgadores científicos para acompanhar no YouTube

1 – SPACE TODAY, com Sérgio Sacani

Sérgio Sacani
Foto: Reprodução/Space Today

Sérgio Sacani é um geofísico formado pela Universidade de São Paulo, que se tornou mestre em Ciências e Engenharia do Petróleo pela Universidade de Campinas e doutor em Geociências também pela Unicamp.

Olhando assim parece só mais um acadêmico dentre os vários que usam do seu cargo para destilar um certo ar de superioridade, mas é totalmente o contrário: de maneira simples e didática, Sacani sempre grava vídeos e realiza lives em seu canal no YouTube, o Space Today; no qual comenta sobre os principais acontecimentos da Astronomia no Brasil e no Mundo; desde que você não use espaço para comentários no YouTube para perguntar sobre Alcântara, é claro. Além disso, o produtor de conteúdo também realiza diversas lives observando o céu ou ainda transmitindo os lançamentos espaciais da Nasa e outras agências espaciais.

Brincadeiras à parte, o Space Today foi o primeiro canal de divulgação científica que ganhou a minha atenção e minha inscrição no YouTube. Foi lá que eu aprendi que não é apenas o planeta Saturno que possui anéis, Urano também possui um sistema de anéis e vários outros planetas também possuem essa característica. Além disso, o produtor de conteúdo também possui um site onde fala sobre Astronomia e uma loja online onde vende artigos com a mesma temática.

Conhecer o canal do Serjão foi a porta de entrada para começar a seguir vários outros divulgadores científicos no YouTube e nas redes sociais.

2 – CANAL DO SCHWARZA, com Schwarza

Divulgadores científicos do YouTube - Schwarza
Foto: Reprodução/Twitter

“Scalobaloba! Olá, pessoas, eu sou o Schwarza. Quem acompanha o Schwarza no YouTube já tem essa saudação decorada de cor.

Dono do Canal do Schwarza, o divulgador científico Júnior Silva, ou Schwarza como todos conhecemos, estudou um curso integrado de Astronomia na Escola Municipal de Astronomia e Astrofísica (EMA) e é associado da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB).

Schwarza começou com o canal Poligonautas, ainda em 2011, e falava basicamente sobre jogos. O giro para a Astronomia ocorreu quando o divulgador científico fez um vídeo falando sobre algumas curiosidades sobre o Sol, que foi um sucesso.

O que eu gosto no Canal do Schwarza é o jeito simples e direto de falar sobre temas que, nem sempre, são tão simples; mas ele consegue fazer esse feito com maestria, e ainda me desperta a curiosidade para pesquisar mais sobre determinado tema. Um dos meus vídeos favoritos do canal é o que trata sobre como alguns fungos encontrados na usina nuclear de Chernobyl podem ajudar futuras missões tripuladas até o planeta Marte. Por que eu não aprendi algo assim na escola?

Divulgadores científicos do YouTube - Schwarza e seus gatos
Foto: Reprodução/YouTube

Além disso, que tipo de professor dá aulas com a participação de seus dois gatos? Também por isso o Canal do Schwarza está nessa lista aqui.

3 – CAFÉ E CIÊNCIA, com Felipe Hime

Divulgadores científicos do YouTube - Felipe Hime
Foto: Reprodução/Facebook

O canal Café e Ciência entra nessa lista porque o Felipe Hime é dos meus, alguém que não tem paciência para “goiabões”, apelido carinhoso que ele atribui aos conspiracionistas que adoram acreditar e repercutir teorias mirabolantes que se encaixem em seus delírios mentais. Em março de 2021, o divulgador científico carioca divulgou em seu Twitter que iria se inscrever para ir para a Lua com a Space X, do bilionário Elon Musk; e gravou um vídeo no qual explica o porquê de querer participar da missão, programada para 2024.

Hime, que estuda Astronomia no Observatório do Valongo, da UFRJ, além de produzir conteúdo de qualidade na divulgação científica, se diferencia dos demais no quesito de provocar o caos e tirar onda da cara de quem, por pura maldade, vive de propagar desinformação na Internet.

Meus vídeos favoritos são aqueles em que ele comenta sobre vários artigos científicos publicados, muitas vezes ao vivo, a fim de evitar o sensacionalismo e desfazer equívocos da imprensa acerca de algum tema que esteja em evidência. Além de transmitir os lançamentos que ocorrem ao redor do mundo.

4 – CIÊNCIA TODO DIA, com Pedro Loos

Divulgadores científicos do YouTube - Pedro Loos
Foto: Reprodução/YouTube

O Ciência Todo Dia é apresentado por Pedro Loos, um bacharel em Física da Universidade Federal de Santa Catarina que dá verdadeiras aulas sobre Ciência e Física no YouTube, de uma maneira que, particularmente, eu nunca vi em outro lugar; muito menos quando eu estudava.

Com mais de dois milhões de inscritos, o Ciência Todo Dia é um dos que mais abriram minha mente para a Física e o principal responsável por me fez perder o trauma do Ensino Médio, época em que eu passava maus bocados para passar de ano e falhei miseravelmente algumas vezes. Mas sobre isso a gente fala depois, ok?

Meus vídeos favoritos do canal vêm da série sobre Física Básica disponibilizada por Loos, que explica os principais conceitos da Física para leigos, como este que vos escreve.

5 – FÍSICA E AFINS, com Bibi Bailas

Divulgadores científicos do YouTube - Bibi Bailas
Foto: Reprodução/Twitter

Eu conheci o canal da PhD em Física Teórica de Partículas, Gabriela Padilha Bailas, por acaso. Estava passeando por algumas postagens da página “Dicas Anticoach”, no Instagram, e dei de cara com uma live dela com os administradores da página.

A “Dicas Anticoach” expõe e denuncia alguns charlatões que se apropriam de termos da Física e apelam para pseudociências com o intuito de enganarem os incautos da Internet. Por essa razão, costuma sofrer vandalismo pelos charlatões, que vez ou outra ameaçam a turma de processo.

“Kore kore! Bem-vindos a mais um vídeo aqui no Física e Afins. E foi assim que Bibi Bailas, como gosta de ser chamada, conquistou a minha inscrição e os meus likes em seu canal.

A divulgadora científica, que mora no Japão e trabalha na Universidade de Tsukuba, na província de Ibaraki, merece uma vaga nessa minha lista devido ao seu trabalho para desmascarar, com a autoridade de quem entende do assunto, a maioria dos golpistas que se utilizam das crenças metafísicas alheias para ganhar dinheiro.

Dentre os meus vídeos favoritos, eu destaco aqueles em que ela procura combater pseudociências que adoram enfiar o nome “quântico” em tudo: Reprogramação Quântica de DNA, Reiki Quântico, Lei da Atração e outras coisas que, na minha visão, não passam de baboseiras.

É um ótimo canal para você que, assim como eu, não acredita em nada disso e só busca explicações técnicas de alguém que, de fato, sabe do que está falando e transmite credibilidade no que se propõe a fazer.

O Nordeste também conta com representantes na lista de divulgadores científicos brasileiros no YouTube

Para os conterrâneos que estavam se preparando para me xingar por ter “esquecido” canais nordestinos de divulgação científica, não me esqueci de nada, cambada de apressados!

6 – PONTO EM COMUM, com Davi Calazans

Divulgadores científicos do YouTube - Davi Calazans
Foto: Reprodução/Instagram

Cearense de Fortaleza, Davi Calazans e é dono do maior canal de divulgação científica do Nordeste, o Ponto em Comum.  Biólogo de formação, pela Universidade Federal do Ceará, é também membro fundador do Science Vlogs Brasil, “o selo que atesta a qualidade da divulgação científica”, de acordo com o perfil deles no Twitter.

Além do fato de ser nordestino, o que por si só já o faz ter um espaço garantido por aqui, os vídeos publicados por Davi me chamam atenção por causa dos títulos chamativos, que despertam a minha curiosidade assim que recebo as notificações do canal no meu celular. Há momentos em que eu me pergunto: como é que eu não pensei nisso antes?

Você sabe por que abacates não deveriam existir ou por que os gatos são líquidos? E sobre a razão pela qual um tom de azul bebê fez com que o QI de crianças diminuísse, você sabe? Bom, eu não posso explicar por aqui, mas você pode aprender no Ponto em Comum.

7 – MISTÉRIOS DO ESPAÇO, com Alexsandro Mota

Divulgadores científicos do YouTube - Alexandro Mota
Foto: Reprodução/Twitter

Por fim, mas não menos importante, indico o canal Mistérios do Espaço. Alexsandro Mota é de Conceição do Coité, no interior da Bahia, e talvez seja o mais novo dessa lista.

Estudante de Comunicação Social na Universidade do Estado da Bahia, Alexsandro é divulgador científico faz seis anos e, como gosta de dizer, criou o canal com o objetivo de tornar a Astronomia mais popular entre o público leigo.

No blog que mantém com o mesmo nome, está constantemente traduzindo, escrevendo e adaptando matérias com abordagem didática.

Conheci o Mistérios do Espaço em 2021, ao assistir a um vídeo no qual Alexandro manda um balão estratosférico com uma câmera acoplada na atmosfera superior da Terra, a mais de 40km de altitude.

Além disso, o divulgador científico baiano ainda grava lives apontando o telescópio para a Lua, além de realizar astrofotografia em seu perfil no Instagram.

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa por MúsicaAstronomiaSerpentesAviação e tudo mais que ajude a sair do tédio. Não acredita em signos e não tem muita paciência para quem baseia sua vida em Astrologia. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Gostou do texto? Como estou escrevendo?
Instagram:
 @gustavoguedesv
Twitter: @gstvgds
Tem alguma pauta interessante pra mandar? [email protected]

O Cangaço na Literatura

‘O Cangaço na Literatura’ tem conteúdo rico sobre o cangaço no Brasil

Sergipano Robério Santos é a cabeça por trás d’O Cangaço na Literatura’ e tem três livros publicados sobre a vida dos cangaceiros

Texto por Gustavo Guedes, para o site Por Dentro do RN

Se houver apenas cinco brasileiros que entendam sobre o período do cangaço no Brasil, o professor e escritor sergipano, Robério Santos, é uma delas com certeza. Dono de um canal com quase 260 mil inscritos e com mais de 40 milhões de visualizações, Robério discorre sobre os anos de pólvora e sangue nos rincões do sertão nordestino. O leitor incauto e desatento pode se perguntar: o que faz um tema tão antigo e datado chamar tanta atenção assim?

A resposta, embora simples, não é tão óbvia assim: talvez pelo fato de ter sido professor antes de se tornar escritor e criador de conteúdo para o YouTube.

De um jeito simples e muitas vezes descontraído, Robério se distancia da didática carrancuda e entediante que ainda predomina em grande parte das aulas de História nas escolas brasileiras e consegue atrair uma audiência assídua, para a qual pode explicar sobre os principais acontecimentos, curiosidades e personalidades do período.

Ainda que de maneira leve e informal, mas embasada nas dezenas de livros que servem de base para o seu trabalho, Robério faz questão de mostrar, em cada vídeo, as referências literárias das quais extrai a maioria das informações que transmite para o seu público.

Não importam se são volantes, cangaceiros ou testemunhas vivas dos períodos sombrios que assolaram o Nordeste nos anos 30, o escritor sempre tem alguma história para contar e sempre busca levar em consideração as diversas abordagens sobre o mesmo fato, não deixando que suas visões pessoais atropelem os acontecimentos.

Ora, nada mais justo que deixar as conclusões para o público que assiste aos vídeos e tiram um tempo para acompanhá-los, não é mesmo?

N’O Cangaço na Literatura, as histórias são contadas nos locais onde os fatos ocorreram

Ir até os locais onde os fatos ocorreram é o diferencial do canal ‘O Cangaço na Literatura’. Além de professor, escritor e criador de conteúdo, Robério ainda é o que costumo chamar de andarilho; não no sentido de nômade, mas de alguém que se embrenha pelo sertão percorrendo as trilhas abertas pelos cangaceiros e pelas volantes muitas décadas atrás.

Nininho e Robério, de O Cangaço na Literatura
Foto: Reprodução/Instagram

Sempre acompanhado de seu inseparável companheiro e cinegrafista Nininho, que também mora em Itabaiana, no interior de Sergipe, os inscritos podem ver as paisagens das histórias alternando entre os mandacarus, os xiquexiques, os vilarejos e as cidades visitadas e invadidas por Lampião e seu bando.

Entre os locais visitados, me veio à mente o local onde descansam os restos mortais do cangaceiro Jararaca, em Mossoró. O pernambucano de Buíque, José Leite de Santana, mais conhecido como Jararaca, tombou na cidade potiguar após ser preso pela tentativa frustrada de invasão à cidade. O cangaceiro foi morto após quatro dias detido na cidade do Rio Grande do Norte, e enterrado no cemitério Cemitério São Sebastião, em Mossoró.

Mas as aventuras não param por aí. Um dos meus vídeos favoritos (pode ser assistido acima) é o de quando Nininho e Robério fizeram uma visita noturna à Fazenda Patos, no município de Piranhas, nas Alagoas. No local, o bando do cangaceiro Corisco assassinou o proprietário da fazenda e mais cinco pessoas .

O vídeo, que foi gravado em 2018, voltou à tona em 2021 após os inscritos perceberem uma espécie de vulto branco nas imagens. Na ocasião, sem saber a razão naquele momento, Robério e Nininho correm assustados das ruínas da sede da antiga fazenda.

Focando na abordagem sobrenatural, Robério pega a estrada com o canal ‘Caça-Fantasmas Brasil’

Após os inscritos perceberem figuras estranhas nos vídeos de Robério, o canal iniciou uma expedição conjunta com os fundadores do canal Caça-Fantasmas Brasil, Rosa Maria e João Tocchetto, que procuram explicar fenômenos sobrenaturais também no YouTube.

A expedição começou a ser gravada na cidade de Itabaiana, em Sergipe, onde Robério nasceu e cresceu; e será transmitida nos canais oficiais d’O Cangaço na Literatura e do Caça-Fantasmas Brasil.

Após anos estudando sobre o Cangaço, Robério é autor de três livros sobre o tema

Robério Santos ainda é autor de três livros com a temática do cangaço, sendo eles: ‘As quatro vidas de Volta Seca’, que conta a história do cangaceiro Volta Seca; ‘Zé Baiano’, que conta sobre a vida do também cangaceiro Zé Baiano, conhecido, dentre outras coisas, por ferrar (feito gado!) suas vítimas, principalmente as mulheres, no rosto, nas nádegas e nas partes íntimas.

Por fim, lançado em 2021, o livro ‘Marca’ fala sobre, de acordo com o próprio autor, “do sertão profundo e seus perigos pela ótica de Marca, filha da aristocracia rural que se rebela contra os maus tratos e segue em busca do Padre Cícero para tentar entender os motivos de sua existência“.

O canal ‘O Cangaço na Literatura’ é indicadíssimo para quem, assim como eu, gosta de estudar História de uma maneira dinâmica e divertida. Nota 10!

Sobre Gustavo Guedes, colunista do Por Dentro do RN

Gustavo Guedes escreve texto sobre o Universo Genial

Gustavo Guedes tem 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Escreve quando quer, o que quer e do jeito que bem entende. Mas se interessa por MúsicaAstronomiaSerpentesAviação e tudo mais que ajude a sair do tédio. Não acredita em signos e não tem muita paciência para quem baseia sua vida em Astrologia. É proibida a reprodução total ou parcial deste texto sem autorização do autor e sem a inserção dos créditos, de acordo com a Lei nº 9610/98.
Gostou do texto? Como estou escrevendo?
Instagram:
 @gustavoguedesv
Twitter: @gstvgds
Tem alguma pauta interessante pra mandar? [email protected]

Morre Marília Mendonça após acidente aéreo; veja fotos CINCO deputados do RN votam pelo furo do teto de gastos Após rompimento de parceria com o Flow Podcast, hackers invadem iFood, trocam nome de restaurantes e dão apoio a Bolsonaro Azul mira compra da Latam Airlines e visa à criação de gigante sul-americana Homem se dá mal após tentar jogar drogas pela janela em Mossoró Adolescente de 16 anos é suspeito de matar os próprios irmãos, de 2 e 4 anos, no Rio de Janeiro Preço da gasolina sobe 47% em 2021 e já custa R$ 7,29 em Natal após novo reajuste Cidade faz ‘recall’ de vacinação após enfermeira da Cruz Vermelha injetar água e sal na população Mulher dá à luz dentro de elevador de condomínio na Grande Natal Operação Falsos Heróis: Polícia Federal deflagra 2ª fase de operação contra contrabando de cigarros; um policial foi preso e outro afastado Vulcão Cumbre Vieja em La Palma não dá sinais de abrandamento Cocaína no Ceará tem tudo, menos o princípio ativo da droga